sábado, 30 de abril de 2011

“ Me acorde e depois se vá
Deixe eu te reparar 
Como uma invasão”
Ter que esperar- Chicas


Ficara à espera de um abismo. Ele chegaria, ela se lançaria. Esperara quase alagada de tanta antecipação. O coração incomodando na garganta, quase saltando corpo a fora; o corpo expandido, do tamanho de todo o espaço ao redor.

E ele viera. Estava bem ali. Abismo.

Nada era novo. Nada. Era como se o tempo tivesse estagnado no momento em que ela fincara  os  dedos naquelas costas pela primeira vez. Era como se  os músculos sobre as costelas dele fossem parte dela.

Era como se ele fosse dela.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Cantando na chuva

Eu tenho a  alma leve. Não sei por quê, mas só por hoje leve.

Se estivesse chovendo, eu me jogaria debaixo da chuva e começaria a cantar uma música qualquer que eu compusesse na hora. Minha voz seria afinada e grande,  e as folhas do pé de acerola seriam o meu coral.

Não está chovendo, não dá pra ver a lua, então fico aqui sentada, sob uma chuva imaginária que só existe nos limites do meu quintal. A minha chuva é de água fresca, nuvens geladas. A minha chuva é  de pingos de sorvete, de   um cadinho de maresia.

Estende a mão aí agora. Tá sentindo os pingos? Tá não? Então, vem pra cá! É de graça. É chuva de mentirinha, chuva de imaginação.

Vem!

Tá uma de - lí -cia!

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Apesar de

Hoje ouvi o relato que mais me interessava a respeito do meu primo. A irmã dele de 16 anos foi ao hospital e depois me disse: " Eu não sei explicar a dor que senti. É horrível. É como se ele estivesse morto. Ele abriu os olhos quando eu falei o nome dele, mas não olhou pra mim. Ele tava olhando pra nada, com o olho arregalado. É como se todo mundo lá estivesse morto. Mas eu acho que ele vai viver."

E é isso mesmo! É preciso ter consciência da situação,  é preciso dizer que sim, ele  tá muito mal, mas ainda assim ter esperança. Porque negação não cura não opera milagres. 

É isso mesmo, prima!  As coisas estão bem ruins,mas a gente vai seguindo com esperança. 

É assim que acho que tem de ser: arregalar muito os olhos pra dores, pro cansaço, pra crises, pras ofensas, pros nossos defeitos, pra dores do mundo, pra chatice do mundo, pra merdalhada toda, mas ainda, apesar de, carregar consigo um montão  de esperança. Sempre, sempre, sempre apesar de.

Cresci dentro de uma estrutura social e familiar que me ensinou que só as coisas boas podem ser ditas, podem ser reveladas. Se dói, se choca, a gente guarda pra si. Não sabe onde guardar? Faz de conta que não sentiu e  segue adiante.Bem, não dá muito certo. Comigo, não deu. Daí la fui desaprender a ser uma silenciadora de coisas ruins. Tenho que  fazer lição e  praticar todos os dias. É um saco ter de aprender depois de velha.

Hoje me deu tanto orgulho da minha prima. Ela foi a primeira a  dizer com toda as letras : " PARECE MORTO" e ,ainda assim, tem muita esperança.

Que orgulho, que fofa, que esperta!

***

"Como é estar viva? 
Debora – Eu preciso dessa sensação boa, sabe, de encontrar os humanos por aí. Mesmo com tanta falta de humanidade nesses espaços para onde vou. Mas humano é isso tudo: essa crueldade, mas também essa riqueza; essa maldade, mas também esse acolhimento do outro. Quando você não tem nada, mas você ainda tem espaço para acolher alguém dentro de você, é interessante, bem interessante. E aí você se dá conta de que o material não é nada. Nada. Tipo... um terremoto pode terminar com tudo isso daqui. E aí quando as pessoas dizem (ela imita a voz): “Mas como, você acabou de comprar seu apartamento e já vai abandonar?”. Eu comprei um apartamento, não comprei uma algema para botar no meu pé. Um apartamento é um lugar para onde você pode voltar quando quiser, ele não vai fugir. Um dia ele pode desaparecer num terremoto, num maremoto, qualquer coisa pode destruir ele. E se esta for a razão para eu viver, talvez eu nunca consiga me recuperar da tragédia dessa perda. Mas acho que, quando o ser humano quer uma razão para viver, ele encontra. Seja uma pedra... talvez uma pedra dê razão para você viver. Você diz: essa pedra aqui é mágica, você vai encontrar a sua sorte com ela. Pegue nessa pedra e atravesse esse rio. Ok. Talvez essa pedra seja uma razão para viver. "

A Luciana postou no facebook e eu fui lá no site da Época ler.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O impasse

E tem dias em que saio da escola leve, leve. A aula dura 15 minutos a mais, porém ninguém reclama porque estávamos discutindo quem tinha a razão neste impasse:

"No folder de divulgação da festa do clube, está escrito :  ' Teremos comida e bebida liberada'. Um grupo de rapazes sai de casa sem jantar, já pensando em comer bastante na tal festa., no entanto o  plano de ' tirar a barriga da miséria' é  frustrado por um garçom que afirma que somente a bebida é grátis. Os rapazes  argumentam que o folder  diz que a comida também é de graça e fazem questão de falar com os organizadores da festa.

E agora? Quem está com a razão?"

O pessoal do 8º ano  chegou a uma conclusão. E vocês?

terça-feira, 26 de abril de 2011

Depende

Felipe  ( ai, tô com uma preguiça de pegar o link do blog em que ele faz resenhas maneiras sobre livros não tão maneiros. =p) deixou o seguinte comentário no post anterior:

 As vezes eu acho, lendo seus posts, que o que você mais quer é trocar de emprego e se livrar dessas crianças, mas depois eu penso que você gosta de tudo isso. Você me deixa confuso rs


Acabei de chegar da escola e quis responder ao comentário do Felipe no calor das emoções desse momento. Porque neste momento eu tô cansada. Tenho a sensação de que meu cérebro foi triturado, moído e liquidificado. Se o Felipe tivesse feito o comentário lá pelo meio-dia, eu estaria aqui às gargalhadas , dizendo que adoro minhas crianças do sexto ano, apesar de ter de lidar com um menino que tira todo mundo sério e parece uma esfinge de tão difícil de entender. Eu diria que o pessoal do sexto ano me enlouquece, me cansa, me irrita, mas me divirto tanto com els que até me esqueço de não querer voltar a dar aula pra eles nunca mais. Hoje, por exemplo, uma das meninas, a C., disse que não me respeitava. Aí eu perguntei por que ela tava dizendo aquilo. Ó, a resposta literal: " Professora, eu não te respeito porque eu chamo a senhora  de egoísta quando a senhora não me deixa colocar o estojo e o fichário em cima da sua mesa" . Pensei em dizer que meu conceito de respeito é um tantinho diferente do dela, mas me limitei a sorrir e balançar a cabeça. C. tem uma personalidade ferina, uma incapacidade de falar em um tom normal ( desconfio de que ela precise berrar muito em casa pra ser ouvida), não sossega quieta, sabe de tudo, responde tudo, questiona tudo e acha que não é justo que a mesa da professora seja maior que a dos alunos. Eu admiro a C. Queria ter sido uma menina de 11 anos igualzinha a ela.

Bem, voltando ao comentário do  Felipe. Só agora, às 10 da noite, li o que o Felipe disse, então minha resposta já é outra. Neste momento, eu me pergunto pra que  escolhi dar aula. Explicar a diferença entre uma subordinada condicional e uma subordinada temporal não é divertido. Tá certo que eu não dou aqueles exemplos bestas. Faço análise de textos de jornais, de declarações de artistas, de posts de blog,  de anúncios de jornal, de contratos de venda de imóvel. Mas aí os alunos acham que eu não tô dando aula, que não sabem responder nada, que não têm ideia do que eu tô falando.

Pra facilitar as coisas, ajudar na nota, passo um trabalho: escolher um livro QUALQUER (valia até livro da Bíblia. Aliás, um dos alunos fez um trabalho muito legal sobre o livro de Daniel.) e responder umas perguntas sobre o livro que leu.  Ou seja, dizer o que gostou e  o que não gostou, opinar, brincar de resenhar. E não é que  teve gente que baixou resumo da internet, gente que fingiu que leu, gente que não fez? Mas o pior de tudo foi um aluno aparecer com um trabalho escrito com uma letra que eu sei que não é a dele e dizer pra um colega  que mandou a namorada fazer o trabalho por ele. Não sei o que mais me deixou indignada: se foi o fato de ele falar do trabalho como se eu não estivesse ali perto, ouvindo o que ele tava dizendo, ou se foi o tom que ele usou pra dizer que MANDOU a namorada fazer. A pessoa ainda achou que estava sendo muito honesto ao dizer pra mim que não tinha feito o trabalho, quando  me fiz de boba e  perguntei o que tinha acontecido com letra dele.
Cara, eu não me importo muito com  o fato de ele ter feito ou não. Dane-se o trabalho. Dane-se o livro que ele não leu. O que me cansa, me dá vontade de sacudir os ombros de um moleque desses é saber que a atitude dele representa a mentalidade de várias outras pessoas. Gente que acha que  não é preciso ter trabalho com nada, que tudo vem fácil feito a mesada do pai, que namoradas existem pra servir às suas necessidades.

Felipe, resumindo: todo dia eu tenho vontade de largar isso tudo. Todo dia  eu tenho vontade de ficar mais cinco minutinhos na sala de aula. Depende do dia, depende da hora do dia, depende.


P.S.: Vou usar a desculpa de que estou escrevendo no "calor do momento", pra justificar qualquer sandice que eu tenha dito e todo crime cometido contra a dupla Coesão e Coerência nesse post. =p  

segunda-feira, 25 de abril de 2011

A empada, a música e o protetor solar



- Tia! Tia! Tia! Tia! ( Não se esqueçam de que frequento uma sala de aula do sexto ano, ok? )
Tiro os olhos do quadro e dou atenção à  menina magra e pequena que acha que tem o direito de espalhar suas folhas de fichário na minha mesa.)
- Diga, L.
- Tia, o sol tá me queimando.  ( Importante:  L. senta sempre na mesmíssima cadeira, ao lado da janela. SEMPRE. Entenderam? Ela nunca senta em outra carteira. NUNCA.) Eu vou ficar torrada. Tá ardendo!
Ergo as sobrancelhas e pergunto:
- O que você quer que eu faça? Puxa um pouco a cadeira pro outro lado ou senta lá atrás. Eu não tenho como tirar o sol do lugar.
Ela ri dessa minha última colocação  sobre o sol, como se eu fosse meio idiota, e diz:
- Mas a senhora pode mexer no vento do ar-condicionado. Liga o ar, professora! A senhora desligou o ar e agora o vento não tá pegando mais em mim. 
- O que tem a ver o ar- condicionado com protetor solar, garota?
- O vento do ar-condicionado tem protetor solar.  A senhora não sabia?

 Passo a vez.Nada a declarar.


***

Agora, dei uma pausa na burocracia escolar. (Ler trabalhos que dizem praticamente a mesma coisa não é divertido.) Daí decidi que Chicas e empadinha de palmito me faria muito bem.

A empada já tá no meu  estômago, mas essa música bonita pode ser ouvida agorinha, ó:




domingo, 24 de abril de 2011

Domingo de Páscoa



Surrupiei da Amanda, que surrupiou da Helô e iniciou um verdadeiro movimento de fotógrafas do cotidiano. 

Elas têm Paris e Londres.A Rita tem Floripa,  a Bia tem um pijama de borboletinha.
Eu só tenho o quintal de casa mesmo.



~



















Legendinhas aleatórias:
* Se falar que o cabelo parece pelo de poodle, apanha, viu?
* O Pica-pau não me pertence.
* Aceito estantes de presente.
* Faça chuva, faça sol, come-se churrasco nessa casa.
* A criança que vem me visitar mal sabe ler,mas já gosta do City Ville. Pode?
* Não, eu não sei o significado da palavra " enquadramento".


E aí?  Mais alguém se habilita?


sábado, 23 de abril de 2011

Tristesse

Enquanto  o restante da casa dorme, peguei o notebook e sentei na cozinha,determinada a escrever um post feliz. Mais cedo, cheguei à conclusão de que não aguento mais esses posts tristes. Eu precisava de um post feliz, afinal  eu sou uma pessoa animada e bem -humorada; logo este blog precisa refletir minha personalidade. Assim, bem cartesiano. Vamos lá, Juliana, escrevendo um post feliz! Vamos lá! Animação!

É claro que não funcionou.

Estou triste. Nada em mim, neste momento, é alegre. Posso até erguer as bochechas num sorriso bem aberto que não vai adiantar. Ainda serei triste. Mas não é aquela tristeza de TPM, de depressão, de doença, de querer morrer. É só tristeza. Ainda acho graça da minha vó  me chamando de herege porque comi pastel de calabresa na sexta-feira santa, também  passei metade do dia pesquisando um esmalte pra colocar na unha amanhã, assisti a 2 episódios de Friends e não consigo parar de pensar em por que a Monica largou o Richard ( Por que, Monica? Por quê?), sentei no quintal e tentei trabalhar. Tudinho como sempre, só que com um elemento adicional e novo: a tristeza.

 E por que será que  me parece tão incômodo carregá-la comigo? Um cachorro muito amado recém- enterrrado e um primo em coma são justificativas bem plausíveis para qualquer tristeza. Ainda que eu argumente que o cachorro só tinha cinco meses de vida e que eu acho que meu primo é um imbecil, a tristeza continua pesada e não vai embora.Por que é que a gente tem medo de tristeza? Por que é que a gente acha que só sorrisos são saudáveis? 

Nesses dias, não tenho  bom -humor, diversão, a boa e velha conversa fiada a oferecer pra ninguém. Não estou silenciosa e carrancuda ( choro e lamúrias somente no Fina Flor; juro que ainda sou uma companhia razoável fora deste blog. Só reclamo do trakinas de morango que veio murcho ), mas também não tô sabendo ser feliz. Não consigo escrever posts felizes; só posts tristes. E até usando óculos, eu estou. =p

Desculpe, é o que tem pra hoje.


***

Tristeza, não vou te mandar embora, por que , apesar de tudo, você me consola. Ficar triste, triste é melhor que não ficar nada e depois somatizar tudo. Te aceito, tristeza, como hóspede temporária. Enquanto você não pega a estrada de novo, continuarei  assistindo a 3 episódios de Friends seguidos, achando que o Richard sem bigode é o homem dos meus sonhos e tomando iogurte de mel, laranja e cenoura ( meu vício!).

Hum, delícia!



sexta-feira, 22 de abril de 2011

Minha vó e eu juntamos todas as coisas do Spock ( tudinho mesmo) e botamos fogo. Só restou  o baldinho no qual lavávamos os cobertores dele, mas minha vó já deu um novo destino pro balde. Agora, ele serve de vaso pra uma mudinha de Sempre- Viva.


***



Meu primo já está há 10 dias no CTI. Parece tão irreal dizer isso. Parece que tô falando da vida de outra pessoa.


***



Ontem fui à praia, porque tava até com medo de olhar minha cara pálida no espelho. Esses feriados andam tão deliciosos, com esse céu claro, temperatura perfeita e sol que não arde tanto na pele.

E o mar, né?

Consequência: um bronzeado levinho e  coxas doendo de tanto apanhar das ondas. Ai!

***

E eu não paro de cantar essa daqui:

quarta-feira, 20 de abril de 2011


Meu Spockinho não mora mais aqui, mas tudo bem. Ele sofreu tanto, especialmente ontem, que eu cheguei a desejar que ele morresse. Tínhamos decidido sacrificá-lo, apesar de toda resistência da minha mãe. Pra ela, por questões religiosas,  era uma decisão dificílima, no entanto ninguém mais aguentava ouvir os lamentos de dor do nosso cachorrinho. Não foi preciso matar o Spock; ele morreu sozinho, de madrugada, sedado.

Logo , logo , eu me acostumo com o fato de que não terei mais que me preocupar com a possibilidade de um cachorrinho comer a prova de algum aluno.  Spock gostava de rasgar papéis, ficava muito tentado a arrancar um dos meus livros da estante. Não vamos precisar trancar as portas do quartos, não vou precisar fugir das mordidinhas no meu pé. Não tenho mais companhia pras horas em que passo trabalhando no quarto.

Ele não está sofrendo mais, e eu tô aliviada por isso. Quase feliz.

E uma parte de mim quer acreditar que a morte  já tenha feito sua parte por aqui e vá embora.

terça-feira, 19 de abril de 2011

É como se eu tivesse afundando.

Não quero nunca mais isso, nem por cachorro nem por gente.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Hoje eu queria as palavras bonitas, somente as mais bonitas.  Doçura, chocolate, leveza, magia, melancolia, sussurrando. Queria saber juntar palavras bonitas e brincar de fazer versos. Queria versos bonitos.Mas me faltam versos, palavras, letras, sons, o que seja. Tenho só o silêncio; nem o silêncio, a bem da verdade. Tenho só o nó no peito. 

Meu peito tá todo embolado feito um novelo de lã que vira bolinha de gato. O sol tem estado quente, as tardes são as mais lindas que um outono pode oferecer, minha cabeça se concentra nos livros de lendas persas e egípcias que preciso ler, mas tem esse meu peito bagunçado que me atrapalha.

De tempos em tempos, acho que esqueci, mas aí meu peito me  lembra, e , de repente, o céu e o sol parecem brilhar num tom  mais frio, como um réquiem, como que pra não me deixar esquecer que a morte vaga mansinha e ronda. 

Minha vó diz que sou macabra e fatalista. Um pouquinho, talvez. No entanto, é fato que a morte tá aqui perto tanto quanto a vida, agora mesmo no cantinho da cozinha onde Spock respira o mais lentamente possível, lá no hospital onde meu primo dorme em seu coma. A morte está lá , aqui e em toda parte, o tempo todo, mas a gente esquece. E  é  por isso que quando ela chega um tantinho mais perto, a gente faz dela um monstro. Só que ela é que nem o mar, o céu, a vida, o DNA, existe desde sempre. Ela faz corações pararem desde sempre, mas a gente prefere fingir que  é uma aberração, só porque não gostamos dela.

E eu só queria as  palavras bonitas que enxotassem meu medo da morte. Sempre acho que palavras bonitas têm superpoderes, mas suponho que  não adianta ficar  procurando poemas do Drummond.Ele sempre me salva, me entende, diz tão lindamente o que eu sinto, mas até o Drummond não foi bem -sucedido hoje. A poesia também não é melhor que a morte. Nada é. 

sábado, 16 de abril de 2011

Porque há

Há coisas boas. Sempre há.

Há a  noite quente, a  brisa boa, o turbilhão da rua, a Lia, São Paulo, o celular da Tim, a professora que leva 24 minutos pra começar a aula e escrever na lousa. ( Lousa? Que lousa? Aqui na minha terra, a gente chama de quadro).

Há a rua, só a rua e um céu claro, e a lua, e a Candelária ao final da rua, tudo parecendo tão bonito enquanto o sinal ainda está fechado. Tudo ali só pra mim.

Há o tempo, o deslocamento, o trem e uma hora inteira pra pensar. Há a fantasia, o sono, a janela , o muro e as casas correndo veloz.

Há a suavidade da voz, a dureza da voz, a aceitação, o reconhecimento, o vaso de porcelana, o " eu sei".

Há a  festa,  o bolo de aniversário voador,  a nerdice, a trollagem, o regozijo e a regurgitação, os olhares,  as risadas,  a doçura, a aniversariante, as palavras que nem lembrava, a constipação, o peito de aço, as piadas internas, o ninho, a casa, os balões e um céu de tnt azul.


Há a sorte, a minha sorte.  Toda minha.

Só por hoje minha.

Graças a Deus.

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sou passional e impulsiva. Às vezes, me esqueço disso.

Ontem escrevi por duas vezes aqui, bem em meio a um turbilhão de emoções com as quais não sei lidar. Daí , assim que apertei o botão pra publicar a postagem , me arrependi. Voltei  e deletei o post. Respirei, respirei e fui tentar cuidar da vida. Mais tarde, me dei conta do por quê  me senti tão incomodada com o que escrevi e por que senti tanta necessidade de desabafar aqui especificamente.

Já falei umas trezentas vezes sobre as crises que tenho com esse blog. O Fina Flor é pessoal demais. Ainda que eu não conte tim- tim por tim- tim da minha vida, muito do que eu sou e , principalmente, do que sinto está aqui , ao longo desses posts. E eu sempre me pergunto por que acabei escolhendo esse viés tão pessoal prum espaço tão público. Acho que descobri a resposta ontem.

Essa semana tem sido uma das mais difíceis que já vivi. Sem dramas. Meu cachorro tá pertinho de morrer e não tem sido fácil pra mim lidar com isso, por diversos motivos. De qualquer modo, independente das minhas crises existenciais, cuidar de um cachorro muito doente, com convulsões e  limitações físicas, é doloroso , cansativo e triste. Ele sofre, e nós sofremos junto.

Além disso, numa sacada meio mórbida do destino, meu primo sofreu um acidente de moto e tá em coma no hospital. Há quinze dias, falei aqui do meu aluno que fraturou o crânio e esteve em coma. Não imaginava que falaria de coma novamente, especialmente envolvendo alguém tão próximo. Talvez quem tenha me visto nesses últimos dias, não possa adivinhar o quanto estou confusa , triste e apavorada. Talvez quem me conhece e sabe do tipo de relacionamento que tenho com o meu primo, não leve muita fé na minha comoção. E eu me dei conta de que estou muito preocupada com os outros. Sou sempre preocupada em guardar o que sinto de verdade pra mim. Meu medo de julgamentos é maior que o meu bom senso e o pouco de maturidade que tenho. Eu finjo que não estou chocada, triste, apavorada , visto uma máscara de passividade e silêncio para evitar que meus sentimentos sejam invalidados, para que não duvidem de sua legitimidade.

Quando eu soube da gravidade do acidente, senti tanta, mas tanta raiva do meu primo. Ele estava sem capacete e isso tornou tudo pior. Mas , pra quem  o conhece, a ausência de capacete não é novidade. Eu achar que ele é um idiota completo também não é. Só que  não dá pra externar raiva num momento desses. Não se deseja querer arrancar um dente de alguém que tá com a cara toda amassada e com um tubo enfiado na garganta.

Depois que a raiva passou, veio uma tristeza enorme. Muito enorme. Uma tristeza que eu não conhecia. Sabe o que é você se dar conta de que  a morte existe, que um dia vai chegar pra quem sempre existiu na sua vida, quer você queira ou não. Eu já havia sentido algo parecido antes, quando uma das pessoas que mais amo nesse mundo, cuja a existência é tão fundamental  ao ponto de eu não me lembrar bem de como era vida antes de ela  estar por perto, precisou operar a cabeça. Até então, cabeças só eram operadas em filmes. Agora, parece ainda pior: meu primo , que tantas vezes bancou o inconsequente sem sofrer nenhuma consequência, está em coma. E toda vez que penso nele, a imagem dele deitado lá no hospital se forma na minha cabeça. Não o vi ainda e provavelmente não o verei no CTI, mas meu coração aperta um pouco só de imaginá-lo naquela condição esquisita em que o coma deixa as pessoas. Imagino a dor  e o susto que ele sentiu ao cair.

Eu escrevo no Fina Flor porque  aqui posso falar sem medo. Aqui não preciso de mascaras, posso criptografar minha linguagem sem que exijam coerência, posso morrer de medo de que alguém com quem mal falo morra. Aqui não preciso explicar que eu não quero que meu primo morra, apesar de eu  não  saber lidar com ele e por isso me manter afastada. Aqui não preciso explicar que não quero que o Spock morra, apesar de saber que ele vai morrer.

Escrever me mantém um pouquinho sã. Eu poderia escrever somente no blog fechado que mantenho com meus amigos mais chegados, mas tem horas em que eu quero escrever aqui. Porque às vezes a gente quer falar ,mas não quer falar sozinha. Tem sempre alguém que lê, comenta, se identifica, pensa no que você diz, sem necessariamente ser cruel ou mórbido ou ofensivo ou insensível. Acho até que eu me estresso menos com o fato de que desconhecidos leiam. Fico sempre com um pé atrás ao postar aqui porque ,aos poucos, vão aparecendo os conhecidos . Não sei o porquê dessa precaução toda, mas também , agora, nesse momento nem quero saber. Desconfio, há muito tempo, de que controlar é meu verbo favorito. E tem meio melhor de achar que tá controlando um pouquinho a  própria vida do que escrever um  blog diarinho? No fundo, eu devo ter medo de que aqueles que não me conhecem descubram que de fina flor eu não tenho nadica de nada.

Mas hoje vou ligar o botão do " foda-se" ( sou uma moça pudica que não fala palavrão quase nunca, mas adoro ser usária desse botãozinho) e  não pensar em mais nada.

P.S.: Também tem horas em que tudo o que você não quer ouvir é " não, não fica assim!" ou " agora é só esperar". Esperar é  um inferno.

P.S.: Num é que esse trem de escrever é bom mesmo! =p Até a dor de cabeça deu uma aliviada.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Adjetivos horrorosos  e insultantes caem como uma luva para pessoas que a gente ama muito silenciosamente e  apesar de.

Adjetivos horrorosos e insultantes caem como uma luva para pessoas que só fazem merda, muita merda.

Adjetivos horrorosos e  insultantes caem como uma luva quando a raiva é a máscara perfeita pro medo e pra uma dor estranha.

É a segunda vez que  a palavra coma aparece por aqui.

A gente nunca espera. A gente nunca quer.

Faltam palavras.

Eu peço, Tim!

Eu já sofri por amor. Tu já sofreste por amor. Nós já sofremos por amor.

Mas eu  fico repetindo aqui pra mim que jamais cantaria assim ó:




Se bem que eu ainda não  tomei um pé na bunda daqueles bem tomados...


 P.S.: Ah, sim, eu amo o Tim e sou monotemática.  ;)

terça-feira, 12 de abril de 2011

Mais mimimi da Tia Juliana

Não sou a melhor professora do mundo. Não mesmo! Tô longe, léguas, anos - luz de ser aquela professora que eu desejaria pros meus filhos. Se serve de consolo, pelo menos eu me esforço. Tento mesmo. Tem vezes em que não dá certo.

Minha maior dificuldade é justamente lidar com o sexto ano. Ah, cês vão dizer aí: " Mas tu num vive fazendo postzinho fofinho sobre aquelas crianças fofolineldinhas?" . Faço e farei. Adoro esse povo que ainda não é adolescente de verdade, que não tem rebeldia gratuita correndo nas veias. Só que adorar não significa que eu saiba administrar com garbo, elegância e traquejo um espaço lotado de gente dessa idade. Toda vez que vejo Supernany, fico pensando que ela poderia socorrer também professora desesperadas. Eu me inscreveria na boa!

Entendo tanto aquelas mães escandalosas e aqueles pai ausentes que pedem socorro pra Cris Poli. Sofro do mesmíssimo mal que quase todos os pais que a Supernany visita sofrem: não sei mostrar quem manda. Nunca tive grandes problemas de indisciplina com adolescentes mais velhos  ou com adultos. Na turma complicadinha do noturno, foi só adotar uma postura mais séria que  as coisas entraram no eixo. Menos sorrisos e um certo distanciamento surtem um efeito. Cês precisam ver! Agora, as pessoas do sexto ano são o meu fraco, sabe! Tenho que fazer um esforço sobre - humano pra bancar toda aquelas chatices de olhar caderno por caderno, mandar fazer cópia, pedir pra falar baixo umas cento e cinquenta mil vezes. E, em algum momento, eu amoleço. Em algum momento,  eu peço arrego. 

Minha antiga psicóloga dizia que eu tinha que aprender a exercer a autoridade. Concordo  - sempre concordei - ,mas é difícil, difícil. Alguém vem aqui e me ensina muito didaticamente como é que faz pra ser professora de gente de 12 anos? As aulas tão preparadas, tenho boas ideias, só preciso aprender um jeito de sair da sala de aula sem ter a sensação de que todas as minhas energias foram sugadas, enquanto o meu cérebro girava loucamente num liquidificador.

Ah, peço , por favor, a quem se candidatar a ser meu mestre Yoda nessa grande jornada em busca da aulal perfeita que tenha piedade da minha autoestima e não me venha com aquele discurso " ah, comigo, eles são tranquilos". É sempre assim! A agitação e o falatório só acontecem na minha aula. Incrível! Acho que esses alunos tão me perseguindo,né? Só pode! =p

Falando sério: hoje o fantasma da incompetência tá me rondando aqui.

Cansaço, viu!

Pura nostalgia

Ontem me deu um surto de nostalgia e passei um tempão revivendo os anos 90. Acabou que achei esse clássico:





Doug Funnie me entendia demais!

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O inusitado

Minha intenção, até às 2 da tarde, era vir aqui  e contar que fui pedida em casamento duas vezes antes do café da manhã.  Resta saber se  propostas de casamento feitas por alunos de 11 anos, às 7h30 da manhã,  contam...
Ah, e antes que você pensem que ando despertando paixões platônicas, devo deixar bem claro que os pedidos de casamento estão diretamente ligados ao fato de que hoje era o dia da prova. Entrar numa sala de aula  carregando um bolinho de papel A4 causa comoção, histeria e, descobri hoje, puxação de saco deslavada. Nunca fui tão linda, tão elegante , tão maneira, tão  " professora, seu brinco é lindoooo!" quanto nesse dia em que a prova do primeiro bimestre foi aplicada. Essas crian... ops, esses pré-adolescentes!  (eles fazem questão dessa palavrinha cujo significado é bastante obscuro pra mim. Ou é adolescente, ou é criança, né?).


Enfim...

Eu achava que não aconteceria nada de inusitado nesse 11 de abril, que se eu quisesse postar teria que falar das pessoinhas bonitinhas que fizeram prova hoje, mas num é que  o destino me ofereceu um assunto pro blog. Porque blog tem que ter coisas inusitadas,né? Todos esses milhões de blogs deliciosos que leio têm seus momentos " minha - vida- daria- um- filme" . Fico com inevja, viu?

Mas o meu dia chegou. O inusitado bateu na minha porta. Saca só: tava eu sentada no Mc Donalds da Central do Brasil ( Sim, aquela mesma Central do filme da Fernanda Montenegro), comendo um Big Mac , ( peço perdão às minhas artérias, mas é que eu gosto de picles e daquele suco de uva de lá), quando de repente ( não mais do que de repente)  um sujeito se levanta da cadeira dele e senta na minha frente. Sim, a pessoa saiu da mesa dela e veio sentar na minha, sem convites, sem sorrisos, sem flertes . Simplesmente o cara sentou na minha frente e disse: " Seu nome é Juliana,né?".

Vejam bem:  se você pergunta pra uma mulher na faixa dos 20 anos se o nome dela é Juliana, garanto que sua chance de acertar gira em torno de uns 20%. Acredite,há Julianas por toda parte. Aposto que você conhece pelo menos três. Mas enfim...

Eu olhei pro moço sabe deus com que cara e sacudi a cabeça. Daí que ele deu um tapa na mesa e disse: " Pô, eu sabia! Reconheci a tua voz!". Ah, esqueci de dizer que momentos antes, eu tava no celular, resolvendo  um pepininho nosso de cada dia com a Oi. e ,pelo jeito, estava falando muito baixinho.  Bem, o moço continuou: " Tu num lembra de mim,né? Mas eu lembro de você" e começou a fazer um resumo da minha vida. Ele sabia o meu sobrenome, a escola em que estudei,  sabia que meu pai foi taxista. E eu lá olhando praquela cara absolutamente desconhecida, já pensando  no momento em que deveria sair correndo. Por fim, o meu amigo desconhecido decidiu revelar que não era um espião da CIA e sim um moleque que estudou comigo em 1993. DEZOITO ANOS ATRÁS. Em abril de 1993, eu tinha 8 anos de idade, minha gente! E esse cara doido que senta na mesa dos outros sem  ser convidado se lembra  do apelidinho infame que eu tinha e que eu era cdf. 

Ah,  e eu lembrava dele? Claro que ... NÃO!

Depois que ele saiu correndo Mc Donalds afora ( o horário de almoço dele já tinha acabado), foi que a imagem de um garoto chato, muito chato veio na minha cabeça. Lembro que ele tinha um estojo de metal e  era chato. Só.

Agora vou te contar,hein? Foi golpe baixo dele dizer que me reconheceu pela voz. Não é possível que eu ainda fale como uma pirralha de 9 anos que usava maria-chiquinha. Nãooooo é possível! =p




P.S.:  Eu sei que comecei o post prometendo relatar  detalhes da manifestação do INUSITADO em minha vida. Desculpem, mas é que a minha vidinha é assim normalzinha mesmo!


P.S. 2: Se alguém aí se interessa pelo meu cahorrinho, ele anda dopado de tanto remédio, mas segue firme na sua batalha contra uma das doenças que os carrapatos transmitem. Aliás, se tu tiver um cachorrinho  e ele começar a recusar ração e ficar com a parte debaixo da pata endurecida, vai logo no veterinário. Não acredite se te disserem que é normal cachorro não querer comer.  Não é normal, e há muito veterinário picareta por aí.


domingo, 10 de abril de 2011

Da cor do mar...

 Queria tanto ter ido  a  um show do Tim. Imagina ouvir uma lindeza  dessa ao vivo:




Se bem que o Tim foi precursor da Amy Winehouse,né? Mas ainda assim:

" Adoro estudar, sou um cara estudioso... Estudo sempre, sou um estudioso! Eu consigo ler duaxxx páginas por semana."

"Hoje resolvi mudar / Juro não ser mais um bobão" 

Muito amor, Tim!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tristeza

A violência tá em todo canto, inclusive dentro da escola. Fato. Não tô falando nenhuma novidade, mas só fui me dar conta disso na primeira turma de sexto ano em que trabalhei. As crianças eram legais, mas uma série de fatores favoreciam vários e vários problemas de aprendizado e disciplina que quase me fizeram pedir pra sair.

Numa manhã qualquer de 2009, um garoto fez uma bolona de papel e tacou nas costas de um colega. O menino atingido  levantou, pegou a cadeira e avançou pra cima do outro. Dei um berro que surtiu efeito. A cadeira foi largada no chão, e eu fiquei paralisada, sem saber o que dizer. Uma das meninas virou pra mim e disse: " É, professora, bem- vinda ao mundo real". Pois é, uma menina de 12 anos sabia mais do mundo real do que eu. 

Hoje em dia, trabalho numa escola infinitamente mais tranquila e mais organizada. As cadeiras nunca foram erguidas por ninguém, os problemas são resolvidos na medida do possível com  o total envolvimento dos pais, mas a violência também está lá. E de certa forma, eu e os outros personagens desse universo  se não sabemos o que fazer diante dela, pelo menos, aprendemos a prever e  evitar   situações de risco.  Temos uma ideia do que esperar dentro de uma sala de aula e nos arredores da escola. E até cadeiras voadoras, por mais assustadoras e chocantes que sejam, não surpreendem muito, são de algum modo coerentes com o espaço escolar. Choca,mas não pega de surpresa.

Agora, um rapaz entrar na sua antiga escola - um espaço que evoca lembranças e afetos -, colocar crianças contra a parede e atirar em suas cabeças e peitos  é... cara, é... não é ,sabe! Numa manhã de quinta-feira, num escola do Rio de Janeiro, a última coisa que alunos e professores esperam é serem vítimas de execução. Tiros podem até não ser novidade, dependendo da localização da escola. Há escolas , em determinados pontos do Rio de Janeiro,em que professores e alunos deitam no chão, enquanto o tiroteio acontece na esquina. Mas o que aconteceu hoje lá naquela escola em Realengo é algo para o qual não estamos preparados.

Ao ver a notícia na tevê, só vinha na minha cabeça  os meus alunos  que têm a mesma idade das meninas e dos meninos atingidos. Dá um nó no peito só de imaginar o horror que essas crianças  viveram e presenciaram. E a professora? O que se faz quando as crianças por quem você é responsável são assassinadas na tua frente? Não dá pra ter noção, não dá pra mensurar o que essas pessoas viveram.

Não sei bem o que pensar diante de tudo isso.

Muita tristeza, muito pesar.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Spock tá muito doente, vocês sabem! Mas eu não quero falar disso, pelo menos não diretamente,porque repetir o que o veterinário disse dói e cansa. Estou dividida entre uma tristeza enorme e o espanto por estar me sentindo tão mal por causa de um cachorrinho que vive comigo há exatos 4 meses. Como meio de dar um jeito nessa tristeza, fico repetindo que filhotinhos morrem, que cachorrinhos são frágeis, que tudo e todos morrem , blá, blá. Nem preciso dizer que esse meu mantra é o mais furado do mundo. Ontem eu chorei até não ter mais lágrima. Assim, as lágrimas acabaram. Eu não tinha mais força pra chorar,então simplesmente parei, e foi bom.

Chorando, me dei conta de que o estado do Spock  evoca outras verdades que nunca precisei encarar, dentre elas, o fato de que pessoas e animais adoecem e vão morrendo aos poucos. Cachorro, dependendo do estado e da coragem das pessoas que cuidam dele, pode ser sacrificado se for o caso, mas a lei não permite que o sofrimento das pessoas muito doentes seja aliviado. Olhando pro Spock só me vem na cabeça: " Se fosse uma criança, se fosse uma pessoa querida...". Toda vez que chego perto do meu cachorro, meu coração afunda. Não sei o que faria se precisasse conviver e cuidar de uma pessoa que também estivesse definhando, morrendo.

Eu tenho muita sorte. A vida me poupou até hoje de enterros, de perdas significativas. A morte que mais poderia me afetar aconteceu quando eu era pequena. Uma das minhas primas morreu bebê com cirrose hepática. Me lembro de que minha tia viveu por um ano e meio praticamente no hospital e meu tio adoeceu assim que a menina morreu. Morro de admiração por eles porque eu não teria equílibrio pra presenciar o sofrimento de uma filha tão pequena. E o pior de tudo: fazer o possível e  o impossível e, ainda assim, não conseguir salvar a pessoa.

Tenho também a sorte de conseguir chorar. Por mais difícil que seja, por mais que eu tenha esse orgulho besta de parecer durona, eu choro. Pode demorar, mas as lágrimas me vencem. Agonia me dá ao ver minha vó. Tadinha. Minha vó não chora, não consegue. O estômago dói violentamente, as pálpebras não param quietas, mas nada de chorar. E só ontem, conversando com ela, me dei conta de que o Spock tem um significado diferente na rotina dela. Quando ele veio morar aqui, minha vó andava muito triste, deprimida. Acho que depois que ficou internada tomou mais consciência da sua própria vulnerabilidade, da gravidade das doenças que tem, da sua velhice. Aceitar que o tempo passou, que não  tem mais tanta força e disposição deve ser muito difícil pra alguém que teve de ralar muito pra manter a  própria vida e a vida dos filhos. 

Eu estava viajando quando Spock chegou e fiquei surpresa ao ver os mimos que ele andava recebendo. Minha vó tem aquele discurso  de que cachorro , não interessa raça e tamanho, tem que ficar no quintal e comer ração e ponto. Spock , no entanto,ganhou uma caixinha no banheiro, um tapetinho debaixo do seu armário favorito e torradas com requeijão no café da manhã. Durante esses meses, ela diz que o cachorro é da minha mãe, mas quem dá comida pra ele, quem faz comida cheirosa e toda especial pra ele, quem liga a televisão só pra que ele não se  sinta sozinho, quem forrou almofadinha pra ele dormir, quem abre o portão fazendo barulho só pra ele venha correndo é ela. Spock tem sido companhia pra minha vó e , sobretudo, representa a sensação de que alguém de fato depende dela.Vê-lo tão fraco e debilitado esmigalha o meu coração, mas sobretudo traz a solidão pra mais perto da minha vó.

Daí que meu coração, agora, tá duplamente esmigalhado.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Que tal?

Dá raiva, né? Dá vontade esganar. Eu sempre sinto vontade esganar as pessoas que me irritam. Como não posso sair por aí arrancando a cabeça das pessoas, me abstenho. Dizem que nem preciso falar nada porque a minha cara já diz " eu perguntei a sua opinião?".

Adoro gente especialista em dar palpite. Tudo sabe, tudo acerta, tudo viu , tudo prevê. Adoro.Sou fã número. Admiro ainda mais gente que vira e diz " Se fosse comigo, eu  faria...". Um dia , ainda perco esse medo de deixar  a antipatia escorrer do olhos pra língua e digo " Se fosse com você, eu acho que seria bem melhor que você mordesse a língua e morresse envenenado . Que tal? Boa alternativa?"

Ainda digo.

Ganho desafetos, mas evito rugas e não me engasgo com  os sapos. Que tal?

domingo, 3 de abril de 2011

O primeiro cachorro que veio morar aqui em casa foi o Fred, Duncinha pros íntimos. Ele era um doberman pretão e lindo. Eu tinha uns onze anos quando o Duncinha decidiu que dormir embaixo da cama da minha vó era muito bom. Nas noites em que ele chorava, eu o colocava no meu colo e cantava músicas de ninar o soninho dele. Depois que ele ficou parecido com aqueles cães brabos de filme, passei a arranjar um série de apelidos pra suavizar aquela cara de mau. Fred era Duncinha, Duncineldo, Fredulino, Duncilindo, Duncinhazinho.

Fred morreu em  janeiro de 2004, e eu chorei por uma semana. Durante muito tempo, a casa dele ficou lá intacta porque ninguém teve coragem de mandar derrubar.


***

Spockinho, Spocknildo, Lambisco ( isso é coisa da minha vó!), "cachorro mais gatinho desse mundo"( isso é coisa minha, claro!), Spock Movie Maker ( não me peçam explicação! Esse apelido é coisa da minha prima) entrou pra família há 4 meses. E eu já gosto muito dele. É difícil não gostar do Spock porque ele tem uma barba engraçada e morde o pé de todo mundo. 

Engraçado isso de a gente gostar tanto de um bichinho ao ponto de tremer da cabeça aos pés enquanto presencia um de seus maus momentos.  Engraçado gostar tanto de ser que não fala, só come, rasga papel, briga com chinelos, corre atrás da própria sombra. Engraçado demais.

Hoje o meu cachorro mais gatinho não vai dormir no cobertorzinho quentinho dele. Meu cachorrinho mais gatinho pegou uma daquelas doenças que matam animais domésticos. Pro bem dele, tive de deixá-lo internado. 

Tô me sentindo como se tivessem pisado por 5 minutos no dedão do meu pé.

sábado, 2 de abril de 2011

Coisas difíceis

Agora que a temperatura do meu corpo retornou aos saudáveis 36,5°, voltei a frequentar a cozinha de casa. Fiz um macarrão delicinha na panela de pressão. Pensei até em colocar a receita aqui, mas desisti porque, afinal, fazer macarrão na panela de pressão é mais fácil que cozinhar miojo  e também porque esbarrei num meme legal.

Com  o espírito de espoliadora que estou e mais o meu fraco por memes, sucumbi:

Ah, surrupiei da Cheshire, que surrupiou da Bruna.


Coisas difíceis
1-Acordar antes das 8h.
2- Assistir a Grey´s anatomy sem chorar.
3- Saber onde guardei o celular.
4- Comer cachorro-quente sem fazer lambança.
5- Lembrar do nome das pessoas.
6-Dormir sem edredon.
7- Comer só um trakininhas de morango.

Coisas mais difíceis
8- Dormir de luz acesa.
9- Achar o riocard na hora de passar na roleta do ônibus.
10- Esperar o esmalte secar.
11- Sair de um sebo de mãos vazias.
12- Controlar o cartão de crédito.
13- Entender o que é um cheque cruzado.
14-Saber em que dia da semana estamos.


Coisas dificílimas
15- Adorar perfumes e não poder usar.
16- Tirar areia do maiô.
17- Gostar de Machado de Assis.
18- Sair sorridente daqueles brinquedos de parque de diversão que te deixam encharcada.
19- Ser feliz depois de passar 30min dentro de um trem no Rio de Janeiro.
20- Ficar sem beber água.
21-Não esquecer minhas chaves em qualquer lugar que eu for.
22- Ficar quieta durante muito tempo.
23- Gente que fala cutucando.
24-Assistir a Big Bang Theory ( ops, peraê, que vou ali pegar um escudo pra me proteger das pedradas!)

Se der mole, eu surrupio " mermo"!

Na base do furto,  peguei da Luciana:


"Eu Só Queria Dizer

Em círculos, eu escrevo em círculos. São os mesmos desejos, as mesmas figuras, as mesmas  palavras. O mesmo ponto final, sempre desejando ser vírgula, intervalo, suspiro antes que, de novo, seja este um corpo feito letras que te desejam. Em círculos, escrevo em círculos, eu não vou a lugar algum, todos os lugares são sempre o mesmo, aquela estação onde seguro um coração em forma de mala e anseio por mãos, cheiros e sabores que sempre adivinhei. Em círculos, eu escrevo em círculos como palavras fossem braços e eu pudesse - em ditos - abraçar-te, trazer teu corpo pro meu. Tento fazer, de círculos, estrada. Ou redemoinho, que te alcance e te arrebate. Eu só queria dizer: vem"


Ah, claro, não devolvo, Lu! Não devolvo!

***

Agora vou ali aproveitar o solzinho que vem chegando manso, pra ver se essa gripe braba e essa febre mala sem alça vão embora de vez.







sexta-feira, 1 de abril de 2011

26

Se tudo tivesse acontecido como o  médico planejou, eu teria nascido  lá pelos fins de julho. Se eu quisesse ficar mais um tempinho na barriga da minha mãe, talvez fosse leonina. Dizem que os leoninos são mais felizes que os cancerianos...

Mas eu vim ao mundo na tarde de um dia  26 de junho e tô muito satisfeita. Afinal, posso fazer coro com o meu queridão Gilberto Gil:

Como todos vocês
Eu faço tudo igual todo dia vinte e seis
Como todos vocês
Eu passo bem ou mal todo dia vinte seis
É que só no meu caso especial
Por acaso, aqui, pra mais dois ou três
Vinte e seis virou dia de natal
E nesse caso junho foi o mês
Hoje, portanto, já que eu viajei
Esse tanto pra vir me apresentar
Entre tantas canções que eu vou cantar
Eu vou cantar parabéns pra vocês
(refrão)
Outros membros do clã do vinte e seis
Em setembro, eu me lembro, tem a Gal
Em outubro, o Bituca tem a vez
E o meu neto João comigo igual
Neste meu vinte e seis, não leve a mal
Já que é logo depois do São João
Diferente do parabéns normal
Eu vou cantar um parabéns baião"