terça-feira, 30 de novembro de 2010

Saudade antecipada, calor e um pouco de sossego

Preciso de um minuto de sossego.Preciso! Vim me abrigar por 20 minutos no Fina Flor.

Posso ficar aqui em silêncio só um pouquinho?

Hum ,silêncio bom!

Ai!

***

Ah, posso contar pra vocês que eu chorei hoje na última aula daquela turma de pré- adolescentes de que sempre falo? Não chorei na frente deles, claro; nem haveria razão pra isso. 

Em vez de revisão pra prova, coloquei no quadro a frase " I have  a dream" e não disse nada. Eles ficaram me perguntando o que queria dizer,mas eu não disse. Daí foram caçar o dicionário, o caderno de inglês e se valeram do " ah, isso aqui é aula de português. Isso não é justo!". Não tive piedade; tiveram de se virar.Por fim, sacaram o significado da frase.  Já para  que descobrissem o autor, precisei dar muitas dicas e acabou que uma menina lembrou que Martin Luther King é sempre citado em Everybody Hates Chris ( ou Todos odeiam o Chris).  Contei um  pouco da história do Luther King, reforçando que  a frase representa um ideal, um objetivo pelo qual ele lutava.

Daí eu quis saber pelo que eles lutavam, que objetivos tinham. Alguns estranharam, outros riram. Fui mais além: propus que escrevessem numa folha de papel 10 objetivos e sonhos para 2011, outros 10 para daqui 10 anos, outros 10 para daqui 30 anos. Claro que eles disseram que não sabiam, que estariam mortos e enterrados antes de completarem 40 anos, que... ah, professora! Mas foi só  dizer que eu tinha feito a mesma atividade na quinta série pro interesse aumentar.

Algumas meninas tinham objetivos muito concretos: ir ao show do Justin Bieber,  comprar 3 pares de Melissa, fazer faculdade  de Administração, comprar um carro, ter liberdade pra fazer o que mais gostavam. Um dos meninos quer muito um Xbox e ser advogado e juiz. Um outro passou o tempo todo andando pela sala. Fui lá descobrir  se tinha ninho de bicho carpinteiro na cadeira dele e ouvi um " quero fazer engenharia elétrica, comprar um celular e ter a minha casa ,mas eu tô com vergonha de escrever isso aqui".

Bem, diante disso, tive de repetir que não havia sonhos errados, que eu não corrigiria nada, que nem leria o que escreveram, a não ser se quisessem me mostrar. E não é que quase todo mundo me deu os sonhos pra eu dar uma lidinha? E eu fui ficando enternecida diante de  desejos tão pueris quanto viajar o mundo todo numa bicicleta  e de outros mais doídos quanto querer que o pai se lembre de que ainda tem uma filha. É bom e bonito esse exercício de desejar,né?

Pra terminar, fiz  um pequeno amigo oculto. Todos receberiam o nome de um colega e teriam de escrever em umas 5 linhas alguma coisa de bom sobre a pessoa  sorteada e dizer se tinham aprendido algo de bom com ela. Bem, eu não levei muita fé nessa parte do plano,mas até que deu certo. Fui eleita o correio e  a leitora oficiais  das cartas ( bem, dos bilhetinhos de 3 linhas cada. =p) e quase caí dura ao ler o que  um dos meninos escreveu para um outro que tira os colegas e todos os professores do sério : " Você é muito chato, mas se a gente prestar bem atenção até que você é legal". Ah, eu não teria sido capaz de tamanha gentileza! Não com esse menino! hehe 

Ah, mas o que esse povo não sabe é que  já sinto uma saudade danada deles. Eu sei que muitos poderão ser meus alunos ano que vem, que vou esbarrar com quase todos por essas ruas daqui do bairro, mas não terei as manhãs de segunda e terça de 2010 de volta.  

Eles nem desconfiam de que eu não sei dar aulas pro sexto ano ( bem, desconfiar, desconfiam sim! Eles nunca perdoaram minha incapacidade de escrever com letra de professora.O que eles não sabem é que eu fiz muita caligrafia e  faço o melhor que eu posso. =p). Até então, eu só tinha trabalhado com os mais velhos e o pessoal de pré-vest. Diante dos " pirralhos", um certo ar de deboche e uma dose de conhecimento sobre a dura vida adolescente não funcionam muito. Pra eles,  eu ainda era a " tia" e  devo ter sido uma " tia" não lá muito habilidosa, confesso. Tantas vezes, eu me esquecia que tava lidando com gente de 12 anos e me pegava exigindo maturidade e competências que eles não tinham.  Tantas vezes, eu não soube mesmo o que fazer e fiquei só olhando e torcendo pra que desse certo.Bem, mas fazer o quê? A gente também só aprende na prática.

Essas meninas e meninos nem devem ter percebido que eu me divertia muito mais do que eles e que me derretia muitíssimo mais que eles. Eu cheguei nessa turma bastante decidida a não deixar que os problemas do ano anterior se repetissem, portanto estava disposta a ser dura, rígida e até um pouco tirânica. Essa estratégia durou umas duas semanas. Até o esquema de horários estabelecidos pra ir ao banheiro foi muito bem aceito e ,antes que me desse conta, eles mesmos já regulavam as saídas.  Precisei aplicar as punições pelo descumprimento das  regras estabelecidas no início do ano duas vezes. Passei boa parte o tempo falando " ô, menino, senta aí!", "ô, gente, fala mais baixo!", mas ri tanto e ouvi tantas ideias legais no restante do tempo que  nem me cansava.

Já sei! Cês devem estar achando que eu trabalho no paraíso e essa turma era compostas pelos anjos da mais alta grandeza,né? Não, não! Houve problemas ao longo do ano. Há algumas histórias bem difíceis  que jamais deveriam ser parte da vida de pessoas tão jovens quanto esses meus alunos. Por outro lado, não sei se consegui  conduzir adequadamente o processo de aprendizagem. Mas o que me faz sentir um nozinho aqui no limite entre o estômago e o peito é o fato de esses meus alunos serem pessoas interessantes, bacanas, corretas que me dão a impressão de que vão  ser adultos igualmente admiráveis, ainda que nem todos tenham aprendido a diferença entre pretérito perfeito e pretérito imperfeito no sexto ano.

É isso! Tô com saudade antecipada! Tô sentimental!  E Tá muito calor! O calor e a TPM potencializam esse meu lado manteiga derretida.

Fim da pausa. Vou lá cuidar da vida.

10 comentários:

simplesmentemonalisa disse...

Ju, tô sensível! Chorei!
Tentei te ligar, seu fone deu "fora de área"
Beijinhos

M!riam disse...

Que lindo, Ju! Eu sempre desconfiei que a cara feia dos professores era só fachada!!

beijoo

Borboletas nos Olhos disse...

Quando a gente pensa sobre o que a gente pensa já é um passo pra viver melhor (eu acho, rsrsr). Quando ainda mais, se pensa sobre o que se pensa, sobre o que se sente e sobre o que se faz: UAU, muitos passos pra um mundo melhor. Você é admirável, minha linda. Parabéns pelo post e pelo seu jeito de trabalhar. Bjs

Juliana disse...

ô, meninas! Se vc conhecessem aquelas figurinhas , iriam ficar doidas por elas tb!

amanda. disse...

ta vendo porque to indo por esse caminho?

me emocionou muito esse post ;****

Cíntia Mara disse...

Ain... Que saudade da época que eu estudava e chorava no último dia de aula! Tenho lembranças tão boas que eu espero ter memória suficiente pra guardar por muitos anos. Você parece daquelas professoras que conhecem a mãe de cada aluno e que anos depois vai perguntar por eles e mandar um abraço sempre que as encontrar. É, isso acontece comigo. Minha professora da segunda série ainda se lembra de mim, mesmo depois de, hmm, 16 anos.

(Ir ao show do Justin Biba tudo bem. Mas... 3 pares de Melissa???)

Juliana disse...

Cíntia, não sou muito chegada a conhecer a mãe da cada aluno,não, mas já fui parada na rua por algumas delas e interrogada a respeito do comportamento dos seus rebentos.

Não sei se anos depois os alunos ainda vão se lembrar de mim,não! hehehe

Ei, Amanda! Eu tô certa de que seremos colegas muito em breve.=)

LILIANE disse...

Juliana,
que delícia ler este texto.
foi providencial, sabia!?
tenho 38 anos e estou para lá de perdida quanto a minha faculdade.
todos insistem para que eu faça e pensei em pedagogia.
e ficava com tanto, mas tanto medo de chegar numa sala de aula e não ter controle, não saber falar, dos alunos serem ....
afh
Meu Deus, tive a impressão de que este foi um sinal.
sou mãe, dona de casa e queria mesmo voltar a trabalhar, me qualificar e seu relato só aumentou minha coragem e fé.
agradeço, querida, mesmo sem te conhecer, mas agradeço de verdade.
saiba, você me ajudou muito.
beijinho.
vou seguir você, tá!
achei você através do Blog da Elaine Gaspareto.

Palavras Vagabundas disse...

Gostaria que todo mundo aos 12 anos tivessem uma professora como você!
Parabéns.
bjs
Jussara

Débora Leite disse...

Ah, sei bem como é esse sentimento.
Já to morrendo de saudade dos meus adolescentezinhos! E to bem marcando de ir no cinema com minha aluna preferida, e ainda bem que ela nem ta me achando a 'teacher careta'. hehehe
Segundo ela, 'nós temos praticamente a mesma idade'.

beijos