segunda-feira, 24 de maio de 2010

Cartas a um Jovem Poeta

Peguei pra reler Cartas a um Jovem Poeta, do Rainer Maria Rilke. Li esse livro faz muito tempo, assim que entrei na faculdade. Lembro de ter lido cheia de entusiasmo ,mas não ficou registrada nenhuma linha do livro na minha cabeça. Engraçado isso: do livro, só ficou a impressão.


Ano passado, enquanto procurava um livro para dar pra Jaqueline, esbarrei com o Cartas. Comprei um pra ela e um pra mim. Não sei se ela leu o dela. O meu andava perdido na bagunça das estantes daqui de casa ( preciso urgentemente de uma estante maior). Daí que depois de uma faxina, o livro reapareceu e comecei a reler. Agora entendo o porquê do meu encantamento.

Rilke escreveu essas cartas, há cem anos, como resposta às cartas e poemas enviados por um jovem aluno de uma academia militar. O rapaz andava furioso da vida com o futuro que parecia destinado a ele e escoava essa frustração em poemas. Rilke recebia as cartas e os poemas com simpatia e enviava respostas tão fabulosas que foram publicadas depois de sua morte e falam diretamente ao coração aos anseios de muita gente.

Rilke não escreveu para o jovem poeta dicas acerca da arte poética. O poeta, dotado de uma profunda empatia, compartilhou com o rapaz – e com todos os leitores da posteridade- uma e outra sugestão sobre a vida, o amor e a solidão – sobre ser gente. Essas cartas são tão bonitas! Bonitas porque são generosas e carregadas de experiência e gentileza.

O mais engraçado é que o destinatário dessas cartas era um adolescente e é comum as pessoas leiam o livro nessa época da vida. Eu li com 18 anos. A graça está no fato de que, mesmo não sendo mais adolescente, o livro ainda fala diretamente ao meu coração. A gente cresce, as experiências mudam,mas as questões mais profundas sempre são as mesmas.

Há um trecho do livro que me tocou especialmente nessa segunda leitura: “ O senhor é tão moço, tão aquém de todo começar, que lhe rogo, como melhor posso, ter paciência com tudo que há pra se resolver em seu coração e procurar as próprias perguntas como quartos fechados e livros escritos em um idioma estrangeiro. Não busque por enquanto respostas que não lhe podem ser dadas, porque não as poderia viver.(...) Viva por enquanto as perguntas. Talvez aos poucos, sem que o perceba,num dia longínquo,consiga viver a resposta.”

Não me resta nada senão me calar diante de tanta sabedoria.

É, talvez aí resida um sinal de uma certa maturidade minha. Da primeira vez que li, fiquei emocionada com o modo como aquelas cartas falavam também um pouco sobre mim. Hoje, entendo melhor as sugestões do Rilke e aceito-as.

Lindo livro! Lindo e fininho; dá pra ler em uma tarde preguiçosa.



P.s. : Vocês notaram a beleza do trechinho que citei? É que a tradução é de ninguém menos que Cecília Meirelles.

3 comentários:

Arcano Zero disse...

nossa, me chamou a atenção esse livro
me empresta ju?
bj

Jackie disse...

Puxa Ju, eu tbm adorei este trecho do livro. Li esta semana e ele ficou martelando na minha cabeça. Este foi um trecho que eu li e depois não consegui prosseguir a leitura. Fiquei pensando nisso e divagando..rsrsr
Muito bom mesmo. Foi um lindo presente! (E eu tô lendo, tá?rsrsr)
Bjs

Cíntia Mara disse...

Bom... Esse não é muito o tipo de livro que me atrai. Acho que a sua preferência literária é bem mais cult que a minha, hahaha.

Interessante essa questão da tradução... Ultimamente estou ficando muito crítica com isso, rsrsrs. Li dois livros em edição bilíngue - Persuasão e Orgulho e Preconceito - e é incrível como as traduções são falhas, principalmente em OP. Imagine, é um clássico, já publicado dezenas de vezes. Não era pra acontecer isso. Esse trecho que você citou parece que foi escrito em português mesmo, nem dá pra perceber que foi traduzido, ficou perfeito.

Bjos