sábado, 30 de abril de 2016

Se minha próxima refeição fosse a minha última refeição, eu pediria azeitona, salame, palmito, brócolis, farofa e azeite.

Se houvesse uma penúltima refeição, eu pediria pão francês bem quentinho com manteiga.

Se houvesse uma antepenúltima, eu pediria suco de laranja bem gelado.


Se, em vez de últimas refeições, eu pudesse pedir uma refeição impossível, seria a dobradinha com batata feita pela minha vó. Só de pensar, sinto o cheirinho - e é tudo o que posso ter. A minha mãe faz uma dobradinha bem boa, mas a da minha vó era inigualável.

terça-feira, 12 de abril de 2016

Uma sugestão

Se você não estiver muito feliz hoje, veja esse clipe. Aposto  que ao menos um sorrisinho magro vai aparecer na sua cara, nem que seja um bem magrinho.




Funcionou?

Toda vez que vejo esse clipe, eu fico girando pela sala, fingindo que também estou sob uma chuva de papel picado.

A musica é Ho Hey (que nome ótimo!) e a banda é The Lumineers. A letra é tão lindinha.







quinta-feira, 24 de março de 2016

Falta um pedaço

Os alunos são uns interessados na nossa vida. Querem saber se a professora tem marido, tem filhos, onde mora, por que não compra um carro. Eu particularmente sou um caso que deixa as crianças um pouco confusas. Sou uma mulher de "não tenho". 
Não tenho marido.
Não tenho filhos.
Não tenho carro.
Não tenho irmãos.

Mas o "não tenho" que mais causou comoção foi descoberto nessa semana. Um grupinho estava comentando o capítulo de uma novelinha infantil do SBT. A discussão rolava acaloradíssima, e alguém achou por bem pedir a minha opinião. Primeiro, eu disse que não conhecia a novela. Como assim, professora? Como assim? Todo mundo no universo e em todas as dimensões conhece essa novela.  Diante de tanto espanto, resolvi explicar o motivo da minha ignorância:

- É que eu não tenho televisão.

Silêncio. Todos  na sala olharam pra mim. Todos os olhos se arregalaram. Todas as bocas se abriram. Uma chuva de perguntas desabou sobre mim:

- Por que você não tem? Quebrou? Está no conserto? 
- Não, gente! É que eu me mudei, saí da casa da minha mãe e nunca comprei. 

Talvez se eu tivesse falado em grego, eles teriam entendido melhor. 

-Como assim? Como Assim?
- Gente, não tenho, ué. Não me faz  falta. Não gosto muito de novela, não vejo o jornal. Se eu quiser ver alguma coisa, posso achar na internet.

Minhas palavras entraram por um ouvido e saíram por outro. Continuaram todos chocados, e a televisão que não tenho virou tema do dia. Ainda tentei argumentar, explicar, mas decidi me calar depois de ouvir a sentença, proferida por uma criatura que ainda não chegou à segunda década da vida:

- Professora, você precisa de uma televisão. sua vida está incompleta.

P.S.: Eu não tenho netflix. Cancelei porque pagava e não usava.




quinta-feira, 10 de março de 2016

Acontece muito de eu estar subindo as escadas do colégio depois do recreio e alguém vir reclamar que o fulano tá implicando/puxando o cabelo/ tirando meleca do nariz e passando na blusa da colega. Daí que ontem eu tava lá subindo as escadas ( que são muitas) e equilibrando minhas tralhas  (que são muitas também), quando uma menina do sexto ano me puxou pelo braço e disse:

-Tia, o fulaninho ficou o recreio inteiro incomodando a gente. 

A menina não estava só, umas três outras meninas estavam lá com ela. As três sacudiram a cabeça, ratificando a fala da outra.

- Ah, é? O que ele tá fazendo? Vou conversar com ele.

- Ele tá  chamando  a gente de criança porque a gente trouxe boneca pra brincar no recreio.

Por um segundo, achei que tinha entendido errado. Elas têm 11 anos. Todo mundo diz que as meninas dessa idade não brincam de boneca.

- Vou conversar com ele. Pode deixar.

A menina continuou ainda inflamada:

- É, professora ( ainda estamos na fase de alternância entre tia e professora), briga com ele. Manda ele deixar a gente me paz. Porque a gente brinca de boneca, mas a gente não é criança.

É, não são, não!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

Aparentemente, moro no bairro mais legal do Rio. Toda, ênfase no "toda", pessoa pra quem eu conto onde tô morando sorri simpaticamente e diz: " Ah, que legal. Gosto tanto de lá! ". Existem as pessoas que nunca estiveram aqui mas que, ainda assim, têm certeza de que este bairrozinho é um lugar que elas certamente gostam de antemão.

Eu mesma nunca tinha colocado os pés nas ruas daqui antes, e a primeira impressão não foi das melhores. Quando vim conhecer o apartamento, peguei um taxista que se guiava pelo GPS e acabei fazendo um caminho tão bizarro que nem sei reconstituir. Era um fim de tarde bem cinza e não me lembro de ter visto o monte de carros e ônibus que passam ali na esquina. A árvore grandona que faz sombra no meu rosto enquanto escrevo me pareceu melancólica e meio assustadora.

Agora, faz quase um mês que recebo correspondências ( contas, obviamente) neste endereço. Um colega do trabalho me disse que este é o melhor bairro pra quem gosta de beber. Eu ri. Eu não bebo. Ele disse que, morando aqui, eu iria começar a beber. Já imaginei os donos dos bares forçando cerveja ( odeiooo, eca, é amarga) por minha goela abaixo. Ou então uma rede de abastecimento caseiro de bebida alcoólica: todas casas providas de encanamentos de água, esgoto, gás e cachaça.  Até agora, não descobri a torneira de cachaça da minha casa. As duas melhores descoberta até agora foram um sanduíche  divino de linguiça e a comidinha boa do bar da esquina ( boa, gente, muito boa! E barata!).  Ter comida apetitosa por perto deveria ser critério na hora de escolher onde morar. No meu antigo bairro, não havia nenhuma comida que realmente trouxesse felicidade. Passei muitos finais de semana, desejando que a minha pizzaria favorita em Nova Iguaçu tivesse um serviço de delivery beeeeem abrangente. Não tinha. Era sofrido.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Casa, gata, promessa e teto

Emma dorme na beirada da cama. Está estranha a minha gata. Perdeu o útero, a casa, os filhotes, tudo de uma vez. Passou dias miando doído, grudada na porta que ela já sacou que leva pra a rua. Eu também estranhei a casa, mas, ao contrário da Emma, estou aqui por vontade própria. Passei dois meses entrando e saindo de  outras casas menos legais até saber que viria pra essa. Na verdade, esse. É um apartamento. Há pessoas respirando, dormindo, fazendo sexo, cortando as unhas dos pés sobre a minha cabeça.Já não moro na casa silenciosa e fresquinha. Moro nesse apartamento luminoso, fincado numa esquina barulhenta. Passei noites sentindo o frear dos ônibus reverberando na sola dos meus pés. Que agonia. Por duas madrugadas, enfiei espuminhas protetoras nas orelhas pra forjar silêncio. 

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Aqui perto, bem perto, tem uma livraria. Nunca morei tão perto de uma livraria. Fui lá hoje em busca de um livro que me apetecesse. Nenhum me apeteceu. Acho que não sou mais uma pessoa de livros. Para não dizer que não li nada, abri um livro sobre gatos e acabei por descobrir que Emma pode ser surda. Vocês sabiam que gatos completamente brancos com olhos azuis têm mais chances de terem problemas auditivos? Emma é absurdamente branca, tem olhos azulzíssimos e é a gata mais silenciosa que já vi. Me disseram que a castração deixa o gato mais manso: tive medo de que Emma virasse de vez enfeite de estante. Li num blog que um bom teste de audição para gatos é ligar o aspirador de pó e observar a reação do bicho. Não me lembro como Emma se comporta na presença do aspirador e tô com preguiça de ligá-lo. Ainda não decorei onde ficam as raras tomadas dessa casa.

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Fiz promessas de ano novo. Escrevi num guardanapo como a JoutJout e guardei bem guardadinho para que as promessas não se perdessem na mudança. Não tenho ideia de onde enfiei. Ter uma boa memória não é uma promessa que eu possa fazer. Mas, tudo bem, não preciso do guardanapo pra lembrar. Minhas promessas são desejos, e o desejo tá sempre aqui.

Uma das promessas vai ficar registrada: quero ser uma pessoa interessante. 

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O teto do meu quarto é o universo: tem lua, estrelas, Saturno. Há dois quartos nessa casa.  No da Silvana, tem um armário imenso. No meu, tem decalques que brilham no escuro.