quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Não contei que estou fazendo curso de inglês. Pois é, hoje foi a última lição do book 1.  É muito divertido voltar a ser aluna, ter dever de casa, essas coisas. Até a aula de hoje, eu estava me sentindo como se tivesse voltado pra 1998 e fosse a menina estudiosinha e interessada que eu costumava ser. Mas o tempo é um senhor implacável. Hoje, diante da adolescente relapsa que não largava o whatsapp e do menino desdenhoso que não sabe dizer quem trabalha no hospital, me dei conta de que, sim, tenho 30 anos, graças a Deus. Não lembro mesmo como é ser tão jovem.

A diferença entre ter 15 e ter 30 é saber que a droga do celular não vai evaporar se ficar umas horinhas dentro da bolsa. É   receber o boleto de mensalidade no seu e-mail e pensar nele quando dá preguiça de ir pra aula. É ter vontade de esganar um moleque que não tem a menor vergonha de  chegar 40 minutos atrasado  e que não se dá o trabalho de pedir licença, nem inglês nem português. 
A arrogância da adolescência é um saco.   Arrogância de meia tigela, né! Porque o pessoal não tava sabendo usar present continuous. A pessoa frequenta um curso que arranca todo mês um pedacinho da córnea dos pais e não aprende a colocar ING no final de uma meia dúzia de palavras? Se eu fosse mãe desses moleques...

 No início, só havia 2 adolescentes na minha turma: dois irmãos fofos e interessados. A menina até fica grudada no whatsapp, mas, sei lá como, presta atenção na aula e jamais fala besteira. O menino é igualmente fofo. Hoje chegou atrasado ( disse que tava fazendo trabalho da escola), mas teve a dignidade de ficar vermelho ao interromper a aula. Uns amores. Ótimos coleguinhas de turma. Era muito mais legal quando só eles tinham 15 anos na nossa turma.

Eu não mereço ter de lidar com adolescentes chatos, gente! Não mereço! Quero só os adolescentes legais  perto de mim.


sábado, 25 de outubro de 2014

"Obinze descobrira que a tristeza não diminuía com o tempo; na verdade era um estado volátil. Às vezes, a dor era tão abrupta quanto no dia em que a empregada havia telefonado para dizer que ela estava deitada sem respirar; às vezes, ele esquecia que ela tinha morrido e, sem pensar, planejava ir para o leste do país para vê-la."
 (trecho de Americanah, de Chimamanda N. Adichie)


Essa semana fui à farmácia comprar um remédio pra insônia. É um fitoterápico que minha vó tomava e que o médico me disse que eu podia tomar de vez em quando. O balconista da farmácia pediu que eu repetisse o nome do medicamento e me informou: 

- Olha, xxxxx não é mais produzido. Tenho  aqui dois outros com a mesma fórmula. Quer ver?
- Como assim, não é mais produzido? Foi proibido?
- Não. Esse laboratório parou de fabricar. Tem os outros dois. Vou chamar o farmacêutico pra confirmar pra você.

O moço cruzou a portinha que dava pros fundos da loja, e eu peguei o celular na bolsa. Cara! Minha vó vai ficar maluca quando souber que o xxxx não é mais vendido. Ela toma ele há anos. Peguei o telefone, disquei o número da casa da minha mãe. Só depois do segundo toque é que me dei conta de que ninguém ia atender. Minha mãe estava no trabalho. Minha vó está morta há um ano.

Te entendo muito, Obinze!

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Livro, tempo, empatia e abraços não requisitados




Estou lendo Americanah porque metade das pessoas que conheço na internet está lendo - eu, pouquíssimo influenciável. Ainda estou no meio do caminho, mas já morro de amores por Ifemelu e Obinze.

" Ifemelu pousou a cabeça contra a de Obinze e sentiu, pela primeira vez,o que sentiria muitas vezes em muitas outras ocasiões com ele: uma autoafeição. Ele fazia com que gostasse de si mesma. Com  Obinze, Ifemelu se sentia confortável; era como se a sua pele fosse do tamanho certo."


***

Às vezes, fico irritada com o tanto que as pessoas reclamam. Sou uma hipócrita, claro.Também reclamo de tudo e de todos. Mas me cansa a reclamação que bate ponto, que se repete todo dia. Dá vontade de dizer: pelo amor de deus, fala com a parede, não fala comigo.

Só que acontece também de a reclamação ganhar nuances. Hoje mesmo  eu tava ouvindo um cara reclamar. Falou, falou, falou  e eu concordei no que podia, porque não sou capaz de ter alcançar o que ele está falando. Ele começou a dar aulas em 1987. Em 1987, eu não era alfabetizada, mal sabia falar.

***
Contei pros meus alunos que o inimigo número 1 da escola no início da minha adolescência era o tamagochi.Contei que vi um celular de perto pela primeira vez em 1997. Contei que o primeiro vídeo que vi na internet foi uma cena de Arquivo X. Hoje em dia, só não vejo Criminal Minds em tempo real porque não entendo inglês, então espero dois dias
 até que saia a legenda feita por fãs. Mas em 98, a história era outra.  Pra ver o trecho de uma cena aguardadíssima, esperei que o vídeo de 30 segundos levasse duas horas carregando, bloqueando a linha telefônica da casa do meu pai.  Telefones fixos eram importantes em 1998, né?

-  Façam as contas de há  quanto tempo foi isso. Eu tinha 14. Hoje tenho 30.

E, pela milionésima vez desde que os conheço, aqueles adolescentes ´ficaram espantadíssimos ao ouvir minha idade. Acho que pra eles ter 30 anos é como ter duas cabeças ou estar à beira da morte. Como a minha cabeça está ok em cima do pescoço e pareço saudável, eles ficam confusos.

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A melhor coisa sobre abraços é que são quentinhos. A segunda melhor coisa é que são íntimos. A terceira melhor coisa é poder abraçar só quem a gente quer.  Ao contrário dos beijinhos na bochecha, abraço não é ritual social. Quer dizer, pra mim não é. Por isso morro de constrangimento morro de constrangimento toda vez que alguém adulto que mal conheço, com quem tenho uma relação superficial, de quem nem gosto nem desgosto arranja motivo pra me abraçar.  

Existe uma pedagogia do abraço que eu desconheço? 












quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Fina Florzinha

Chegou outubro, e já começam a aparecer as fotos da infância no Facebook. Eu adoro. Coloquei no meu perfil uma foto que amo. Essa aqui:



Não sei direito quantos anos tenho aí.  A foto é de um ano-novo, só   não sei de 1989 ou 1990. O certo é que não tenho mais que 6 anos. Lembro direitinho do momento em que minha prima e eu fomos fotografadas. Estávamos brincando no quarto, quando alguém apareceu na janela. Um fotógrafo muito talentoso, como vocês podem ver. Estou usando a blusa da escola em que fui alfabetizada: Jardim Escola Espertinho do Bozo. Belíssimo nome!

Adoro essa foto porque é uma das poucas em que apareço séria. A autoimagem que guardei da infância remete a uma menina pequena e tímida; duas inverdades, claro, visto que  sempre pareci mais velha do era e participava de todos os  eventos da escola.Mas não me lembro de ter sido uma menina extrovertida ou simpática. Na minha memória, eu fui essa pessoinha da foto, com essa carinha invocada.

domingo, 21 de setembro de 2014

É setembro de novo, e eu quase me espanto ao olhar o calendário. Parte de mim, viu todos esses meses passarem, parte de mim viveu todos esses dias, mudou de casa, viajou, foi pro trabalho, respirou. Uma outra parte, silenciosa e resistente, permanece no setembro anterior. Na horas mais calmas, nos segundos antes do sono vir, essa parte me puxa pela mão e me leva  praquele dia de setembro do qual ela nunca saiu. Uma parte de mim, está aqui escrevendo, no sofá de uma nova casa, esperando o cabelo curto secar. A outra parte parou na porta da capela onde o corpo da minha vó foi velado e ficou. Nem um segundo se passou nesses 365 dias. Nem um grão de poeira se moveu. Parte de mim nunca viu o corpo morto da minha vó, parte de mim não teve coragem de cruzar aquela porta.

Um ano. Poderiam ser quinhentos ou três milhões. O tempo não me diz nada.