quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Passei pros meus alunos do sexto ano uma redação com o tema " Se eu fosse professora ou professor, minha aula seria..." No mínimo dez linhas ( eles tentam me enganar escrevendo com uma letra gigante, mas eu boicoto as letras hiperbólicas. Não tem negociação, bebê!), pode escrever o que quiser. Não é a primeira vez que faço essa atividade.Em 2009, quando trabalhei numa pequena sucursal da CAOS S/A, passei a mesma redação e chorei horrores enquanto lia o que aqueles alunos escreveram. Eu não gostaria de ser aluna daqueles possíveis professores. As aulas deles - e desses meus atuais alunos - seriam pavorosas, permeadas de gritos, muitas cópias do Hino Nacional, proibições mil e até alguns castigos físicos.

Enquanto as crianças comparam a figura do professor à de um carrasco, as pessoas que estão fora da escola têm um ideal mais bonito. Quantas e quantas vezes já ouvi que meu trabalho é muito lindo porque posso mudar a vida de alguém! Outra boa também é ouvir as pessoas reclamando de seus empregos e desejando arranjar uma vaguinha de professor pra descansar do estresse. Claro, professor tem uma carga horária tão simpática. Olha que legal que é ficar em casa lixando as unhas enquanto todo mundo trabalha 8h por dia.Entre a visão cruel dos meus alunos e a idealização romântica das pessoas que não pisam numa escola há 15 anos, fico com a dos meus alunos. Ops, calma lá, não aprovo o que eles dizem. Tenho um compromisso diário de não deixar que o poder que passa algumas horinhas nas minhas mão  suba à cabeça e me leve a humilhar crianças. É que meus alunos têm a escola como parte de suas vidas e sabem muito bem que esse modelão bonito de sala de aula não funciona pra todo mundo ; não funciona pra quase ninguém, eu especulo.

A pressão sobre o trabalho que exerço é muito grande. É uma pressão desumana , eu diria. Porque os alunos esperam que o professor ensine e dê a eles valores e limites que os pais e a família não conseguem dar. A família, outra instituição excessivamente cobrada ( a sociedade funciona de um jeito, mas a gente espera que os pais sejam capazes de criar seus filhos de outro), espera que o professor ofereça todos os subsídios pra que a criança se dê bem na vida. E todo mundo vê filmes e novelas sobre escola e espera que o professor seja o fodão, que aula seja libertadora, que os uniformes sejam iguaizinhos aos que o pessoal de Rebelde usa.

Eu tenho muito claro na minha cabeça que  não sou sacerdote. Não escolhi ser padre, não sou salvadora de almas, a sala de aula é meu ambiente de trabalho. Não tenho o menor pudor de dizer isso. Saio da escola, volto a ser só Juliana e ponto final ( e preciso deixar isso bem claro mesmo, especialmente pros alunos que moram perto da minha e se acham no direito de patrulhar o tamanho dos meus shorts). No entanto, apesar de todo esse trabalho que faço na minha própria cabeça,  minhas colegas e meus colegas de trabalho(Silvio Santos feelings) são pessoas; e pior,  são pessoas que não têm autonomia, não se sustentam, não são ouvidas tantas vezes. E por trás de uma pessoa dessas, daquela mais perturbada e irritante, da mais abusada e bagunceira, tem uma história. E essas histórias não ficam do lado de fora do portão. Tantas vezes, essas pessoas não dão conta de deixar seus problemas em casa ( assim como você e eu  não conseguimos) , e cabe a mim administrar os conflitos que surgem quando essas histórias resolvem vir à tona. Nossa, é facílimo lidar com 30 adolescentes e suas histórias, muito fácil mesmo( eu tenho o privilégio de só ter 30 alunos numa sala. A realidade das escolas públicas não é essa.).

Essa semana, me vi diante de três adolescentes, em situações diferentes, que estão lutando como podem  pra não serem engolidos pelas circunstâncias. Minha vontade é convidar todo mundo que diz que os adolescentes de hoje são todos uns idiotas vagabundos, que os professores são outros idiotas incompetentes, que escola pública  é lugar de baderna pra ficar nos nossos lugares. Seria um reality show dos bons.Depois de uma semana na  sala de aula, como aluno e professor, eu adoraria saber a opinião de quem assiste a  filmezinho americano e  acha que já sabe de tudo. 

E o que mais dói no coração é que parece que os alunos e as famílias esperam da escola um amparo que não podemos oferecer.  Eu tô cansada dessa  impotência. E adoraria pedir pros meus alunos fingirem que são  feitos de papelão - ou personagens da Malhação.

P.S.: Esse post é puro desabafo, logo perdoem qualquer atentado às boas regras de redação e gramática, por favor.


2 comentários:

Maeve disse...

amei o desabafo!

super me identifiquei.

My life disse...

Seu desabafo é sincero. Nos filmes americanos o final é feliz, os professores conseguem o impossível. Mas nossa realidade é diferente. Exemplos já vi na escola dos meus filhos e também aqui na rua da minha casa.
Na escola os alunos conversam distraidamente enquanto a professora fala lá na frente, poucos prestam atenção e são esses os melhores alunos.
Garoto de menos de oito anos bate no meu portão para provocar meu cachorro, saio e digo: "bonito" sabe o que ele faz? me ignora...putz o que está havendo com as crianças de hoje em dia?

ai ai

abçs