quinta-feira, 14 de abril de 2011

Sou passional e impulsiva. Às vezes, me esqueço disso.

Ontem escrevi por duas vezes aqui, bem em meio a um turbilhão de emoções com as quais não sei lidar. Daí , assim que apertei o botão pra publicar a postagem , me arrependi. Voltei  e deletei o post. Respirei, respirei e fui tentar cuidar da vida. Mais tarde, me dei conta do por quê  me senti tão incomodada com o que escrevi e por que senti tanta necessidade de desabafar aqui especificamente.

Já falei umas trezentas vezes sobre as crises que tenho com esse blog. O Fina Flor é pessoal demais. Ainda que eu não conte tim- tim por tim- tim da minha vida, muito do que eu sou e , principalmente, do que sinto está aqui , ao longo desses posts. E eu sempre me pergunto por que acabei escolhendo esse viés tão pessoal prum espaço tão público. Acho que descobri a resposta ontem.

Essa semana tem sido uma das mais difíceis que já vivi. Sem dramas. Meu cachorro tá pertinho de morrer e não tem sido fácil pra mim lidar com isso, por diversos motivos. De qualquer modo, independente das minhas crises existenciais, cuidar de um cachorro muito doente, com convulsões e  limitações físicas, é doloroso , cansativo e triste. Ele sofre, e nós sofremos junto.

Além disso, numa sacada meio mórbida do destino, meu primo sofreu um acidente de moto e tá em coma no hospital. Há quinze dias, falei aqui do meu aluno que fraturou o crânio e esteve em coma. Não imaginava que falaria de coma novamente, especialmente envolvendo alguém tão próximo. Talvez quem tenha me visto nesses últimos dias, não possa adivinhar o quanto estou confusa , triste e apavorada. Talvez quem me conhece e sabe do tipo de relacionamento que tenho com o meu primo, não leve muita fé na minha comoção. E eu me dei conta de que estou muito preocupada com os outros. Sou sempre preocupada em guardar o que sinto de verdade pra mim. Meu medo de julgamentos é maior que o meu bom senso e o pouco de maturidade que tenho. Eu finjo que não estou chocada, triste, apavorada , visto uma máscara de passividade e silêncio para evitar que meus sentimentos sejam invalidados, para que não duvidem de sua legitimidade.

Quando eu soube da gravidade do acidente, senti tanta, mas tanta raiva do meu primo. Ele estava sem capacete e isso tornou tudo pior. Mas , pra quem  o conhece, a ausência de capacete não é novidade. Eu achar que ele é um idiota completo também não é. Só que  não dá pra externar raiva num momento desses. Não se deseja querer arrancar um dente de alguém que tá com a cara toda amassada e com um tubo enfiado na garganta.

Depois que a raiva passou, veio uma tristeza enorme. Muito enorme. Uma tristeza que eu não conhecia. Sabe o que é você se dar conta de que  a morte existe, que um dia vai chegar pra quem sempre existiu na sua vida, quer você queira ou não. Eu já havia sentido algo parecido antes, quando uma das pessoas que mais amo nesse mundo, cuja a existência é tão fundamental  ao ponto de eu não me lembrar bem de como era vida antes de ela  estar por perto, precisou operar a cabeça. Até então, cabeças só eram operadas em filmes. Agora, parece ainda pior: meu primo , que tantas vezes bancou o inconsequente sem sofrer nenhuma consequência, está em coma. E toda vez que penso nele, a imagem dele deitado lá no hospital se forma na minha cabeça. Não o vi ainda e provavelmente não o verei no CTI, mas meu coração aperta um pouco só de imaginá-lo naquela condição esquisita em que o coma deixa as pessoas. Imagino a dor  e o susto que ele sentiu ao cair.

Eu escrevo no Fina Flor porque  aqui posso falar sem medo. Aqui não preciso de mascaras, posso criptografar minha linguagem sem que exijam coerência, posso morrer de medo de que alguém com quem mal falo morra. Aqui não preciso explicar que eu não quero que meu primo morra, apesar de eu  não  saber lidar com ele e por isso me manter afastada. Aqui não preciso explicar que não quero que o Spock morra, apesar de saber que ele vai morrer.

Escrever me mantém um pouquinho sã. Eu poderia escrever somente no blog fechado que mantenho com meus amigos mais chegados, mas tem horas em que eu quero escrever aqui. Porque às vezes a gente quer falar ,mas não quer falar sozinha. Tem sempre alguém que lê, comenta, se identifica, pensa no que você diz, sem necessariamente ser cruel ou mórbido ou ofensivo ou insensível. Acho até que eu me estresso menos com o fato de que desconhecidos leiam. Fico sempre com um pé atrás ao postar aqui porque ,aos poucos, vão aparecendo os conhecidos . Não sei o porquê dessa precaução toda, mas também , agora, nesse momento nem quero saber. Desconfio, há muito tempo, de que controlar é meu verbo favorito. E tem meio melhor de achar que tá controlando um pouquinho a  própria vida do que escrever um  blog diarinho? No fundo, eu devo ter medo de que aqueles que não me conhecem descubram que de fina flor eu não tenho nadica de nada.

Mas hoje vou ligar o botão do " foda-se" ( sou uma moça pudica que não fala palavrão quase nunca, mas adoro ser usária desse botãozinho) e  não pensar em mais nada.

P.S.: Também tem horas em que tudo o que você não quer ouvir é " não, não fica assim!" ou " agora é só esperar". Esperar é  um inferno.

P.S.: Num é que esse trem de escrever é bom mesmo! =p Até a dor de cabeça deu uma aliviada.

3 comentários:

Borboletas nos Olhos disse...

Escrever é bom.Te ler é bom. Eu cada dia me faço essas perguntas aí. E cada dia encontro respostas diferentes. Vou ficar com a sua por enquanto. Bjs

PS. Não preciso dizer do meu sentir aí pertinho de você, né?

Luciana Matos disse...

Muita força pra ti lindinha, tô aqui torcendo muito por você.

Beijo.

Aline M. Gomes disse...

Oi Flor, li seu post pelo Reader e não pude comentar imediatamente.

Como não importa o que eu diga, feche os olhos e imagine que estou te dando um abraço bem apertado, pode chorar se quiser. Eu não preciso dizer nada, apenas te abraçar.