quinta-feira, 16 de março de 2017


Tudo começou com: - Professora, faz isso com a sua sobrinha! - Sobrinha? Que sobrinha? - Ué? - O menino olhou pra mim meio confuso. - Você não tem uma sobrinha, um sobrinho? - Não, não tenho. - Mas por que você não tem sobrinhos? - Porque eu não tenho irmãos. - Nossa, você é filha única?! Que sortuda! Daí um outro aluno que me conhece há mais tempo resolveu entrar no Jogo do Não Tem: - Ah, ela não tem sobrinho, não tem filho, não tem marido. O menino que começou essa conversa não soube lidar com essa informação. O choque ficou estampado na cara dele. Os outros alunos também ficaram desestabilizados, coitados. Tô acostumada com essa reação e gosto de apimentar o momento, afirmando que não tenho filhos porque não gosto de crianças. É divertido. Mas hoje fui surpreendida por uma voz que emergiu do pequeno grupo chocado com o vazio do meu útero. Uma menina virou e disse:
- Não liga pra eles, não, professora. Eles só acham que toda pessoa VELHA tem filho. VELHA. VELHA. VELHA. Eu nasci em junho de 1984. Façam as contas. Beijo da velha pra vocês.

segunda-feira, 6 de março de 2017

Favoritos

Há dois anos, eles eram os meus favoritos. Eram os que mais me davam prazer de trabalhar: inteligentes, comprometidos, fofinhos, simpáticos, organizados, bonitinhos demais. Eu gostava deles, eles gostavam de mim. Gostavam tanto que me deram uma festa de aniversário quando já não frequentávamos a mesma sala de aula. Poucas vezes me senti tão, tão querida.

2017, eles estão no oitavo ano e voltamos a estar na mesma sala. Não foram necessárias apresentações no primeiro dia de aula, nós nos conhecemos. Ainda são inteligentes, interessados, simpáticos. Mas eu não estava preparada  para encontrar a adolescência naquelas pessoas . A adolescência, essa malvada, que  tira da gente as crianças fofas e  adoráveis e deixa no lugar pessoinhas maiores que você, com  vozes desafinadas e hesitantes, especialistas em revirar olhos pra tudo o que você diz. Eu respiro e eles reviram os olhos. Eu leio um texto e eles reviram os olhos. Tô aqui pensando em procurar no mercado livre um escudo especializado em proteger os adultos desse gesto tão opressor.  Me sinto tão pequenininha quando eles, todos eles, me olham assim. 

 Às vezes, tenho certeza de que eles me odeiam. Só não acho isso o tempo todo porque o meu afeto não deixa.  Só por isso.


domingo, 5 de março de 2017


Acabou de passar aqui na rua um rapaz, um menino no fim da adolescência, chorando alto, desnorteado. Chorava tão alto que eu, no quarto andar, ouvi. Olhei na janela e vi muito pouco. Minha rua é muito escura e cheia de árvores. Tem mais sombra que luz. Um minuto depois, um homem, 50 e tantos anos, entrou no bar da esquina, perguntando alto pelo filho. O dono do bar apontou a calçada em frente ao meu prédio e o homem veio andando ansioso e insensato pelo meio da rua mesmo. Minha rua tem mão dupla. Tive vontade de gritar pro moço sair da rua, que há de vir um ônibus correndo. Enquanto penso, o homem já está longe lá adiante na rua e eu não vou saber o que aconteceu com o filho dele.

Meus sonhos são quase sempre ótimos, mas não os conto aqui porque  imagino que sejam muito, muito reveladores. Conto pra Silvana porque é bom contar logo pra alguém pro medo do sonho ruim passar. Conto, ocasionalmente, pro André porque ele gosta dos enredos cinematográficos que minha cabeça inventa. Conto na análise,  que é o mesmo que contar pra mim.

Sonho muito que as pessoas vivas estão mortas. Sonho que minha vó está viva e preciso me lembrar de que ela morreu. Antes, sonhar com minha vó doía porque eu acordava sem ela. Agora, não dói, eu só preciso mesmo me lembrar da morte pra não me confundir. A minha vó nos sonhos é sempre aquela com quem convivi em 1995, 1992, 1990. Essa vó é robusta, essa vó é o buraco no tronco de árvore onde me encaixo e  descanso.

sexta-feira, 3 de março de 2017


Moonlight me atravessou como uma flecha que perfura devagar, bem devagar.  Queria grudar Chiron menino e adolescente no meu peito e proteger. Aquela câmera sempre por trás me encheu de pavor do que poderia acontecer a ele. Quando Chiron aparece adulto, as evidências de sua heterossexualidade forjada pesam sobre mim e nos primeiros minutos só pensei " que homem, que corpo". Depois vi a pessoa delicada e macia naqueles olhos e quis abraçá-lo de novo. Li que os atores que interpretam Chiron não viram as cenas uns dos outros e tenho minhas dúvidas de que seja verdade. Mal dá pra acreditar que não sejam todos as mesma pessoa.

Soube de umas pessoas que não gostaram do filme porque todos os negros são marginalizados. Gosto do filme justamente por isso. Porque os muito pobres, os traficantes, os viciados, os favelados são pessoas com desejos, com dores, com histórias de amor. Gosto que se possa contar uma história tão bonita e amorosa sobre um homem negro que ultrapasse ( ainda que não se possa, obviamente, fugir delas) as questões raciais. Nós também temos outras narrativas. Empoderamento é importante, mas nem tudo é somente sobre a nossa cor.   


Ah: um amigo me perguntou se o moço que ganhou o Oscar mereceu o prêmio. Não soube responder na hora. Depois fiquei pensando na saudade que senti de Juan ao longo do filme. O moço do Oscar aparece por 15 minutinhos, mas a gente nunca esquece dele. Sai do cinema e ainda está pensando em Juan.

Recomendo muito o filme, como podem perceber.


***

Não entendo quem odiou La la land. Entendo não gostar, mas odiar... Um filme tão bonitinho sobre amor, sonhos e cinema. Odiar? Ah, gente...




sábado, 21 de janeiro de 2017

"Me permito desmoronar
Desabar todo de entristecer
Pra que seja possível curar
Me amar e me prevalecer
Pra quando um amor chegar
Enxergar e não desfalecer
Sem alguns dos seres desfrutar
De uma fonte de um belo querer"

Se avexe não - Tássia Reis

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Prefiro falar a carregar aquela angustiazinha latente do não dito. Eu não sou habilidosa com o não dito. Fica tão claro em mim o que não estou dizendo. Dizer é uma forma de amor. Dizer antes que a pessoa se vá, antes que os laços se rompam, dizer em vez de se afastar, dizer em vez de fingir que tá tudo ok, dizer e chorar, dizer e ficar com muita raiva, dizer e ouvir, dizer e não se torturar.

Aprendi a preferir, a duras penas, na marra mesmo. 

Sigo aprendendo, aliás.