segunda-feira, 18 de abril de 2011

Hoje eu queria as palavras bonitas, somente as mais bonitas.  Doçura, chocolate, leveza, magia, melancolia, sussurrando. Queria saber juntar palavras bonitas e brincar de fazer versos. Queria versos bonitos.Mas me faltam versos, palavras, letras, sons, o que seja. Tenho só o silêncio; nem o silêncio, a bem da verdade. Tenho só o nó no peito. 

Meu peito tá todo embolado feito um novelo de lã que vira bolinha de gato. O sol tem estado quente, as tardes são as mais lindas que um outono pode oferecer, minha cabeça se concentra nos livros de lendas persas e egípcias que preciso ler, mas tem esse meu peito bagunçado que me atrapalha.

De tempos em tempos, acho que esqueci, mas aí meu peito me  lembra, e , de repente, o céu e o sol parecem brilhar num tom  mais frio, como um réquiem, como que pra não me deixar esquecer que a morte vaga mansinha e ronda. 

Minha vó diz que sou macabra e fatalista. Um pouquinho, talvez. No entanto, é fato que a morte tá aqui perto tanto quanto a vida, agora mesmo no cantinho da cozinha onde Spock respira o mais lentamente possível, lá no hospital onde meu primo dorme em seu coma. A morte está lá , aqui e em toda parte, o tempo todo, mas a gente esquece. E  é  por isso que quando ela chega um tantinho mais perto, a gente faz dela um monstro. Só que ela é que nem o mar, o céu, a vida, o DNA, existe desde sempre. Ela faz corações pararem desde sempre, mas a gente prefere fingir que  é uma aberração, só porque não gostamos dela.

E eu só queria as  palavras bonitas que enxotassem meu medo da morte. Sempre acho que palavras bonitas têm superpoderes, mas suponho que  não adianta ficar  procurando poemas do Drummond.Ele sempre me salva, me entende, diz tão lindamente o que eu sinto, mas até o Drummond não foi bem -sucedido hoje. A poesia também não é melhor que a morte. Nada é.