sexta-feira, 18 de junho de 2010

Não consegui ficar em silêncio

Parece que todo mundo lia Saramago.

Vi um e outro post ironizando a enxurrada de lamentações e citações acerca da morte do Saramago. Me senti meio indignada porque esta foi a primeira vez que senti, de fato, a morte de alguém famoso. Mais que ficar triste, eu chorei.

Acordei mais ou menos às onze e fui logo ligar pra Tiago, pra desejar feliz aniversário. Meu amigo disse que tava meio triste e eu quis saber por que motivo, afinal aniversário não é data de tristeza. Daí Tiago me disse que era melhor eu não saber porque eu teria um siricutico.Não tive nenhum siricutico ao ouvir Tiago dizer que Saramago tinha morrido, mas meu coração ficou apertado na hora.

Minha amiga Ju disse uma coisa muito engraçada sobre o Saramago: que ele era o Michael Jackson das letras; tava difícil de acreditar na morte dele. Eu tive de perguntar uma porção de vezes ao Tiago se ele não tava me zoando. Tava difícil de acreditar.

Dia desses mesmo, André e eu estávamos brincando que tínhamos logo que dar um jeito de conhecer o Saramago porque ele tava velhinho, poderia morrer logo. Mas era só brincadeira. Sabe quando você nunca imagina que aquela pessoa de quem você é “ tiete” vai morrer? Então, pra mim, Saramago viveria pra sempre e ponto.

Talvez você se pergunte o porquê de tanta comoção de minha parte. Afinal, o cara era só um escritor- escritor extraordinário-, mas só um escritor. É,ele era só um escritor. Nunca o vi de perto, nem sei muito sobre sua vida. Talvez nunca vá entender as opiniões radicais que tinha ou o comunismo que defendia com tanto afinco. Não , não compartilho de seu ateísmo. Muito menos sou besta de confundir a incrível figura do narrador de seus romances com a pessoa que ele foi.

A morte de Saramago afeta uma deliciosa certeza que eu tinha: a de que eu vivia na mesma época, no mesmo tempo do cara que escreveu do livro que mais amo. Enquanto lia “ O Ano da Morte de Ricardo Reis”, sabia que o cara que criou Marcenda, Lídia estava em algum lugar respirando. Pensamento besta,né? Mas eu pensava que poderia contar pro meus netos que eu tinha vivido no mesmo tempo em que aquele escritor genial. Drummond morreu antes de eu aprender ler. Clarice morreu antes de eu nascer . Camilo morreu em outro século. Do Camões, nem pó deve existir mais. Cecília, Quintana, Virginia Wolf, todos mortos. Restava o Saramago. Agora não resta mais.

Quando li “ O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, fiquei tão aparvalhada, tão inebriada que fiz um poema. Bem, eu não sei fazer poesia, mal sei rimar,mas foi poesia o que me deu vontade fazer ao ler um determinado trecho do livro. Isso tem uns sete anos. Tinha acabado de entrar pra Letras. Secretamente, eu pensava que um dia o Saramago leria o poema que as palavras dele provocaram em mim. Ele não lerá mais.

Fiquei pensando que agora restam apenas os livros já escritos. Imagine! Como se “ Ensaio Sobre a Cegueira”, “ Memorial do Convento”, “História do Cerco de Lisboa”, “ Caim” pudessem ser encaixar na categoria de “apenas”. Em vez de lamentar a morte do Saramago, talvez fosse melhor celebrar o fato de que ele existiu e criou livros extrordinários. Ele existiu e me faz amar profundamente as palavras escritas na minha língua materna.

2 comentários:

amanda. disse...

acho que vou me sentir da mesma forma quando a lygia fagundes telles morrer.
:*

Juliana disse...

nossa, nem me fale da lygia. ela tb tá velhinha.