terça-feira, 26 de abril de 2011

Depende

Felipe  ( ai, tô com uma preguiça de pegar o link do blog em que ele faz resenhas maneiras sobre livros não tão maneiros. =p) deixou o seguinte comentário no post anterior:

 As vezes eu acho, lendo seus posts, que o que você mais quer é trocar de emprego e se livrar dessas crianças, mas depois eu penso que você gosta de tudo isso. Você me deixa confuso rs


Acabei de chegar da escola e quis responder ao comentário do Felipe no calor das emoções desse momento. Porque neste momento eu tô cansada. Tenho a sensação de que meu cérebro foi triturado, moído e liquidificado. Se o Felipe tivesse feito o comentário lá pelo meio-dia, eu estaria aqui às gargalhadas , dizendo que adoro minhas crianças do sexto ano, apesar de ter de lidar com um menino que tira todo mundo sério e parece uma esfinge de tão difícil de entender. Eu diria que o pessoal do sexto ano me enlouquece, me cansa, me irrita, mas me divirto tanto com els que até me esqueço de não querer voltar a dar aula pra eles nunca mais. Hoje, por exemplo, uma das meninas, a C., disse que não me respeitava. Aí eu perguntei por que ela tava dizendo aquilo. Ó, a resposta literal: " Professora, eu não te respeito porque eu chamo a senhora  de egoísta quando a senhora não me deixa colocar o estojo e o fichário em cima da sua mesa" . Pensei em dizer que meu conceito de respeito é um tantinho diferente do dela, mas me limitei a sorrir e balançar a cabeça. C. tem uma personalidade ferina, uma incapacidade de falar em um tom normal ( desconfio de que ela precise berrar muito em casa pra ser ouvida), não sossega quieta, sabe de tudo, responde tudo, questiona tudo e acha que não é justo que a mesa da professora seja maior que a dos alunos. Eu admiro a C. Queria ter sido uma menina de 11 anos igualzinha a ela.

Bem, voltando ao comentário do  Felipe. Só agora, às 10 da noite, li o que o Felipe disse, então minha resposta já é outra. Neste momento, eu me pergunto pra que  escolhi dar aula. Explicar a diferença entre uma subordinada condicional e uma subordinada temporal não é divertido. Tá certo que eu não dou aqueles exemplos bestas. Faço análise de textos de jornais, de declarações de artistas, de posts de blog,  de anúncios de jornal, de contratos de venda de imóvel. Mas aí os alunos acham que eu não tô dando aula, que não sabem responder nada, que não têm ideia do que eu tô falando.

Pra facilitar as coisas, ajudar na nota, passo um trabalho: escolher um livro QUALQUER (valia até livro da Bíblia. Aliás, um dos alunos fez um trabalho muito legal sobre o livro de Daniel.) e responder umas perguntas sobre o livro que leu.  Ou seja, dizer o que gostou e  o que não gostou, opinar, brincar de resenhar. E não é que  teve gente que baixou resumo da internet, gente que fingiu que leu, gente que não fez? Mas o pior de tudo foi um aluno aparecer com um trabalho escrito com uma letra que eu sei que não é a dele e dizer pra um colega  que mandou a namorada fazer o trabalho por ele. Não sei o que mais me deixou indignada: se foi o fato de ele falar do trabalho como se eu não estivesse ali perto, ouvindo o que ele tava dizendo, ou se foi o tom que ele usou pra dizer que MANDOU a namorada fazer. A pessoa ainda achou que estava sendo muito honesto ao dizer pra mim que não tinha feito o trabalho, quando  me fiz de boba e  perguntei o que tinha acontecido com letra dele.
Cara, eu não me importo muito com  o fato de ele ter feito ou não. Dane-se o trabalho. Dane-se o livro que ele não leu. O que me cansa, me dá vontade de sacudir os ombros de um moleque desses é saber que a atitude dele representa a mentalidade de várias outras pessoas. Gente que acha que  não é preciso ter trabalho com nada, que tudo vem fácil feito a mesada do pai, que namoradas existem pra servir às suas necessidades.

Felipe, resumindo: todo dia eu tenho vontade de largar isso tudo. Todo dia  eu tenho vontade de ficar mais cinco minutinhos na sala de aula. Depende do dia, depende da hora do dia, depende.


P.S.: Vou usar a desculpa de que estou escrevendo no "calor do momento", pra justificar qualquer sandice que eu tenha dito e todo crime cometido contra a dupla Coesão e Coerência nesse post. =p  

7 comentários:

Monalisa disse...

Ju, como boa sanguínea eu te entendo perfeitamente, hahhahaha
Outro dia lendo seus posts (sim, eu leio tudo, mesmo que eu não comente, sorry), eu me perguntei como é a formação dessas crianças?
Seu post de hoje me esclareceu um pouco.
Minha madrinha que agora está morando em Queimados está abismada com a escola do RJ, minha prima sempre estudou em escola municipal de SP e está sentindo uma diferença enorme com a escola estadual do RJ. As diferenças colocadas por ela está no atraso das matérias, tudo o que os professores ensinam, ela já aprendeu e na falta de vontade dos professores. Ela contou que os professores faltam, chegam atrasados, que desde do início do ano ela não teve uma aula de geografia sequer, porque o professor não aparece nas aulas. Isso tudo parece piada de mau gosto, uma coisa irreal, professor receber e não trabalhar.
Mas olhando pelo lado do professor acabamos entendendo pq isso acontece, os professores hoje não tem o apoio dos pais como tinham antigamente. Eu tenho uma vizinha que a filha começou o ensino fundamental ano passado e a menina não aprendia as coisas, ela culpava a professora, era a professora que não sabia ensinar, não a menina que tinha problemas em aprender. Trocou de escola (de particular para outra particular) e o problema persiste, é claro que o problema é com a meninas, ou melhor com a mãe dela que não busca ajuda para ela. A professora é só uma vítima.
O círculo vicioso de pais e professores acabam por prejudicar as crianças e pré-adolescentes, porque eles absorvem tudo o que é dito, mas não acho certo jogar a culpa nos professores, porque educação vem de berço, na escola você não vai ensinar os alunos a dizerem com licença, por favor e obrigado. Mas essa geração de pais depreparados querem isso.
Minha prima que é professora teve bebê a pouco tempo, e já me disse que na escola que ela dá aula a noite, ela pode faltar quando quiser que as faltas são abonadas. Ela vai continuar recebendo mesmo que não dê as aulas. Eu achei um absurdo isso, mas voltamos ao círculo vicioso, ela precisa do dinheiro e ninguém está nem aí se as aulas estão sendo dadas e se os alunos estão aprendendo alguma coisa, nem os próprios alunos, os que deveriam estar mais interessados.
A educação por aqui está difícil, muito difícil. Para professores e para alunos. Essa geração de "copio tudo da internet" ou "mando minha namorada fazer" é a geração que vai mover o país daqui a alguns anos e como mãe eu tenho medo dela.
Beijos

Palavras Vagabundas disse...

JU,
você adora tudo isso! Seus alunos não sabem, mas você é uma excelente professora sempre preocupada com a cabecinha deles!
bjs
Jussara

Maeve Rêgo disse...

ai, tou em casa.

Juliana disse...

Ju, adoro mesmo, mas " desadoro" tb!=p

Maeve, oi! Tá em casa,né? kkk Tu sabe como é isso!

Cheshire cat disse...

Uma vez passei uma lista de exercícios para uma turma de ensino médio. A menina me entregou um folha xerocada de uma outra manuscrita. Reconheci a folha de algum lugar e fui procurar. Ela simplesmente fez uma cópia da tarefa de outra aluna e colocou uma tirinha de papel com o nome dela por cima.
Não fiquei indignada pela cara de pau ou pela preguiça da menina. Fiquei indignada por ela ter realmente achado que eu seria tão imbecil de não ver que era a mesma tarefa.

Fabiane Ariello disse...

Quando eu trabalhava numa revista de educação, vivia argumentando que o único jeito de fazer as crianças gostarem de ler era parar de obrigá-las a ler o que não queriam, mas sempre pensava: "que tipo de professora vai ter tempo para avaliar tantos trabalhos diferentes?". Eis que leio seu post e - uau - existem mesmo professoras dispostas a isso. Parabéns, Ju, você restaurou um pouco da minha fé na educação :)

Felipe Fagundes disse...

Uhull Meus 15 minutos de fama!

Acho que te entendo melhor agora. Deve ser a mesma relação que eu tenho com a Informática, uma relação de amor e ódio, mais amor do que ódio. As vezes me dá vontade de largar tudo, montar uma banda e viajar pelo Brasil kkkkk