quarta-feira, 23 de abril de 2014

Um desejo ardente: ser poupada das obviedades.

Me ignora, me  manda à merda, mas não me diga o que já sei. Se for pra dizer o óbvio, fique calado. Saliva é de graça, mas não precisa ser desperdiçada.

domingo, 20 de abril de 2014

Essa noite tive um daqueles  meus sonhos apavorantes. A senhora estava no sonho, como tantas vezes esteve ao longo dessa minha extensa carreira de pesadelos, mas dessa vez, pela primeira vez, não estava no lado de cá. Não sonhei com a sua morte; não preciso mais sonhar com o que já aconteceu. Sonhei com a sua presença fantasmagórica. Sonhei com a sua ausência. Acordei com sua ausência. Minha mãe me mandou abrir os olhos e respirar, e fiquei em dúvida se estava acordada ou dormindo. 

Desde aquele dia em setembro, não sei dizer se estou vivendo uma vida normal ou se nunca acordei de um  dos meus pesadelos enormes. Esses dias, esses meses são tudo, menos a minha vida, a vida que eu tinha antes da sua morte. 

Eu digo morte e preciso ficar repetindo pra ver se a palavra ganha algum sentido. Eu digo morte e estou dizendo nada. Eu digo morte, mas o que estou dizendo mesmo é que a senhora não está. Um dia, de repente, tudo que lhe diz respeito foi interrompido, sua ações estão todas no passado agora. Seu lugar ficou vazio.  Eu digo morte, mas devia dizer vazio.


Vazio. Vazio. Vazio. Vazio.

Vazio.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Escola e verrugas

Dia desses, uma antiga colega de escola me marcou numa foto da turma de 1994.  Levei um tempinho pra achar a menina de 10 anos que fui no meio de tantas carinhas. Olhei, olhei, olhei e , por fim, percebi que eu estava no canto mais nítido da foto. Meu rosto é um dos mais fáceis de ser identificado, mas eu passei por ele sem notar. Não me reconheci  na menininha séria, naquele olhar de quem não sabe muito bem como agir.
Várias pessoas lembraram de mim, alguém comentou que eu era cdf, a professora disse que eu era seriíssima. Seriíssima? Nunca ninguém usou esse adjetivo pra falar de mim; eu não consigo pensar em mim como seriíssima. Estou acostumada a ser a pessoa sorridente nas fotos. Queria poder voltar no tempo e dizer pra menininha de 94 que no futuro ela será a pessoa sorridente das fotos. No futuro, menininha, você dirá, às gargalhadas, que seu sorriso é igual ao do Mussum. No futuro, você terá fotos nada sérias no perfil do facebook!

***
Passei 8 anos na mesma escola e não tive amigos. Só no último ano fiz uma amiga. Nós fomos colegas de turma durante todo esses anos, mas mal nos falávamos. Na oitava série, ela se aproximou de mim por sugestão da vó. Eu era uma boa menina, estudiosa, quietinha, uma boa companhia aos olhos de qualquer vó. A menina não gostou muito da sugestão  a princípio; ela me achava metida. Todo mundo me achava metida. Passei parte da minha vida provocando antipatias. Uma das minhas melhores amigas me olhou feio durante uns 3 meses, até que um dia fizemos uma viagem de ônibus juntas e ela foi obrigada a sentar do meu lado. Anos depois, ela me disse que naqueles primeiros 3 meses tudo que eu fazia a irritava: minha voz, as coisas esquisitas que eu falava, o fato de os adultos me acharem ótima. 

Não lembro quando as pessoas deixaram de me achar antipática. Se é que deixaram... Deixaram?

***

Passei pelo ensino fundamental sem ser hostilizada ou humilhada. Não tinha melhores amigos, mas não me faltavam colegas pra trabalhos em grupo. Participava das atividades extracurriculares todas. Escapei das crueldades infantis.

A  primeira vez em que fui hostilizada na escola  eu já não era aluna. Foi em 2012. Cheguei em outubro numa turma de sexto ano, substituindo uma professora muito querida. Imaginei que a adaptação  seria difícil; foi mais que difícil: os alunos e a escola como um todo  eram muito complicados. Foram 2 meses terríveis até o fim do ano letivo. Houve um dia em que liguei pra Sueli, tremendo, com o coração disparado, só pra falar com alguém que gostasse de mim. 

Eu tenho no rosto e no pescoço aquelas verrugas escuras que aparecem em peles negras. Começaram a aparecer no início da juventude e vêm se multiplicando.  Me acostumei a tê- las. Não gosto nem desgosto delas. Se as pessoas acham feio, nunca me disseram nada - tem gente que nem repara. Mas adolescentes reparam, os alunos daquela turma tenebrosa repararam e passaram a me chamar, pelas costas mas de um modo que eu ouvisse, de galinha pintadinha. Num outro contexto, eu acharia muita graça do apelido, mas naquela escola, com aquelas crianças, senti o desamparo que só quem foi uma menina deslocada sabe como é.

Saí da escola tenebrosa, passei por outros lugares, estou de volta ao sexto ano. As pessoas do sexto ano são muito interessadas em tudo que diz respeito aos professores. Eles querem saber da sua casa, da sua vida, de por que você não tem marido e filhos, acham que você devia namorar o professor tal, mexem no teu cabelo, perguntam o que são essas coisinhas pretas no teu rosto. Dia desses, uma menina parou na minha frente e perguntou se as bolinhas no meu  rosto doem. Eu suspirei toda defensiva e comecei a dizer que não, não doem, mas vou tirá-las em breve, têm um nome que não lembro... A menina colocou um dedo sobre uma das verrugas mais salientes e disse:

" Ah, tia, não tira tudo, não! Deixa algumas. Elas são tão bonitinhas, parecem sardas. Você fica bonita com esse monte de pintinha!"

Quase contei pra ela que costumo pensar em mim como um brigadeiro - cheio de granulado.


( as verruguinhas não costumam aparecer em fotos; é preciso tirar foto bem de perto.)



segunda-feira, 14 de abril de 2014

Botei o pé na sala de aula, e todo mundo correu pra sentar nos lugares certos. Larguei a mochila na mesa, e os cadernos começaram a aparecer nas mesas, com o dever de casa.

Me tornei aquela professora que, quando aponta no corredor, alguém grita " lá vem  ela!" 

Sou uma bruxa!

( Sou só um pouco bruxa. Chamo todo mundo de criancinha e não vou passar dever de casa pro feriado.)

( O lance do corre que lá vem ela só funciona bem em duas turmas. Já é um começo!)

Chega de prometer


" Não perca tempo assim contando história
(...)
E retomar a trajetória 
É retroceder." 



Eu não acredito em mudanças. Quer dizer, não acredito em promessas de mudanças. A pessoa não vai mudar. Não vai ser a última vez. Não vai mudar porque te ama, porque ama os filhos, porque ama o cachorro. Sou muito cética quanto aos poderes efetivos do amor. Não duvido do amor de ninguém; duvido das promessas. 

Eu acredito que as pessoas mudam. Mudam sim! Porque querem, porque não dão mais conta, porque sentiram que de fato não vão sobreviver a uma próxima vez. As pessoas mudam porque percebem que vão perder alguém que amam, mas não mudam porque esse alguém tá sofrendo. As motivações são pessoais, são individuais, são como calo e joanete, só quem tem sabe como é.  As pessoas mudam porque dói nelas - só quando dói nelas.

Eu não acredito em promessas. Eu acredito nas mudanças acontecendo. Acredito em de repente perceber que mudou. Acredito em gostar antes de tudo - e muito - de si.

Minha vontade é dizer: por favor, deixem o amor fora dessa. Deixem o amor em paz. 

Chega de prometer.

( quando digo " as pessoas", quero dizer " nós")

terça-feira, 8 de abril de 2014

É engraçado como as melhores e as mais sensatas  pessoas dizem: você vai abandonar sua mãe? Fico espantada toda vez. Gente, como assim abandonar? Minha mãe é uma mulher adulta e saudável, o nome dela consta em todos os meus documentos, nossos telefones ligam de graça um pro outro, eu conheço de olhos fechados o caminho da casa onde moro a vida toda.

Eu não vou abandonar minha mãe. Vou morar em  outra casa. Vou botar planos antigos em prática. Vou descobrir como é morar sozinha. 

Não faz parte dos meus planos rasgar minha certidão de nascimento. Acho que vou usar uma camiseta  com essa frase por baixo da roupa, igual àquelas que os jogadores de futebol exibem pra comemorar um gol. Quando alguém começar a falar " abandonar", mostro a camiseta e pronto.

Não deviam usar uma palavra tão forte quanto "abandonar" em vão assim.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O pai da minha mais antiga amiga morreu na noite de domingo. Ainda não consegui registrar que  aquele homem imponente e espirituoso está morto. Parece que estou falando de uma outra pessoa. Ainda estou parada no tempo, bem naquele dia em que minha amiga me disse que o pai dela não andava bem. Ainda me ouço engrossando o coro dos otimistas, dizendo que aquilo era só uma pedra na vesícula, ele opera e fica tudo certo. Eu disse isso há um mês e meio. Estávamos comendo um bolinho de bacalhau superestimado e não sabíamos que naquele  mesmo momento o pai da minha estava dando entrada no hospital.

O pai da minha mais antiga amiga morreu, e eu não pude  ir ao enterro. Tinha o trabalho, não dava mesmo pra faltar. Liguei pra minha mãe às seis da manhã e perguntei se ela podia ir no cemitério. Minha mãe saiu do trabalho, esperou um ônibus que nunca chega, atravessou a cidade, levou a sua presença - e um pouco da minha. Pra mim, não tem telefonema ou mensagem no Facebook que substitua  aquele instante em que você reconhece um rosto amigo chegando na capela durante um velório. 

No enterro da minha vó, minha amiga trouxe uma empada, que minha prima e eu dividimos animadas.Empada é uma comida mais feliz. Amo empada! As pessoas deviam mesmo levar comida pros velórios. A gente esquece que tem fome, e só se dá conta que devoraria um leão quando alguém aparece com uma comidinha.  Minha amiga, assim como minha mãe, atendeu um pedido meu. O cemitério de Nova Iguaçu fica num morro, pra chegar até o túmulo da minha vó é preciso encarar uma subida significativa. Minha mãe tem dificuldade pra andar, um morro daqueles é o equivalente  a uma prova de thriatlon. Em outra situação, eu teria ficado perto dela e ajudado na subida. Naquela circunstância, porém, não me sobrava energia pra mais nada a não ser chorar, então pedi pra minha amiga mais antiga pra que fosse lá pra perto da minha mãe - e ela foi.

No final das contas, o que importa mesmo é ter quem vá no seu lugar quando você não pode ir.