sexta-feira, 11 de março de 2011

Sobre janelas

Estava, agora mais cedo, conversando com uma dessas pessoas honestas. Anteontem fui comer pizza com uma outra pessoa honesta. Acho que estou cercada de gente honesta. Que sorte, que bom!

Mas a honestidade a que me refiro não é necessariamente aquela que nos impede de ficar  com o troco a mais que o cara do ônibus no deu sem perceber. Tô falando da habilidade, da arte, da capacidade de ser transparente, franco, simples assim. Sabe, sentir medo, cagaço, angústia, indecisão , fúria, impotência e assumi-los - simplesmente assumir que você  é de ferro, mas não de aço; assumir e conviver com  as partes que as armaduras que a gente constrói não conseguem esconder.

Morro de admiração por esse povo que conheço que não nega a fragilidade. Às vezes, sinto inveja. (nada de inveja branca, porque não acredito em inveja boa. Inveja é inveja e ponto. Resta saber o que se faz com ela, aonde ela te leva e o que ela te leva a fazer. ) Sinto inveja porque não sou uma vidraça limpinha e descortinada; eu sou opaca. Nos meus parapeitos, há flores, dormideiras, bebedouros pra beija- flor, mas minhas vidraças são parecidas com lentes de óculos muito usados.  Minhas vidraças são feitas do material mais duro que encontrei. Não sei se duro o suficiente, mas me esforcei bastante para que  fossem dos mais resistentes ou daqueles que afugentam  os invasores e as pedras que as crianças da rua teimam em tacar. Pelo menos, eu acho que é assim.

Daí que vou deixando a inveja de lado e vou prestando atenção nas janelas da minha vizinhança, e percebo que vidraças mais límpidas podem ser mais seguras e eficientes. Se quem está do lado de fora tem mais facilidade de acesso, mais área de visão, quem está do lado dentro pode enxergar direitinho quem espia de fora e pode decidir abrir ou não a janela - ou as portas, ou os basculantes, ou o teto solar, sei lá

Essa gente que carrega consigo janelas transparentes é tão bonitinha. Eu me encanto tanto ao ouvir suas vozes embargadas - ou confusas, ou alegres, ou tranquilas, ou enfurecidas - , dizendo : " Eu não sabia que seria assim, mas é desse jeito que eu soube fazer." Ultimamente, quando elas abrem suas janelas para que  eu me debruce e dê uma olhada lá dentro, boto reparo na estrutura que sustenta a janela, no material que gruda o vidro à armação de ferro ou de madeira e vou pegando umas diquinhas aqui e ali  pra ir , aos poucos, descobrindo o meu jeito de cuidar das minhas próprias janelas.

Vamos ver no que dá.

5 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Ai menina, que texto lindo, dá vontade de emoldurar, viu.

Day disse...

Lindo o texto. De um aconchego bom...

Lia disse...

Ja disse e repito.... suas vidraças são claras, basta olhar com cuidado e atenção!

mas nos dias de hj... poucos são os que querem nos olhar com calma.

ps: achei que só meu terapeuta usasse essa palavara 'cagaço'... rs
depois do dia em que ele falou, peguei ela pra mim rs

mila disse...

Para ter as vidraças limpidas, ha q se manter a casa em ordem e so andar nela com roupas bonitinhas pra q as pessoas d fora nao vejam besteira... Mas se a gente tem essas vidracas limpidas, não pode deixar uma baguncinha q logo vem alguem julgar, nao pode nem passear sem querer de sutiã num dia de muito calor...
Nao Ju, vidraca limpida nao eh nada bom, eu tenho inveja (nada branca, inveja bem fumê) das vidracas com insulfilm! Protejem a casa do calor e dos olhares alheios e deixam quem estar dentro verem tudo la fora... E so olha la dentro quem entrar pela porta quando convidado.
Queria eu ter a minha janela mais fumê!

mila disse...
Este comentário foi removido pelo autor.