sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Na sala de aula

Atenção: eu falei pra caramba,hein? =p



Pronto! Parei de chorar. ( mentira! ainda dou uma lacrimejadinha ouvido The way you look tonight, mas tudo bem!) Bem, agora preciso dar um jeito de recuperar minha fama de má , porque post sobre choradeira e alunos bonitinhos só contribuem para que vocês desconfiem de que há um coração de maria-mole batendo no meu peito.

Brincadeiras  à parte, achei tão bonitinho que algumas pessoas ficaram tocadas pelas coisas que escrevi sobre meus alunos do sexto ano. A Liliane até disse que ler meu relato pareceu  providencial. Eu , de fato, gosto muito daquelas pessoas e costumo ser " derramada" em relação a quem me cativa, mas , vejam bem, nem sempre dar aulas é divertido e eu tô longe de ser uma profissional focada e madura, viu? hehehehe

É que não conto aqui no Fina Flor, mas já cansei de me irritar profundamente com os alunos. Tenho a maior dificuldade em separar as coisas e acabo me envolvendo  demais com os problemas, me identificando demais com um e outro. Esse semestre, peguei uma turma do noturno que simplesmente me despertou raiva. Todas as vezes em que eu entrava na sala,me dava raiva. Raiva porque eles reclamavam de tudo, porque  queriam ir embora mais cedo, porque faziam umas brincadeiras babacas entre si  e , especialmente, raiva porque eles pareciam satisfeitos com o nível baixíssimo de exigência que a escola fazia. 

Explico: num supletivo noturno, o professor tem que fazer escolhas no que diz respeito ao conteúdo; o tempo é curto e os interesses são variados. De modo geral,  a gente opta por trabalhar bem uma parte de uma matéria  e  realmente ignorar o restante. Detesto fazer isso, mas acaba sendo necessário. A questão é que algumas  pessoas vão estudar nessa modalidade de ensino justamente por conta desse aspecto, principalmente  o pessoal que tá no fim da adolescência. Daí reclamam quando você exige um tantinho mais do que eles imaginavam, como se esperassem que você, por ser professora do supletivo, tivesse que compactuar com esse acordo implícito de  que " professor do EJA finge que dá aula , aluno finge que aprende e todos são felizes". Eu e boa parte dos meus colegas nessa escola  não estamos nem aí pra essa lógica, logo os alunos acabam indignados e ficam enchendo o saco. Eu não me irrito com a  chateação deles; o que me dá vontade de esgoelá-los é o fato de não se darem conta de que estão recebendo muito menos do que merecem, do que deveriam desejar, sabe? Algumas turmas se dão conta disso e exigem mesmo do professor, mas outras , como essa  de que falei simplesmente,não se importam. E eu fico irritada!

Vejam bem, eu sei que há todo um sistema político e educacional que cria e fomenta posturas assim. Além disso, não estou culpando os alunos por seu desinteresse, afinal eles passaram anos de vida escolar fracassada e acabam chegando ao EJA sob o estigma da incompetência e da burrice. Também não estou excluindo minha responsabilidade por ter sido incapaz de encontrar um modo de alcançá-los, de provocá-los. Como novata também  nessa modalidade, levei um tempinho pra sacar como as coisas funcionam,me faltou maturidade pra lidar com essa turma. Eu tô falando aqui é de como eu, muitas vezes, tenho dificuldade pra não misturar as minhas opinões pessoais, as minhas motivações com  os meus propósitos na sala de aula.Algumas vezes, isso é bom porque faz com que eu me recuse  a concordar que se reprove um aluno que só tira nove e dez simplesmente porque ele é  atentado, abusado e irritante. Uma vez, um colega quis fazer isso e disse que eu era do tipo de professora que defendia os alunos de quem eu gostava. Olha, até hoje sinto raiva desse meu jeito picolé de chuchu,porque deveria ter dito pra ele que  eu preferia mil vezes ser  defensora de aluno a usar meu poder de professora irresponsavelmente. Mas eu  disse apenas que não mudaria minha nota e o assunto acabou.

Não sei se vocês estranham o fato de eu ter usado logo aí em cima a expressão " poder de professora", mas eu estranho. Já comentei em algum post do blog que ultimamente não parava de pensar na afirmação de um professor de que a sala de aula é um espaço de conflito, justamente porque, do jeito como a escola funciona, se pressupõe que o professor é a figura que domina um conhecimento  valorizado socialmente. Claro que esse meu professor falou isso tendo embasamento teórico, mas eu não sei qual era, porque era difícil prestar atenção numa aula que durava 4 horas, numa sexta - feira, em dias de calor intenso, numa sala de aula a alguns quarteirões da praia. =)

Nesse ano, passei a pensar muito nessa questão do poder na sala de aula, na imagem que a gente tem da figura do professor e , sobretudo, em como me encaixo nisso tudo. Basicamente, sou o tipo de pessoa que acha que tá sempre certa e que sabe o que é melhor pros outros. As pessoas que me amam  dirão que essa característica facilita a vida delas em algum momento porque , em geral, sou sensata e boazinha. Rá! Isso diriam os que me amam, porque os que não vão com a minha cara falariam logo que eu sou pretensiosa e eu teria de concordar. E é interessante como o papel de professora pode  alimentar  egos pretensiosos e prepotentes, porque, em geral, se espera que o professor saiba tudo, entenda tudo, tenha respostas  e se vire nos 30.  Daí você  - ou só eu mesma -, acha que tem a função redentora de ensinar aquilo que vai fazer seus alunos alcaçarem o mais alto nível de compreensão do mundo. Piadinha,né? Mas eu me pego agindo assim e já vi colegas e professores meus fazendo isso.

Mês passado, a outra turma do noturno  deu " cataplaft"  nas minhas  pretensas práticas pedagógicas redentoras e perfeitas. Eu sugeri,como trabalho do bismestre, uma série de debates. Queria aproveitar as eleições e a enxurrada de debates na tevê e  trabalhar argumentação. Levei um filme que adorei  e senti a primeira decepção: os alunos não se empolgaram tanto com o filme quanto eu. Ah, aquilo me deixou arrasada. Poxa! eu tinha pensado tanto, imaginado tanto, planejado tanto! ( Eu sou dramática em todas áreas da vida! hehe). Depois veio a segunda decepção: os alunos rejeitaram o modelo de debate que sugeri. Eu queria uma coisa no estilo dos debates  tradicionais: mediador e grupos oponentes. Mas considerando os temas superpolêmicos que o povo tinha escolhido, o modelo se tornou inviável. Eles simplesmente se recusaram a " defender" pontos de vista contrários aos seus. Bem, e eu tava com a cabeça em que planeta quando propus uma coisa assim? Onde que um debate desses daria certo? Até parece que eu conseguiria
, como aluna, participar de um debate, defendendo algo em que não acredito.

Bem, daí que  os debates aconteceram assim: um grupo apresentava o tema e depois a turma discutia. Na primeira semana, eu achei que não tinha funcionado, mas quando fui perguntar se eles tinham achado que o debate dera certo, a resposta foi unânime: a turma tava empolgada para o próximo. Foi aí  que me toquei que o projeto perfeito e lindo que eu tinha imaginado não funcionava, mas  o debate construído por mim e pelos alunos na sala de aula  era ótimo.  No último dia,  aconteceu aquela que eu considerei a melhor discussão. O tema era métodos anticoncepcionais e , em vez de discussões   abstratas sobre a legalização do aborto e laqueadura, acabou que  mulheres que tinham feito laqueadura contaram como funcionava o procedimento. Um dos alunos relatou a experiência de fazer vasectomia. Outra aluna contou como funcionam os abortos provocados por remédios , chás ou intervenção de " curiosos". O que eu achei mais legal foi que  esses relatos foram feitos com muita sinceridade e não receberam qualquer julgamento. Aliás,  um dos meninos admitiu que nunca tinha imaginado que a pílula anticoncepcional poderia  causar tantos transtornos pra mulher. Mal sabe ele que eu não me espantei com os efeitos colaterais da pílula, mas nunca tinha  ouvido  ninguém falarde modo tão direto quais os efeitos de chás e remédios abortivos.

Foi interessante notar o silêncio atento de alguns  alunos mais novos ,enquanto uma das alunas contava como acontecia o parto. ( ai, eu viveria muito bem sem a descrição dela. hehehe A  pessoa falava toda hora que doía, doía, doía. Pior foi ter que manter a compostura pra nãofazer careta!kkk ). E o melhor de tudo  foi  ouvir um aluno que quase nunca fala nada dizer que a gente faz julgamentos sobre o que as pessoas vivem sem ter ideia do que elas de fato passam. E é verdade,né? No fim ,eu senti que o debate funcionou bem. As opiniões foram expostas com elegância, aprendemos um monte de coisas a partir das experiências das pessoas que tavam ali e os discursos ferinos e as opiniões ferrenhas - tanto minhas, quanto de todos os alunos- puderam ser mais modalizados. A gente levou pra casa algum coisa no que pensar. E eu fiquei pensando até hoje.

Vários P.S.s:
Ufa, gente! Como escrevi! Me empolguei! Gosto de falar sobre a escola e também tava precisando fugir um pouco dessa nuvem de chiliquice que pairou sobre mim.
Ah, nem sei se preciso enfatizar que o que  escrevi são opiniões pessoais, como aquelas emitidas em conversas de amigo, mas vou. Em nenhum momento, pretendi  dizer que isso ou aquilo é mais certo ou mais errado ou dar palpites de qualquer espécie.  Estou apenas tagarelando um pouco sobre o meu trabalho.
Ah, e prometo ficar uns cinco dias sem postar depois de um post deeeesse tamanho.
Ah, e eu fiquei toda feliz quando, dia desse, um aluno relacionou um coisa que eu disse em aula com uma fala do filme que passei. E eu que pensei que ninguém tivesse prestado antenção... hehehe

5 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Primeiro o PS - olha, não fica sem postar não...gosto tanto (e aliás MEUS posts são sempre enormes).

Depois, lê isso aqui, lê (juro que não é jabá): http://borboletasnosolhos.blogspot.com/2010/09/ignoro-totalmente.html

Bom, o autor que seu professor falou deve ser Bourdieu (que tem o lindo A Miséria do Mundo)

Eu achei excelente a reflexão sobre a relação com a turma e as demandas (dos alunos,da escola, da sociedade). Sou professora também e sempre me pego refletindo sobre estes aspectos

Por fim, pra não fazer um comentário maior que o post, eu sempre ficava borocochô porque os alunos não gostavam dos filmes como eu gosto...mas já entendi (not#)

Cíntia Mara disse...

Tô muito lesada pra fazer um comentário decente. Mas nem pensa em ficar 5 dias sem postar, sua chata!

Rita disse...

Ju, seus relatos às vezes me fazem pensar nos meus tempos de sala de aula.

:-) Sim, é bom.

Beijinho
Rita

Borboletas nos Olhos disse...

Ju,
só entre nós (e todo mundo que lê seus comments): quandoeu tinha 20 anos a vida fez uma escolha por mim. Não reclamei, nem reclamo, gostei e gosto dos rumos que tomei. Mas nem percebi, na época, que tinha magoado uma pessoa (um fofo) e agora eu fiquei sabendo e, puxa, eu tô toda baratinada aqui, passando mil coisas na cabeça, querendo ser duas, chorar, sei lá. Sei que não ficou muito mais claro, mas é que ainda aqui outras people podem ler, né? Bjs, querida e obrigada por me ouvir/ler, gosto muito de partilhar com você.

disse...

Não sabia que vc era professora. Dá aula de que?