sábado, 20 de novembro de 2010

novembro, 20

Quando eu estava na segunda série, aconteceu algo que nunca esqueci. Um dia, a diretora da escola entrou na minha sala e começou a falar sobre racismo com a turma. Havia entre meus colegas uma menina, Patrícia, que era cruelmente hostilizada e humilhada por alguns dos meninos. Eles a importunavam porque  usava óculos, tinha  um penteado diferente  e era negra.  Não lembro exatamente que apelidos a menina recebia, mas tenho na memória a expressão que aparecia no rosto dela todas as vezes que a xingavam- não era um expressão feliz, claro. Todo mundo dava risadas ,menos ela.

Também não consigo me lembrar do que a professora fazia para encarar essa situação, mas  do dia em que a diretora entrou na sala e falou sobre racismo com crianças de 8 anos, eu jamais vou esquecer. Ela disse uma porção de coisas apropriadas, nos lembrou da importância de se respeitar os outros, essas coisas. E terminou assim: “ Xingando a Patrícia, vocês estão  xingando a Tia Débora, a fulaninha, o fulaninho, o sicraninho, a sicraninha e a Juliana.” Consigo ouvir ainda hoje o meu nome sendo pronunciado pela diretora e me lembro com clareza do sentimento que bateu naquele instante: “ Xingando a mim? Por quê? Eu não tenho nada a ver com isso.”

Pois é, eu nunca  fui diretamente  xingada porque a minha pele tem uma determinada quantidade de melanina ou porque  meus ascendentes  vieram de um determinado continente. Passei boa parte da vida  sem    ter pensado  no formato do meu nariz. De batata? Não, meu nariz é feito de carne e pele mesmo  e serve tão somente para que eu continue existindo. Afinal, é por ele que entra oxigênio nos meus pulmões e oxigênio é um troço importante pra caramba.

Eu, Juliana, nunca fui xingada porque meu cabelo é crespo, porque minhas maçãs do rosto são arredondadas, porque a minha pele é escura. Não lembro de ter sido hostilizada por esses motivos. Cresci tendo outros complexos, mas nenhum deles está diretamente ligado ao fato de ser negra. Imagina, o que mais me dizem é que não sou negra; sou morena, “ moreninha”( odeio com todas as forças esse “moreninha”), morena –jambo, mulata. Ah, mas a sua pele nem é muito escura, é o que me dizem.

Só que aprendi uma lição muito importante com a diretora da escola naquele dia lá na segunda série: eu, Juliana, individualmente, nunca fui diretamente discriminada por ser negra, mas vivo num mundo que associa valores negativos a todas as pessoas que têm a pele como a minha. E é no coletivo que eu penso, quando me perguntam o que eu acho do dia da consciência negra.

Ora, por mim, não haveria  dia dedicado a valorizar essa ou aquela influência cultura, essa ou aquela raça. Ué, não são todas importantes? O Brasil não é um país plural? Pra que escolher um dia pra  valorizar os negros? Eu nem me preocupo com a cor da pele das pessoas! Eu acho cabelo crespo lindo!Eu acho, eu penso e eu  não me preocupo.É, assim, individualmente, não faz sentido. Afinal, “ negro safado”, “crioulo metido”, “ negão”, “ macaco” são iguais a “ viadinho nojento”: sempre é usado com gente que aparece nos jornais  reivindicando direitos, fazendo barulho. Ah, claro, porque EU vou seguindo a vida tendo a sorte ( pois é, sorte!) de AINDA não ter sido gentilmente convidada a utilizar o elevador de serviço, de AINDA não ter sido chamada de “ crioula suja”.

 Estendendo o  meu horizontezinho limitado  pra os muitos horizontes da  sociedade em que vivo, sim, eu acho que o dia da consciência negra é importantíssimo. Enquanto  as novelas continuarem criando estereótipos para representar a maioria dos brasileiros, enquanto essa maioria ainda tiver dificuldades pra reconhecer qual é o tom certo de sua pele, enquanto as bonecas bonitas e desejadas forem todas loiras, enquanto a palavra “ macaco” for um xingamento específico, enquanto os salários forem influenciados pela cor da pele, enquanto uma loira e um negro continuarem formando um casal peculiar, enquanto eu continuar ouvindo que meu cabelo ficaria melhor tratado se fosse alisado,  um dia como o 20 de novembro será necessário.

Um dia específico, uma data só ao longo de todo um ano não resolve o problema, eu sei. A discussão deveria estar presente sempre nas escolas, nas empresas, nas conversas, mas não está. Então, é bom que haja um dia instituído, um dia que venha nos lembrar  de que somos uma sociedade racista sim. Eu posso fazer um esforço para  não deixar que a cor da minha pele e os traços do meu rosto  e do meu corpo  sejam mais importantes do que os meus sonhos, meus desejos, meus direitos.  As pessoas inteligentes e bem –educadas  com quem convivo podem continuar fazendo  um esforço para combater os valores e ideias negativas que aprendemos desde sempre. No entanto, esforço individual não basta sozinho; pensamento individual não reflete o que está entranhado na gente, o que recebemos culturalmente. Então,  é bom que hoje seja o dia da consciência negra.

Quando fica difícil pensar, assim, no coletivo, eu sempre  penso em cada uma das crianças que até hoje são hostilizadas, xingadas e  humilhadas,  assim como a minha coleguinha era. E lembro também que eu até hoje  tive  apenas sorte  de não ser diretamente discriminada.

17 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Juliana, linda, linda, linda...posso te linkar lá no Borboletas? Ah, posso? Pleeeease? Está tãaaooo lindo isso. Vou colocar e se você não gostar eu tiro, tá? Muitos beijos carinhosos

Borboletas nos Olhos disse...

Oh, querida, mas um "meio sem jeito" bom ou ruim?

Júlio César Vanelis disse...

Perfeito... Lindo demais o seu post... Confesso que nunca tinha parado para pensar nesse aspecto. Como comentei no blog da Borboleta, eu nunca consegui ver a dimensão desse problema, e nunca consegui ver nenhuma diferença entre uma pessoa de tal cor de pele com outra de pele diferente. Realmente, o racismo ainda não foi removido da nossa sociedade, infelizmente... E para isso serve esse dia!

Muito obrigado, Juliana... Seu post abriu a minha mente!!!

Um abraço, até o próximo post

Lia disse...

Ju...

Odeio tbm o morena...
Morena eu?! Não negra, e pronto. O povo parece que tem medo de falar...rsrs

adorei... até te coloquei no blog...

Lia disse...

Olha Ju, fiquei pensando aqui em uns casos... teve um dia, agendei uma reunião com um grande executivo aqui... falavamos por telefone e nunca tinhamos nos encontrado.

Entrei na sala e ele quase caiu da cadeira. "Vc é a Lia?"... eu: "Sim. Pq? rsrs".

ele: "Desculpe a surpresa, mas fiquei mt feliz de encontrar uma negra por aqui. Isso não acontece com tanta frequencia".

Eu: Oo

Ele tbm era negro, e sua felicidade foi genuina... mas naquele momento fiquei me perguntando quantos coisas ele ja tinha passado por se alegrar ao meu ver ali.

Débinha disse...

Ah, já disse que você é liiiinda? Ow, cê escreve bem demais. Não é atoa que é minha blogueira preferiiiida!
Realmente, como disse o coleguinha aí em cima, você abriu a minha mente pra algo que eu nem pensava a respeito, simplesmente porque não vejo diferença nas pessoas de cores de pele diferentes. Mas suas colocações foram super pertinentes. Muuito bacana!

beijos

M!riam disse...

Oi, Ju,

Quando eu estava no colégio eu sofri com bulling, usava óculos e sou míope, meus olhos são "meio Cristiana Oliveira". Então eu era quatro-olhos e vesga. Sofri muito e isso se refletiu de uma forma muito negativa nos meus estudos.

Quanto ao preconceito e racismo, estou criando minha filha para que não faça distinção nenhuma entre as pessoas por conta do tom de pele ou da opção sexual. Todos somos iguais e ponto!

Luciana Matos disse...

Ju,
Você falou tudo o que eu queria dizer, com todas as letras, palavras, tudo. Em alto e bom som.
Por isso linkei o seu texto lá no blog, tudo bem?
beijo linda!

amanda disse...

sabia que comigo foi justamente ao contrario?
eu, branquinha, cabelinho liiiiiiso, olhos puxados, toda oriental indo morar no interior da bahia.
EU era a minoria, eu era a diferente, eu era a "estranha".
meus coleguinhas tiravam sarro do meu sotaque, do meu estado ser "insignificante" (eles diziam: "nem tem nada la! se fosse importante a gente ja conhecia ele antes de conhecer voce"), de falar coisas de um modo diferente (por exemplo, pra eles calçada se chama 'passeio')... eles riam até das músicas da minha terra (que alias, eles nem conheciam né).

eu nem chamo isso de bullying.
nao tenho magoa ou alguma coisa do tipo. eramos crianças, tinhamos 8 anos e é assim que criança lida com coisas desconhecidas: repele.

e eu acho que aprendi - e ensinei, de certa forma - a lidar com diferenças com isso.
todos os tipos de diferença.

agora, um adulto se comportando assim.... isso sim é inadmissivel.
coisa de gente pequena e babaca.
bem nesses termos.

Juliana disse...

Ei, amanda! Mas tu já morou em muitos lugares,né? hehe Interior da Bahia??? Que bom que vc teve essa oportunidade de lidar com o diferente e de ensinar um pouco tb. eu sinto falta de conhecer melhor o brasil. Às vezes, tenho o típico comportamento do povvo do rio: esqueço do mundo e acho que tô no centro do universo.
Crianças podem ser mesmo malvadas, mas só fazem aquilo que aprenderam com alguem ,né?

Lia e Luciana, que legal vcs terem linkado! Ah, tô me sentindo muito chique! rsrsrs

Julio e Deb, que ótimo que vcs foram educados pra tratar bem as pessoas e respeitar todo mundo.
Eu tb aprendi assim. Minha mãe me ensinou a respeitar e me fazer respeitar. É pena que nem todo mundo seja assim...

Ah, Miriam! Que triste isso que vc contou!O bom é que a gente cresce, supera os traumas e pode ensinar aos filhos a terem comportamento bem diferente, igualzinho vc tá fazendo com a sua pequena.

Rita disse...

Ju, tanto orgulho de você. Tanto.

Beijos

Rita

Day disse...

Ju... acho que li uma das coisas mais bonitas...

Tava com um comentário megagigante, mas decidi diminuir...
Sou mulher, negra, gorda e míope. Sofri mais por ser gorda do que por ser negra, fato, mas nunca levei desaforo pra casa, não sei se fazia do jeito certo (arranjando um defeito no coleguinha e retribuindo a ofensa), mas era o que funcionava na época.

Quanto à minha pele e o resultado da miscigenação, eu amo! Amo minha cor (gostava ainda mais quando era mais bronzeada), amo ser negra, morena, preta. Amo meus cachos volumosos... Nem sempre foi assim e me orgulho de que hoje seja.

Acho triste precisarmos de um dia que nos lembre de que somos uma raça mista, mas, enquanto forem necessáriasm essas medidas paliativas, que venham, e que façam a diferença que for possível de se ver.

(Escrevi um monte de coisa solta... Ficou grande do msm jeito, né?! Mas menor do que tava, acredite! hahaha)

Um beijão, Ju!
Repetindo: muito, muito bom te ler!!
Day

Fabiane Ariello disse...

Aplaudo de pé, Ju! Que texto maravilhoso!

Cíntia Mara disse...

Pois é, Ju... Eu fico triste que seja necessário ter um "dia da consciência negra" pra lembrar que somos todos iguais.

A família da minha mãe é toda morena. Meu pai é branquelo e as irmãs dele são tipo eu, brancas que se fingem de morenas, huahuaha. Quando eu era criança, ia muito ao clube e vivia bronzeada. Uma das irmãs do meu pai, a única morena, só me chamava de "preta" e era o maior elogio que eu podia receber. Sabe que eu fiquei até triste quando, já adolescente, percebi que eu não tinha nada de "preta"?

Acho que por isso eu nem reparo muito na cor da pele das pessoas. Uma vez me perguntaram se eu tinha algum amigo negro e eu tive que pensar, porque não é algo que me ocorre quando eu vejo a pessoa. Meu cunhado também é negro e um dos meus tios adora fazer piadinhas. Mata de raiva, viu! Só que ele nunca fala essas coisas perto de mim, porque sabe que eu sou do tipo bateu-levou.

Juliana disse...

ô, rita! Imagina! =)

Day, vou te responder por e-mail!

Pois é, cíntia, a gente aprendeu a ser assim, a não ver a cor da pele de ninguém como um dado importante. eu detesto quando falo aquela pretinha o aquele negão.

essas piadinhas do seu tio são tão comuns e pior é que a pessoa nem se toca de que tá fazendo um troço desagradável. Teu cunhado não responde,não?

Juliana disse...

Ei, Fabi! obrigada! =)

juliana disse...

texto lindo, Ju.
ai, to chorando aqui...
:***