quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O manual


Eu quero um manual para o amor. Quem não quer? Mais que manual para o amor, eu quero um livrinho que ensine a lidar com o amor dos outros. Quer dizer, com o amor do outro é facinho lidar, difícil é lidar com o sofrimento por amor do outro.

Quem já não sofreu por amor? Eu achava que nunca tinha sofrido porque acreditava  que, se eu não vivi um grande amor, então todas as lágrimas que chorei não foram lá muito legítimas. Mas eu sofri sim. Chorei quietinha, cheia de elegância e silêncio, milhares de vezes, no banheiro, no travesseiro, dentro de ônibus. Chorar dentro de ônibus é engraçado porque todo mundo vê, você tenta se controlar, não consegue, daí as lágrimas ficam escorrendo, escorrendo. Você pode até chorar bem elegantemente, ainda assim chorar dentro do ônibus nunca é exatamente silencioso. Enfim, mas se o negócio é sofrer, eu aguento. Eu suporto, eu me viro, eu me basto, eu não me resolvo ,mas finjo.

Agora, não há coração que aguente gente sofrendo por amor. Meu coração - que eu adoraria que fosse feito de aço bruto – se espatifa toda vez que olho pro lado e lá estão aquelas pessoas pesadas, cansadas, não se aguentando por causa de uma dor que parece ser maior que a vida. Gente que sofre por amor parece cachorrinho deixado do lado de fora da casinha, choramingando na chuva. Você quer pegar o cachorro – por mais sarnento que seja – embrulhar num cobertor quentinho e deixá-lo morando no seu quintal pra sempre. Eu fico arrasada diante de um cachorrinho molhado de chuva e de uma pessoa que sofre por amor.
Amar não deveria doer nunca. Amar deveria ser lindo como nos poemas que a gente escreve quando tem 12 anos. Amar deveria ser fácil como respirar. Amar deveria ser qualquer coisa menos dolorido, exigente, cansativo. Em dias como os de hoje, fico pensando que melhor é não amar. Se a gente não ama, não precisa ser maduro, equilibrado, esperto, sensato, coerente, ponderado.  Se ninguém mais amar, ninguém vai sofrer, logo não terei de me sentir impotente como agora. Tão fácil!

Diante de cachorrinhos molhados de chuva e pessoas sofrendo por amor, minha prepotência palpiteira desce pelo ralo e só me sobra essa vontade enorme de dizer abracadabra e fazer o amor desaparecer. É, não tenho superpoderes. Sempre achei uma merda não ter superpoderes.







5 comentários:

Aline M. Gomes disse...

Haha Como nao sou nada dessas caracteristicas citadas, eu sofro tb! Me identifiquei com o choro no onibus.... Mas eu tb choro muito tomando banho e antes de dormir, sao os piores momentos.
Ja percebeu q a gente viaja na maionese demais antes de dormir?

Bjos flor!!!

Juju Balangandan disse...

Ju, me coloca no seu quintal? Dor de amor é pior que pedra nos rins, durante um tratamento de canal.

Luciana Nepomuceno disse...

Você tem super poderes sim. De escrever um texto como esse que fala tão diretamente à nossa sensibilidade que a gente se pergunta como é que você nos adivinha assim.

Eu acho que nunca sofri assim dessa dor de cachorrinho na chuva, sinto que meu doer é um tantinho diferente, menos de amar e mais do amor, sabe...ai, suas palavras são sal e bálsamo, pode?

Lia disse...

Eu suporto, eu me viro, eu me basto, eu não me resolvo ,mas finjo. o/

Superpoderes.... vc tem!!!

Chico Mouse disse...

Esse texto tá uma coisa linda demais!! Parabéns, Ju!