sexta-feira, 14 de maio de 2010

Adoção

É puro exercício de redundância dizer que nesse exato momento milhares de crianças por esse país estão sendo maltratadas , abusadas, exploradas, violentadas e violadas. Tem de ser muito cego ou alienado pra não saber disso.

Ou muito cínico.

Tenho acompanhado com alguma atenção o caso da Procuradora carioca que maltratava a filha adotiva. Essa história me parece um exemplo clássico de  pessoas que recebem privilégios por conta de seus cargos.  Minha primeira reação ao saber desse caso foi  me perguntar se ninguém tinha percebido os problemas psicológicos dessa senhora. Pra que serve aquele processo enorme e cansativo que os candidatos a pais têm de enfrentar? Aí, acordei pra realidade: quem ousaria negar um pedido de adoção a uma Procuradora do Estado?

Bem, até aí achei que nada poderia ser mais bizarro nessa historia, mas eis que o advogado da Procuradora,  ao demonstrar sua certeza de que vai conseguir habeas corpus facinho, facinho, me abra a boca e diz: " Tenho os relatórios a meu favor.  Os relatórios dizem que as agressões são leves."

Olha, nem sei o que dizer.Vai ser cinico assim lá não -sei- onde!!!!

Esse caso me fez lembrar de uma entrevista sobre adoção no Sem Censura. Estava lá uma funcionária do Juizado de Menores - agora não me lembro   qual era o cargo dela -, explicando como funciona o processo de adoção no Brasil.  A mulher citou um caso que me deixou chocada e que ainda me arrepia até hoje: um menininho foi adotado bebê por um casal  de meia idade. Esses dois tinham um monte de dinheiro, filhos adultos e decidiram adotar um bebê. Só que não devem ter parado para  pensar se queriam um filho ou um cachorrinho... Acreditem se quiser, mas quando o menino chegou naquela fase dos três anos( quem conhece crianças dessa idade sabe como podem ser  bem  levadas), o casal desistiu da adoção. Simplesmente devolveu o menino com quem tinha convivido por três anos para o abrigo!!!O pior de tudo é que o Estado não pode obrigar os pais adotivos a ficar com as crianças.  Em qualquer momento do processo, antes da guarda definitiva, a criança pode ser devolvida.

Lembro bem da revolta mal disfarçada da entrevistada ao falar desse assunto. Ela disse ainda que o menino estava sofrendo horrores porque não conseguia se adaptar ao abrigo. Na cabecinha dele, seus pais estavam viajando e logo voltariam pra buscá-lo. Puxa, eu nem consigo falar dessa história sem sentir um nó na garganta, viu?

Conheço um pouquinho o processo de adoção porque tenho dois parentes adotivos. Pelo menos, nos casos da minha família, não houve facilidades. Desde o momento em que se increve no programa de adoção até a gurada definitiva, a pessoa enfrenta um monte de burocracia, avaliações, testes, acompanhamentos. E tem que ser difícil mesmo porque ,afinal, é a vida e o futuro de uma pessoa que está em jogo.

Ah, gente, nem sei tecer um comentário decente sobre esses casos. Só consigo pensar no sofrimento dessas crianças e no de todas as outras crianças que vivem em abrigos. Me enche de revolta pensar que as pessoas muitas vezes adotam crianças sem pensar em quem estão recebendo em suas casas e suas vidas. Ter um filho é um negócio sério, pelo amor de Deus! Parece que,  em alguns casos,  as pessoas recorrem  à adoção como um meio de poder escolher , tal qual se escolhe um produto, o filho que vão ter. Aí querem os mais bonitos, os mais saudáveis, os que mais agradam, porque afinal aqueles que nascem da gente não dá pra escolher como vai ser.

Eu acredito seriamente na adoção, nesse lance de que amor não tem nada a ver com laços de sangue. Acredito porque vivencio isso.

O cinismo desse advogado e a insensatez desse casal que devolveu o filho me enchem de revolta.

Não consigo entender mesmo.

2 comentários:

Cíntia Mara disse...

Texto excelente, Ju!

Tento imaginar o que se passa na cabeça dessas pessoas, mas não consigo. Ninguém é obrigado a adotar, se vai fazer, que seja por amor.

O mais próximo que já estive da adoção foi com uma professora do ensino médio. Ela e o marido não tiveram filhos porque a mãe de um dos dois era doente e eles cuidavam dela. À época em que eu saí do colégio, eles estavam entrando com o processo de adoção e ela chegava a chorar na sala de aula, por tanta dificuldade que enfrentavam. Anos depois, eu passei em frente ao CEFET e vi o marido dela saindo de carro com duas crianças pulando no banco de trás, rsrs.

Enfim, tem muita criança aguardando adoção, mas também tem muita gente séria que quer adotar. Maltratar, não!!! Devolver a criança? Achei isso um absurdo. Os pais têm que ter consciência de que criar um filho não é fácil, tem seus altos e baixos. Vai querer ficar só com a parte boa?

Arcano Zero disse...

Realmente não faz o menor sentido, esquecem que o laço de amor deve ser construído, é de extrema seriedade esse assunto.