segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Imortal

Odeio hospitais.

Todo mundo odeia, eu sei.  ( Será que os profissionais de saúde também odeiam?) Mas me encaixo na categoria de pessoas que não conseguem raciocinar dentro de um hospital. Meu cérebro trava, os cheiros me sufocam, meu corpo reage. Dois dias seguidos acompanhando minha vó e amanheço com garganta, siso, bochecha e ouvidos inchados.Inconscientemente (sem querer mesmo porque ficar em casa , saltando da cama toda vez que o telefone toca, põe a gente doida), dei um jeito de não voltar pra lá.

Quando eu era adolescente , era hipocondríaca, de verdade. Fui descobrir isso anos mais tarde, quando tratei da ansiedade. O pavor que tinha das doenças, os livros que comprava sobre o assunto, a necessidade de ir ao médico sempre que aparecia uma dor de barriga - e a certeza de que daquela vez era uma doença grave- não eram esquisitices da idade,não.

Daí que anos mais tarde, eu achava que dava conta de ficar no hospital. Afinal, funciono assim: tenho um problema , você tem um problema maior ainda, a prioridade é você. Tem que ser, né? Não entendo muito bem quando as pessoas dizem " ah, eu não sei lidar com a situação pela qual  fulano tá passando. Vê-lo assim me dá muita pena, blá, blá". É mesmo? Problema seu!! 

Bem, eu não dou conta de hospital,não. A tranquilidade aparente e necessária foi posta em cheque e derrotada pela confrontação com o  fato de que corpos humanos são falíveis, mortais. Nós somos tão frágeis, tão " apodrecíveis". Num dia, vivos e saudáveis, no  outro, podem estar nos faltando um braço, uma perna, um osso pode se partir, o estômago pode arrebentar, o coração pode parar.

Hospitais  esfregam na nossa cara  o quanto é impossível controlar tudo, o quanto somos " complexos de carbono" ( um personagem alienígena de Jornada das Estrelas se referia aos humanos assim).

Deviam ensinar na escola como se lida com a morte, com a doença.

A gente deveria   deixar de viver nessa ilusão de que a morte só vem pros outros.

Os outros morrem. Eu e todos que amo não morremos, não. Somos especiais, imortais.

2 comentários:

Rita disse...

Oi, Ju!

Ah, querida, segura aqui na minha mão e vamos juntas, ladeira acima, tá? Não é fácil, ninguém merece, mas somos mais fortes do que supomos. Espero que essa seja minha última noite aqui. Mamãe já está tentando dormir e acho que já vou indo também. Rotina de hospital começa cedo, né? Que mania desse povo de aplicar injeção às seis da manhã, né?

Bj!
Rita

Cíntia Mara disse...

Você sabe do pavor que eu tenho de médicos e hospitais, né? É isso aí, a morte e as doenças foram feitas para os outros, não pra quem eu amo. E nem pra mim, se isso fizer as pessoas sofrerem. Bando de egoístas que nós somos, isso sim! Não que eu seja uma daquelas pessoas (chatas) que atacam toda a cultura ocidental - embora vivam nela. Mas se tem uma coisa que eu admiro nos orientais é isso. A morte, pra eles, já faz parte da vida.