terça-feira, 8 de novembro de 2011

Brincando de Resenhar

Enquanto lia os primeiros dois terços de Trabalhos de Amor Perdidos,do Jorge Furtado, preparava mentalmente o post animadíssimo que escreveria sobre o livro. Os dois primeiros terços do livro são tão, tão legais que você fica querendo que o trânsito engarrafe, que  a amiga que marcou contigo atrase, que o sono não chegue.  Estive muito apaixonada por Trabalhos até a página a 161. Muito apaixonada.O enredo do livro é livremente inspirado na peça homônima de Shakespeare. Não conheço a peça, então não sei o quanto o livro se aproxima dela. Trabalhos é narrado por Robin, o ator e diretor brasileiro desempregado que ganha uma bolsa de estudos em Nova York, oferecida por um  instituto que incentiva projetos que possam atrair leitores para Shakespeare. Robin ( a explicação dada no texto pra esse nome é uma forçação de barra sem fim, mas tudo bem, dos males o menor) pretende montar uma peça cujas as falas são piadas extraídas das  tragédias e comédias que o Shakespeare escreveu. É uma ideia maluca, o próprio narrador admite, mas alguém no tal do instituto aprovou o projeto e lá se foi o Robin pra Nova York estudar. 

O autor do livro é o roteirista de Meu Tio Matou um Cara e O Homem que Copiava.  O estilo narrativo de Jorge Furtado salta aos olhos no livro. Um narrador afiado, autodepreciativo, consciente da presença do leitor, um  pouco adultescente , esse é o Robin - um bobo (em vários sentidos, de acordo até com o Shakespeare. Ele não se chama Robin à toa). O escritor sabe criar empatia entre leitor e narrador. Já no primeiro capítulo, você vira amiga de infância do Robin. Ao longo da narrativa, você tem certeza de que Robin poderia ser você. Isso porque, apesar de ser bolsista de um instituto especializado em Shakespeare e estar cercado por colegas que sabem tudo do dramaturgo, Robin não domina seu objeto de estudo, e eis uma boa sacada do livro. Trabalhos de Amor Perdidos faz parte de uma coleção em que autores escrevem narrativas baseadas nas peças de Shakespeare ( ideia boa  pra caramba, né? Tô doida pra pegar Sonho de uma Noite de Verão) e a proposta parece ser mesmo a de  apresentar Shakespeare prum público que não sabe muito sobre ele. Robin é um leitor apaixonado que vai apresentando Shakespeare pra nós e vamos sabendo mais sobre as peças à medida que ele próprio vai se relacionando com os colegas um tanto estranhos do instituto.Eu não sei nada de Shakespeare. Li Sonho de uma Noite de Verão diversas vezes e Otelo, Macbeth e Hamlet uma vezinha só. Dessas três, a que mais me marcou foi Macbeth, mas estou longe de saber trechos ou de lembrar de detalhes. Trabalhos me fez ter vontade de saber tuuuuudo sobre toooodas as peças. Tô aqui me odiando porque não sei onde foi parar minha edição de Otelo. Quase que peguei a versão adaptada de A Megera Domada na biblioteca da escola hoje.

Um outro ponto que adorei no livro foi a pequena ( ou grande, não sei. Vai que  o cara fez um trabalho brilhante nesse sentido, e eu que não tenho estofo pra sacar todas as  referências) discussão sobre as traduções das peças. O fato de não dominar o inglês constitui uma dificuldade pro trabalho do Robin, justamente porque piadas são elementos difíceis de ser traduzidos. Robin fala bastante de humor, comédia, faz muita piada de si mesmo, desmitifica personagens praticamente canonizados, brinca um bocado e a gente se pega dando risadas homéricas no metrô, na fila do banco. Uma delícia!

Então, eu gostei MUITO dos dois primeiros terços do livro. Gostei pra caramba. Aí foi chegando o final e o encanto se perdeu um pouco. Não que tudo tenha virado uma grande porcaria, longe disso. A parte final é bem legal, mas eu não entendi como o 11 de setembro e a paranoia de um casal de malucos foi parar na trama, uma abordagem exploração desnecessária de um determinado momento histórico.  A mim, pareceu forçação de barra.  Mas,apesar disso, não me arrependi nem um pouquinho de ler esse livro delicinha. As risadas que dei  e as coisas legais que aprendi sobre Shakespeare compensaram o final.

Leiam! Leiam! Leiam! E venham me contar depois.

P.S.:  E até conheci essa lindeza de música aqui :




"I'll be your mirror
Reflect what you are in case you don't know
I'll be the wind, the rain and the sunset
The light on your door to show that you are home
When you think the night has seen your mind
That inside you're twisted and unkind
Let me stand to show that you are blind
Please put down your hands
'Cause I see you"



Update: Já disse por aqui mais de mil vezes que não sou boa com resenhas, mas dessa vez me superei. Já dei uma ajeitadinha na bagunça generalizada que aprontei no último parágrafo.

2 comentários:

Deise Luz disse...

Own, Velvet <3 <3

Cíntia Mara disse...

Quero ler! Não sei quando, mas ele acabou de entrar pra minha lista de desejados. Gosto desse negócio de pegar referências de obras famosas e tal. Você tá melhor do que eu em matéria de Shakespeare. Só li A Megera Domada, apesar de já ter lido/visto algumas adaptações de outras obras.

Só é uma pena que o último terço não seja tão bom quando os dois primeiros :/