segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O primeiro dia

Eu também  tenho um caderno novinho em folha. O meu não é rosa, não é da Barbie nem do Ben 10. O meu é um caderno de adulto: vermelho com  bolinhas rosas.

Eu também queria que as férias durassem para sempre. As minhas foram lindas e felizes e poderiam ser eternas.

Eu também entrei na sala de aula  cheia de expectativas. Ouvi quando o professor de ciências disse meu nome,  quando vozinhas  começaram a conjecturar e cruzei a porta. Todos os pares de olhos se voltaram para mim . Todos. Porque a minha presença jamais seria ignorada. Não hoje; não no primeiro dia.

Uma voz se adiantou para me cumprimentar. Melhor mostrar educação e simpatia,né? Vai que amolece o coração. Eu respondi, larguei a mochila na mesa e decidi que era hora de encarar aquela gente que acompanhava atenta cada um dos meus movimentos.

Nos olhos: " Eu já conhecia ela", " Ah, que sapatos engraçados!", " Ela deve ser uma bruxa", " O que será que a gente vai aprender ?", " Será que dá pra enganar ela?"

Na minha cabeça: " Pequenos, muito pequenos. Os do anos passado eram maiores. O que eu vou fazer com esse monte de criança? Eles não vão me levar a sério. Não, relaxa! Nada de ficar comparando as turmas. Aquela turma complicada ficou em 2009. Esses são novos; alunos de 2011. Mas são bem pequenos,hein!"

Tive de dizer alguma coisa, então disse: " Oi, eu sou a Juliana, a professora de português! Tudo bem com vocês?"Alguns sorriram aliviados ao ver que  eu estava animada; outros ficaram só avaliando meu cabelo, meu sapato, minha bolsa, meus óculos, a pastinha do notebook. Danei ,então, a falar das regras, das notas, de como era ser aluno do sexto ano. Aí, aos poucos, a atenção se voltou toda pro que eu estava dizendo e  eu me lembrei direitinho de como é deixar de ser criança grande e aprender a ser pré- adolescentes. ( Ah, sempre fazem questão de deixar claro que não são mais crianças).

As regras todas pareceram muito espantosas; ficou bem explícito nos olhos levemente esbugalhados. Deu vontade de dizer: " Não se preocupem! Vocês e eu iremos sobreviver. Não sei como,mas sobreviveremos!".
Mas  era melhor não facilitar tanto. Com o tempo, o espanto se dissipa.

Enquanto copiavam tudinho no caderno ( porque tudo que é combinado tem de estar documentado, ora), eu só olhava, sendo aos poucos tragada pelos efeitos misteriosos da empatia. Talvez ainda estejam muito recentes na minha memória dos dias em que eu também era pequena e usava canetas coloridas para grifar o cabeçalho. Só isso pode explicar a sensação boa que veio para casa comigo, depois desse primeiro dia.

Se a primeira impressão é a que fica, vixe, estou ferrada. Fui muito com a cara desse pessoal que conheci hoje e já estou aqui me perguntando: " Será que dou conta? Será que levo aquele texto? Será ... Será...Será.."

P.S.: Eles são muito pequenos; nanicos assim, juro! =p

7 comentários:

Rita disse...

Hum, que lindinho. Desejo sorte a você. Eles já têm, a sorte de tê-la lá com eles.

Beijihos
Rita

Luciana Matos disse...

Juuuuuuu
Que legal seu texto! É bem fiel Às sensações de um primeiro dia de aula pra um professor!
A gente fica mais nervoso que aluno, né?
Beijo!

M!riam disse...

Oi, Ju!

Nunca tinha me dado conta que o professor também fica meio assustado no primeiro dia de aula.

Sempre passando uma imagem tão autoconfiante que nunca, nunquinha, poderia imaginar isso!

Adorei teu texto! Boa sorte com os pequenos, querida 'profi'!

beijo

Borboletas nos Olhos disse...

Eu já disse que você é fofa? Ah, já? Repito.

Palavras Vagabundas disse...

Ju, uma das professoras que mais amei foi uma professora de português - a foto dela está no post de José Candido Carvalho - tenho certeza que se você ama o que faz, ama seus alunos (mesmo os chatinhos), mesmo eles sendo tão nanicos (rs), você será inesquecível!
bjs
Jussara

Cíntia Mara disse...

Professor de ciências anuncia a entrada de... Juliana, a professora de português.
Crianças apreensivas. "Será que ela é uma bruxa?"
Juliana entra na sala. "Ufa! Ela não é uma bruxa. Mas será que ela é muito brava?"
Juliana fala. Crianças respiram aliviadas. "Não, ela não pode ser brava com essa voz tão fininha.¹"


¹ Momento quem-é-você-Cíntia-pra-falar-que-a-voz-de-alguém-é-tão-fininha??? Hahaha

Ah, eu também tenho um caderno novinho em folha, com uma capa de flores. Não resisto! A única coisa boa de participar de trocentas reuniões é poder comprar um caderno pra isso, hahaha.

juliana g. disse...

O meu caderno foi feito por mim. Tem a Frida na capa. Só Frida esse ano, para lembrar que sofrido foi o passado =)

Meus alunos são maiores. Comigo vão aprender Literatura, que é muito português, mas que pode ser pouco também! =D

Bom início para você, para mim, para nós!

Adorei o blog =D