quinta-feira, 7 de abril de 2011

Tristeza

A violência tá em todo canto, inclusive dentro da escola. Fato. Não tô falando nenhuma novidade, mas só fui me dar conta disso na primeira turma de sexto ano em que trabalhei. As crianças eram legais, mas uma série de fatores favoreciam vários e vários problemas de aprendizado e disciplina que quase me fizeram pedir pra sair.

Numa manhã qualquer de 2009, um garoto fez uma bolona de papel e tacou nas costas de um colega. O menino atingido  levantou, pegou a cadeira e avançou pra cima do outro. Dei um berro que surtiu efeito. A cadeira foi largada no chão, e eu fiquei paralisada, sem saber o que dizer. Uma das meninas virou pra mim e disse: " É, professora, bem- vinda ao mundo real". Pois é, uma menina de 12 anos sabia mais do mundo real do que eu. 

Hoje em dia, trabalho numa escola infinitamente mais tranquila e mais organizada. As cadeiras nunca foram erguidas por ninguém, os problemas são resolvidos na medida do possível com  o total envolvimento dos pais, mas a violência também está lá. E de certa forma, eu e os outros personagens desse universo  se não sabemos o que fazer diante dela, pelo menos, aprendemos a prever e  evitar   situações de risco.  Temos uma ideia do que esperar dentro de uma sala de aula e nos arredores da escola. E até cadeiras voadoras, por mais assustadoras e chocantes que sejam, não surpreendem muito, são de algum modo coerentes com o espaço escolar. Choca,mas não pega de surpresa.

Agora, um rapaz entrar na sua antiga escola - um espaço que evoca lembranças e afetos -, colocar crianças contra a parede e atirar em suas cabeças e peitos  é... cara, é... não é ,sabe! Numa manhã de quinta-feira, num escola do Rio de Janeiro, a última coisa que alunos e professores esperam é serem vítimas de execução. Tiros podem até não ser novidade, dependendo da localização da escola. Há escolas , em determinados pontos do Rio de Janeiro,em que professores e alunos deitam no chão, enquanto o tiroteio acontece na esquina. Mas o que aconteceu hoje lá naquela escola em Realengo é algo para o qual não estamos preparados.

Ao ver a notícia na tevê, só vinha na minha cabeça  os meus alunos  que têm a mesma idade das meninas e dos meninos atingidos. Dá um nó no peito só de imaginar o horror que essas crianças  viveram e presenciaram. E a professora? O que se faz quando as crianças por quem você é responsável são assassinadas na tua frente? Não dá pra ter noção, não dá pra mensurar o que essas pessoas viveram.

Não sei bem o que pensar diante de tudo isso.

Muita tristeza, muito pesar.

5 comentários:

Cheshire cat disse...

Hoje de manhã eu quase chorei no ônibus ouvindo o jornalista ler os nomes das crianças no rádio. Com aqueles nomes elas se materializaram pra mim - eu também tenho uma Jéssica, uma Bianca, uma Ana Carolina nas minhas salas. Acho que para nós, que estamos dentro da escola todo dia, esse sentimento é pior ainda.

Carlinha disse...

Adorei o blog, suas postagens são super iper mega legais!
Dá uma passadinha no meu blog:
http://carlamundogirl.blogspot.com/
Beijocas

Obs: adorei o post dobre as coisas dificeis!!!*-*

Palavras Vagabundas disse...

Ju,
fiquei em choque! Chorei muito e tenho orado (do meu jeito) por todos, os mortos que encontrem paz em suas almas e aos vivos que encontrem paz em sua jornada pela vida.
bjs
Jussara

Cíntia Mara disse...

Ju, se você estava fora do mundo real, imagina quem está longe das escolas há... 10 anos. Na minha época de ensino fundamental (e na sua também, imagino) o máximo que acontecia era uma batida com a régua no braço do outro. E, confesso, normalmente era eu que batia. Eu brincava de roubar o boné dos meninos. Hoje tenho medo por quem faz isso.

As crianças que viram os colegas serem mortos, com certeza levarão isso pro resto da vida. Imagina os pais! "Meu filho tá seguro na escola" e, de repente...

Débora Leite disse...

Eu chorei, chorei, chorei e muito. A dor é minha também, é de todo mundo. E me dá raiva desse maluco, das pessoas que praticaram bullying contra ele, do prefeito do Rio, do governador, da presidente, das políticas de (in)segurança pública, de mim!
Que merda de país é esse que, sem perceber, ta matando nosso presente e nosso futuro?