segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

" No corpo nu da constelação"

Quatro da manhã. Meus olhos paralisam, escandalizados com a beleza de um céu tão alto e tão crivado de estrelas. O Cruzeiro, a Dalva , todas outras tão brilhantes e intensas como que ao alcance das mãos. Ao fundo, o Cristo longínquo, a Igreja da Penha, o aeroporto , o Fundão ,mas é o céu que me atrai, quase me cega, tira o fôlego. Tudo é mais bonito visto assim.

Penso em Orfeu. “ Mar sob céu”. Penso em Bilac. “ Ora, direi ouvir estrelas...”. Mas é voz da Maria Rita que vem. “ Estrela, estrela, como ser assim/ tão só, tão só e nunca sofrer”. Música de carrossel.

A melodia vai como se girasse, num ciclo que não tem fim.

Os cavalos do carrossel não são de verdade. Não importa o que desejem. Seus corpos não foram feitos para desejar, para ir além do pequeno espaço a que pertencem, além das notas que nunca mudam. Mas não são carrosséis que tenho em mente.

Há os cavalos selvagens da Lygia. Aqueles que, embora aquietados, nunca serão , de fato, domados. Eles nem são tão fortes assim. Só lutam para serem donos de seu próprio querer, de suas brutas flores.

Às quatro da manhã, num céu assim, as estrelas jamais seriam apenas fontes de explosão e calor; nem a lua, um simples satélite. Perdão, Bandeira! Às quatro da manhã, cheia de um afeto que não cabe em mim, a noite e eu somos uma só. Meu corpo se desfaz na liquidez escura do céu, ao som de uma voz que não é a da Maria Rita, mas é bela e inefavelmente conhecida:


“ Estrela, Estrela
Como ser assim?
Tão só, tão só
E nunca sofrer
Brilhar, brilhar
Quase sem querer
Deixar ser o que se vê


No corpo nu da constelação
Estás sobre uma das mãos
(...)
Melhor, melhor
é poder gozar
da paz, da paz
que trazes aqui"

( Vitor Ramil)

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