quinta-feira, 8 de abril de 2010

Sobre a chuva

A gente não se acostuma a ver tanto sofrimento.É rotina, não há nenhuma novidade nas enchentes no Rio de Janeiro,porém quem é capaz de não sentir um peso no coração ao ver tanto sofrimento? Pessoas morrendo, pessoas perdendo entes queridos, pessoas perdendo suas casas.

O que mais se tem ouvido é " Pra que o cara constrói uma casa num lugar perigoso?" ou " Por que as pessoas não saem logo dessas casas que estão condenadas? " .A gente fica indignado com a resistência das pessoas em deixar suas casas que parecem penduradas nos barrancos ou que ficam inundadas por água imunda e lixo, mas é fácil falar quando se está quentinho e protegido numa casa segura.

A casa da gente não é só um amotoado de tijolos e concreto. Antes fosse. O lugar onde se mora é um pouco da nossa história, um pouco do que a gente é.Ainda mais se foi construído desde o alicerce ou pago em prestação em prestação. Seja rica e luxuosa, seja simples e modesta, nossa casa é o nosso lugar, o nosso " reino". O espaço onde estamos mais à vontade, onde guardamos nossos objetos mais valiosos, onde moram aqueles a quem ,na maioria das vezes, queremos bem.

Ver a casa da gente descer morro abaixo ou deixá-la para trás não deve ser nada fácil. Tem de se ter coragem, porque mais que tijolo, está se deixando pra trás, um abrigo, o nosso abrigo. Me parte o coração ver toda aquela terra sobre as casas das pessoas,m esmo quando ninguém morreu por causa do desabamento. Nem consigo me imaginar numa situação dessas.

Aqui onde moro é comum ter enchentes,mas minha casa , localizada numa parte mais alta, não é afetada. Dessa vez, graças às obras da prefeitura, nada aconteceu . Mas muitas pessoas, inclusive da minha família, já perderam móveis, roupas, fotos, lembranças.

Na última enchente grande, vi uma cena que me tocou muito. Passei em frente da casa de uma conhecida e estavam lá na calçada, molhados e destruídos, uma boa parte dos livros dela. Livros de faculdade, livros do colégio, livros ganhados. Aqueles livros contavam um pouco da trajetória dessa minha conhecida. Todos eles tinham uma história. Imagina o que é ter de deixar o lixeiro levar um pouco da sua história. São só livros, eu sei. Depois se compram outros. ok! Mas um pouco do que eles representavam acaba indo embora também.

Livro é só um amontoado de papel. Casa é só um amontoado de tijolo.Beleza! Mas a gente deposita nesses bens materiais um pouco de quem somos. O apego ao que é material é lícito, é um humano, na medida em que o que acumulamos , o que construímos é também a marca que deixamos no mundo.

Muito angustiante isso tudo.

E essa chuva que não para... O tempo por aqui tá muito instável. Num só dia, faz sol forte, chove pesado, depois fica garoando e o frio, muito frio.

Enfim...





3 comentários:

Lia disse...

Assino em baixo em tudo o que vc disse!

Nao são simples livros ou tijolos...é mt mais!!

simplesmentemonalisa disse...

Ju, concordo com tudo o que você disse. Eu tenho uma família muito amiga minha, desde que eu morava em Sampa, eles compraram uma casinha pela Caixa, e a rua atrás da casa deslizou sobre a casa deles, graças a Deus ninguém se feriu, e eles tem o seguro da Caixa, vão poder reconstruir ou comprar em outro lugar, dependendo do que a defesa civil decidir, mas eles estão muito tristes com tudo isso, e eu fico triste por eles.
Tenho outro conhecido que o irmão está soterrado, desespero muito desespero. Meu tio é caminhoneiro e está preso no Alcântara (São Gonçalo) no supermercado Açaí, que está com mais de um metro de água. São Gonçalo está irrecorrecível, ruas estão fechadas, passarelas caíram, o trânsito um caos. Anos de descaso do governo vieram a tona agora. Os cemitérios estão lotados, não tem gente suficiente para realizar os enterros, os próprios parentes e amigos que estão cavando os buracos para ajudarem os coveiros. As escolas estão fechadas. O morro do Viçoso Jardim (estrada que sobe para chegar a casa da minha sogra) desabou, está tudo interditado, e aí descobre-se que a área era um aterro sanitário desativado, como a prefeitura deixa contruir casas em uma área com solo instável? E não conseguiram as 2 milhões de assinaturas para a "ficha limpa", engraçado que para o big brother todo mundo vota. Então, a culpa é geral, tanto poder público quanto população. E todos sofrem! Só Jesus na causa!

Cíntia Mara disse...

Confesso que me deu uma dorzinha no coração de imaginar os meus livros sendo levados pela coleta de lixo. Ou, talvez não os livros, mas meus brincos, meus esmaltes, meu computador... Todo mundo fala sobre não nos apegarmos aos bens materiais, mas, poxa... e todos os dias que eu cheguei em casa e fui direto perguntar se o meu livro da Katie já tinha chegado? E a alegria de passar um esmalte vermelho cereja e ganhar o dia? E a saga de rodar a feirinha inteira até encontrar o brinco perfeito pra combinar com a roupa do reveillon? Tem um pouquinho de mim em cada uma das minhas (pequenas) posses e eu não julgo essas pessoas por não conseguirem se desapegar.

Infelizmente, agora o que temos a fazer é orar pra que Deus conforte os corações pelas vidas que se perderam, cure as lembranças tristes dos pedacinhos de vida que foram embora com os pertences e dê forças para que essas pessoas consigam se erguer novamente.

Beijos