quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

O primeiro

Que estranha é a memória.

Faz mais de uma década; eu diria que faz milênios - uns  12 milênios para ser mais precisa-, mas ainda sou muito capaz de lembrar. Não é um lembrar daqueles detalhistas e perfeitos. Não. O processo é mais inconsciente. Tem dias em que,  pela janela do ônibus,  bato o canto dos olhos em um pedaço de ombro e um vão de pescoço e fico certa de que conheço aquelas duas partes da anatomia de alguém. E estou mesmo certa, porque sempre que olho com mais cuidado descubro que o ombro e o pescoço têm dono. E eu conheci o dono.

É engraçada também a sensação boa que esse reconhecimento me dá. Nada tem a ver com romance e encantamentos. Não, não mais. O que sinto agora é uma alegriazinha boa  e repentina, que me invande e eu fico bem só de saber que eu já tive bom gosto, que não preciso me preocupar porque meu desejo sabe escolher moços bons.

Porque até as primeiras paixões, ainda que a gente ache que elas são bestas, têm firmeza e intensidade e  também adolescentes têm medo de sentir dor  - eu ainda tenho. Mas lembrar de você  é ratificar que a delicadeza se esconde em gestos engraçados, que  há meios e meios de querer bem  - e todos eles são bons.

Me comove - de um jeito leve e quente- essa minha capacidade de ainda te reconhecer, porque é como se eu pudesse identificar nos gestos imutáveis do teu corpo o menino que você era e ter esperança de que  o tempo não tenha roubado aquele menino de você. Se aquele menino  ainda existe, posso imaginar que você é um homem bom. E é isso que eu te desejo, para sempre: bondade, leveza e alegria.

Sempre que te reconheço por aí, desejo que você esteja feliz.  

E me alegro por ter uma lembrança boa assim.

Te lembrar é sempre bom pra mim.

4 comentários:

Júuh . disse...

"há meios e meios de querer bem - e todos eles são bons."

Sensação boa essa que toma conta de nós quando lembramos com carinho ou quando nos debatemos com alguém que um dia fez parte de nós...
Quem dera que com todo mundo fosse assim!

Beeijo Jú

Luciana Matos disse...

Que lindo texto!
Daqueles que dá vontade de fazer com que a pessoa retratada leia! rs!

beijo lindona!

Ju disse...

Ontem mesmo saindo do trabalho e entrando no carro para ir embora, escuto uma voz familiar gritando Juuuuuuuuuuu quem era ??? O primeiro...rsrs passando de carro na outra mão da rua. Foi uma sensação tão gostosa e única.

Juliana disse...

ju do céu, mentiiiira! Delícia demais ter lembranças boas assim,né?


Lu, eu acho que a pessoa em questão nem sonha que eu ainda me lembro da cara dele. hehehe

juh, quem dera,né?