domingo, 4 de abril de 2010

Hoje acordei assim:

O Enterrado Vivo

"É sempre no passado aquele orgasmo,


é sempre no presente aquele duplo,

é sempre no futuro aquele pânico.



É sempre no meu peito aquela garra.

É sempre no meu tédio aquele aceno.

É sempre no meu sono aquela guerra.



É sempre no meu trato o amplo distrato.

Sempre na minha firma a antiga fúria.

Sempre no mesmo engano outro retrato.



É sempre nos meus pulos o limite.

É sempre nos meus lábios a estampilha.

É sempre no meu não aquele trauma.



Sempre no meu amor a noite rompe.

Sempre dentro de mim meu inimigo.

E sempre no meu sempre a mesma ausência."

 
Se é pelas mãos do Drummond  que vem o exagero,  o hábito de fazer drama até é perdoado,né?
 
Toda vez que me pego diante de um poema do Drummond, chego a duas conclusões: que bom que falo português e que bom que o Carlos existiu.
 
O Mário Quintana escreveu um delicioso poema que diz que um bom poema é aquele que dá a sensação de que tá lendo a gente -e não o  contrário. Quintana é genial!
Drummond é o poeta que mais sabe me ler. Gosto de me iludir, achando que seus poemas foram quase todos feitos pra mim.
Mas eu sou boboca mesmo. Vivo achando que Camões escreveu seus sonetos só pra que eu me emocionasse;que Saramago escreveu " O Ano da Morte de Ricardo Reis" só pra que eu pudesse entender o que é ficar muda diante de palavras tão belamente arranjadas ; que Clarice sabia que não sei ficar " distraída".
 
 
É, eu andava esquecida de uma -talvez a maior- das minhas paixões. Às vezes, a gente esquece...

Um comentário:

Cíntia Mara disse...

Ih, sinto informá-la, mas Drummond escreveu alguns poemas pra mim também. Podemos dividí-lo? hahahaha

Drummond, Quintana e Pessoa são meus poetas favoritos. Amo!