quinta-feira, 28 de abril de 2011

Apesar de

Hoje ouvi o relato que mais me interessava a respeito do meu primo. A irmã dele de 16 anos foi ao hospital e depois me disse: " Eu não sei explicar a dor que senti. É horrível. É como se ele estivesse morto. Ele abriu os olhos quando eu falei o nome dele, mas não olhou pra mim. Ele tava olhando pra nada, com o olho arregalado. É como se todo mundo lá estivesse morto. Mas eu acho que ele vai viver."

E é isso mesmo! É preciso ter consciência da situação,  é preciso dizer que sim, ele  tá muito mal, mas ainda assim ter esperança. Porque negação não cura não opera milagres. 

É isso mesmo, prima!  As coisas estão bem ruins,mas a gente vai seguindo com esperança. 

É assim que acho que tem de ser: arregalar muito os olhos pra dores, pro cansaço, pra crises, pras ofensas, pros nossos defeitos, pra dores do mundo, pra chatice do mundo, pra merdalhada toda, mas ainda, apesar de, carregar consigo um montão  de esperança. Sempre, sempre, sempre apesar de.

Cresci dentro de uma estrutura social e familiar que me ensinou que só as coisas boas podem ser ditas, podem ser reveladas. Se dói, se choca, a gente guarda pra si. Não sabe onde guardar? Faz de conta que não sentiu e  segue adiante.Bem, não dá muito certo. Comigo, não deu. Daí la fui desaprender a ser uma silenciadora de coisas ruins. Tenho que  fazer lição e  praticar todos os dias. É um saco ter de aprender depois de velha.

Hoje me deu tanto orgulho da minha prima. Ela foi a primeira a  dizer com toda as letras : " PARECE MORTO" e ,ainda assim, tem muita esperança.

Que orgulho, que fofa, que esperta!

***

"Como é estar viva? 
Debora – Eu preciso dessa sensação boa, sabe, de encontrar os humanos por aí. Mesmo com tanta falta de humanidade nesses espaços para onde vou. Mas humano é isso tudo: essa crueldade, mas também essa riqueza; essa maldade, mas também esse acolhimento do outro. Quando você não tem nada, mas você ainda tem espaço para acolher alguém dentro de você, é interessante, bem interessante. E aí você se dá conta de que o material não é nada. Nada. Tipo... um terremoto pode terminar com tudo isso daqui. E aí quando as pessoas dizem (ela imita a voz): “Mas como, você acabou de comprar seu apartamento e já vai abandonar?”. Eu comprei um apartamento, não comprei uma algema para botar no meu pé. Um apartamento é um lugar para onde você pode voltar quando quiser, ele não vai fugir. Um dia ele pode desaparecer num terremoto, num maremoto, qualquer coisa pode destruir ele. E se esta for a razão para eu viver, talvez eu nunca consiga me recuperar da tragédia dessa perda. Mas acho que, quando o ser humano quer uma razão para viver, ele encontra. Seja uma pedra... talvez uma pedra dê razão para você viver. Você diz: essa pedra aqui é mágica, você vai encontrar a sua sorte com ela. Pegue nessa pedra e atravesse esse rio. Ok. Talvez essa pedra seja uma razão para viver. "

A Luciana postou no facebook e eu fui lá no site da Época ler.

Um comentário:

Borboletas nos Olhos disse...

Seu post é tão absurdamente desvelador..estonteante.