quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Para C.


"uma casa não é nunca

só para ser contemplada;
melhor: somente por dentro
é possível contemplá-la."
(João Cabral de Melo Neto)

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É preciso deixar ir. Simplesmente, é preciso. Todos os dias, sempre, quando for necessário, agora mesmo.

Mas eu,que tenho o pequeno delírio de que um dia ainda hei de guardar o mundo  todo numa caixinha bonita,  coloco a mão no peito e conto as batidas aceleradas do órgão que fica bem no centro do meu tórax e imagino que tanto desalinho se deve ao medo da despedida. Desalinho é sinônimo de angústia

Sei que a memória, os ganhos, tudinho que é só meu há de ficar aqui comigo, resguardado, dando frutos, dando crias, gerando sorrisos, sonhos, lágrimas , futuros.Aquela que deixei de ser e esta que estou sendo sabem ser gratas pela mão sempre estendida  ao longo da caminhada, do processo. Eu e todas as mulheres que há em mim já não somos as mesmas e fazemos festas por isso. Soltamos fogos de artifício em comemoração. Deixar pelo caminho o que só dói e transformar fantasmas e canções ultrapassadas em pavimento de estrada são os presentes bonitos que essa despedida me oferece e eu os aceito, grata.

Dói porque partidas e mudanças não são coisas bonitas; são necessárias, inevitáveis, enriquecedoras, mas bonitas, ah, não são, não. Não para mim. No entanto, já posso conviver e aceitar essas coisas  feias  que não controlo e devo parte disso a você. O trabalho foi todo meu, mas tinha de haver alguém me dando perspectiva, visão, chacoalhões, retornos - alguém tinha de ser o meu fiscal de qualidade.

Você já se foi. Melhor dizendo, a rotina que eu conhecia já se foi. Mas eu ainda não tinha conseguido me despedir.

Agora, eu me despeço. Deixo ir, para que novos visitantes adentrem minhas varandas. E eu sigo com um medinho ( que eu já sei que é medo normal de gente; aquele tipo de medo normal que eu vivia dizendo que queria ter), entretanto certa de que eu mereço chances, delícias, sonhos, aventuras, permissões, incertezas. 

Que eu mereço desejar.

Que, aos pouquinhos, o desejo vai  sendo maior que o medo.

2 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Olha, Juliana, às vezes leio seus posts, vou e volto antes de comentar (e muitas vezes não comento) porque eles me deixam meio sem ar. Esse, então, me partiu no meio sem chance de cola. "Que, aos pouquinhos, o desejo vai sendo maior que o medo". É lindo.

Aline M. Gomes disse...

Menina, vc é melancólica tb????

Muito lindo isso!!!