quarta-feira, 6 de abril de 2011

Spock tá muito doente, vocês sabem! Mas eu não quero falar disso, pelo menos não diretamente,porque repetir o que o veterinário disse dói e cansa. Estou dividida entre uma tristeza enorme e o espanto por estar me sentindo tão mal por causa de um cachorrinho que vive comigo há exatos 4 meses. Como meio de dar um jeito nessa tristeza, fico repetindo que filhotinhos morrem, que cachorrinhos são frágeis, que tudo e todos morrem , blá, blá. Nem preciso dizer que esse meu mantra é o mais furado do mundo. Ontem eu chorei até não ter mais lágrima. Assim, as lágrimas acabaram. Eu não tinha mais força pra chorar,então simplesmente parei, e foi bom.

Chorando, me dei conta de que o estado do Spock  evoca outras verdades que nunca precisei encarar, dentre elas, o fato de que pessoas e animais adoecem e vão morrendo aos poucos. Cachorro, dependendo do estado e da coragem das pessoas que cuidam dele, pode ser sacrificado se for o caso, mas a lei não permite que o sofrimento das pessoas muito doentes seja aliviado. Olhando pro Spock só me vem na cabeça: " Se fosse uma criança, se fosse uma pessoa querida...". Toda vez que chego perto do meu cachorro, meu coração afunda. Não sei o que faria se precisasse conviver e cuidar de uma pessoa que também estivesse definhando, morrendo.

Eu tenho muita sorte. A vida me poupou até hoje de enterros, de perdas significativas. A morte que mais poderia me afetar aconteceu quando eu era pequena. Uma das minhas primas morreu bebê com cirrose hepática. Me lembro de que minha tia viveu por um ano e meio praticamente no hospital e meu tio adoeceu assim que a menina morreu. Morro de admiração por eles porque eu não teria equílibrio pra presenciar o sofrimento de uma filha tão pequena. E o pior de tudo: fazer o possível e  o impossível e, ainda assim, não conseguir salvar a pessoa.

Tenho também a sorte de conseguir chorar. Por mais difícil que seja, por mais que eu tenha esse orgulho besta de parecer durona, eu choro. Pode demorar, mas as lágrimas me vencem. Agonia me dá ao ver minha vó. Tadinha. Minha vó não chora, não consegue. O estômago dói violentamente, as pálpebras não param quietas, mas nada de chorar. E só ontem, conversando com ela, me dei conta de que o Spock tem um significado diferente na rotina dela. Quando ele veio morar aqui, minha vó andava muito triste, deprimida. Acho que depois que ficou internada tomou mais consciência da sua própria vulnerabilidade, da gravidade das doenças que tem, da sua velhice. Aceitar que o tempo passou, que não  tem mais tanta força e disposição deve ser muito difícil pra alguém que teve de ralar muito pra manter a  própria vida e a vida dos filhos. 

Eu estava viajando quando Spock chegou e fiquei surpresa ao ver os mimos que ele andava recebendo. Minha vó tem aquele discurso  de que cachorro , não interessa raça e tamanho, tem que ficar no quintal e comer ração e ponto. Spock , no entanto,ganhou uma caixinha no banheiro, um tapetinho debaixo do seu armário favorito e torradas com requeijão no café da manhã. Durante esses meses, ela diz que o cachorro é da minha mãe, mas quem dá comida pra ele, quem faz comida cheirosa e toda especial pra ele, quem liga a televisão só pra que ele não se  sinta sozinho, quem forrou almofadinha pra ele dormir, quem abre o portão fazendo barulho só pra ele venha correndo é ela. Spock tem sido companhia pra minha vó e , sobretudo, representa a sensação de que alguém de fato depende dela.Vê-lo tão fraco e debilitado esmigalha o meu coração, mas sobretudo traz a solidão pra mais perto da minha vó.

Daí que meu coração, agora, tá duplamente esmigalhado.

3 comentários:

JC disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lia disse...

Oh Ju... neste momento odeio mais ainda esta distância!

Queria poder ir até sua casa, com uma caixa de chocolate, te dar um grande abranço apertado e rezar... pra que o Spock fique bem logo!!!

Se eu pudesse.... =(

Rita disse...

Ah, querida. Essa sensação que tá ficando familiar demais: não tenho nada para dizer.

I'm sorry.