terça-feira, 29 de março de 2011

Sou daquelas pessoas que precisam de permissão pra chorar. Não consigo sentar num canto, apertar os olhos e, pronto, deixar as lágrimas descerem. Em algum momento da vida, aprendi que só os fracos choram (e eu não sou fraca; sou durona, bem durona). Hoje já sei que todo mundo chora - fracos e fortes -,mas ainda não sei chorar fácil, assim, só porque quero.

Ando com uma angústia que ainda não tem forma nem nome. Todo mundo tem suas angústias. Todo mundo chora por elas e sobrevive. Repito essas duas últimas frases de vez em quando, pra ver se me convenço. Mas nada! Só choro quando é permitido.

Daí que hoje cheguei na escola, meio febril, garganta doendo, cólicas e mais a minha angustiazinha da temporada. Dar aula é legal, mas não é o tipo de emprego que dê brechas pra enrolação. Experimenta fingir que está trabalhando, enquanto 30 pessoas de 12 anos estão na tua frente, esperando. Os alunos sempre esperam alguma coisa dos professores. Sempre. Enfim. Hoje eu tava lá na sala de aula, tentando administrar um nariz escorrendo e os meus e as minhas 30 colegas de trabalho, quando decido que já é a hora de fazer chamada. Chamo uma, chamo outro, chamo o Fulano. Um dos amigos do fulano, em vez de dizer que o Fulano faltou, levanta e diz: " Fulano tá em coma no hospital!".

Um dos meus alunos - um adolescente de 15 anos repetente, deslocado numa turma de sexto ano, leitor de histórias de terror e considerado gatinho pela metade da escola -  caiu de cabeça no chão, enquanto fazia aquelas manobras de bicicleta. Quando o outro aluno me deu a notícia, no meio da chamada, eu não acreditei. Vai que é  invenção! Essas crianças adoram dizer coisas chocantes só pra verem a cara de boba da gente. Vai, né! Mas é verdade!

E assim que cheguei em casa, me deu uma crise de choro. As palavras do menino  me dizendo que o Fulano tava em coma no hospital, a voz dele naquele tom sério que eu nunca tinha ouvido ainda tão ecoando aqui no meu ouvido.

Se eu disser que chorei somente pelo Fulano, é mentira! Botei pra fora semanas de lágrimas reprimidas. Chorei pelo meu cachorro que tá doente de um jeito que parece não ter recuperação. Chorei porque a minha garganta tá doendo. Chorei porque ainda não sei elaborar angústias. 

Chorei porque a vida tem suas durezas e acidentes acontecem quer a gente queira ou não. Não parece muito justo que  alguém de 15 anos fique em coma por causa de uma brincadeira perigosa que um monte de outras pessoas de 15 anos também  fazem. Aos 15 anos,  todo mundo deveria ser apenas feliz. Aos 25, aos 35, aos 275 também. Nada de cachorros doentes, de resfriados, de incertezas e , principalmente, nada de acidentes e comas. PRINCIPALMENTE.

7 comentários:

Fabiane Ariello disse...

Nossa, Ju, que coisa triste, espero que seu aluno melhore logo. E não segure as lágrimas... é bom se libertar da dor o quanto antes, e as lágrimas ajudam. Eu te dou permissão pra chorar! ;)

Juju Balangandan disse...

Hoje, fiquei com vontade de chorar junto, talvez porque todo mundo tem direito de ser feliz, mas nem sempre é fácil.

Palavras Vagabundas disse...

Chorar lava a alma!
bjs
Jussara

Borboletas nos Olhos disse...

Com você. As pessoas deviam apenas ser felizes. Com você, baby, ardendo garganta, olho, tudo.

Chico Mouse disse...

Nossa, Ju... que.coisa.doida.

Desculpa contar isso, mas na minha época do colégio, um coleguinha (que devia ter mais ou menos essa idade) faleceu caindo de bicicleta assim. Assim, sem mais nem menos. Bateu a cabeça no asfalto. Lembro-me de ter achado aquilo tão irreal na época... não conseguia conceber aquilo... "como pode, ele tem a minha idade?!", pensava comigo mesmo. Foi muito triste e foi a primeira vez em que vi alguém da minha idade morrer...

Bem, espero que ele melhore logo e que não tenha sido assim tão grave.

Como você bem disse, a gente só devia se preocupar em ser feliz... "Somos tão jooooovens...", como diria Renato Russo.

P.S.: chore, sem medo, sem receio mesmo. A gente se sente melhor depois, tá?

Se cuida,

Mouse

juliana g. disse...

sem desfazer da notícia, que é das pesadas eu sei. mas sabendo-me distante demais dele para dizer qualquer coisa. desfaço o laço informativo disso e digo, apenas:

foda, mesmo, é quando a gente fica em coma e ainda assim acordado. tendo que, implacavelmente, viver.

eu tô com choro entalado aqui também. que se sair, represa tudo.

M!riam disse...

Ai, Ju... nesse momento eu só queria estar ai, do teu lado, só para te abraçar em silêncio... abraço bem justinho... nesses momentos não há o quê dizer...