segunda-feira, 28 de novembro de 2011


Há um tempo, a Luciana fez um post celebrando a beleza da palavra " morena". Ela usou daquele seu imenso acervo de coisas conhecidas ( Luciana conhece de um tudo, meu Deus) e citou um monte de morenas do nosso cancioneiro popular. O post é todo lindo e delicado, mas  lê-lo só me evocou a antipatia que tenho pela palavra " morena" e suas flexões.

Quando você é uma mulher negra, com um tom de pele que lhe permite passar incólume por xingamentos delicados e edificantes como macaca, crioula, suco de pneu, o " morena" parece ser a alcunha confortavelmente usada por homens galantes, amigos elogiosos, conhecidos simpáticos. A vida toda fui morena, moreninha - este último usado pra enfatizar que o meu nariz, as maçãs do meu rosto, meu cabelo não garantem que eu seja encaixotada junto com as morenas de cabelo liso e  nariz afilado. Quando alguém me chama de morena, tenho vontade de dizer : " Meu bem, você não enxerga bem? Eu sou preta!". Bem, a vontade dá e passa porque , em geral, o morena vem acompanhado de uma boa vontade, né? A pessoa tá ali querendo amenizar o peso que " negra" tem. O problema não é essa coisica minúscula envolvendo somente eu e a pessoa que me chama de morena, né?Então, o  máximo que cheguei a fazer até hoje foi dizer: " pode dizer que eu sou negra. Não tem problema. Não vai me ofender, não  é ofensa."

Eu sei que existe um monte de gente séria lutando seriamente contra o racismo. Eu, sinceramente, tenho até vergonha, às vezes, de  dizer qualquer coisa no dia 20 de novembro ( foi ontem e eu nem lembrei. Quer dizer, eu sei  perfeitamente quando é o dia da consciência negra, mas fiquei perdida e  no tempo e só fui prestar atenção que hoje era  dia 21 porque uma aluna me disse. Imaginem quantas vezes já perdi compromissos por conta desse meu apreço pelo calendário. rs) porque  sou daquele tipo de pessoa muito preocupada com meu próprio umbigo na maior parte do tempo. Sou até relativamente consciente de muitas questões importantes desse país, mas em geral me preocupo mais com o  que vou falar na análise, sabe. Então, poxa, quem sou eu pra falar qualquer coisa? O que eu vou dizer ? Eu, que vivo na minha bolha de alienação e me habituei a esquecer que cor tinge o maior órgão do meu corpo?

É, mas quando eu ouço um morena desses da vida, eu me lembro de que nasci num país RACISTA, me lembro de que a minha pretensa despreocupação acerca da cor da minha pele, da geografia do meu corpo é pura balela, sabe. Quantas e quantas vezes eu e uma amiga fomos as únicas negras em um shopping chique? Quantos negros havia nas minhas turmas na faculdade? Quantos negros havia naquele voo de avião além de mim? Quantas vezes morri de medo do cara negro sentado do meu lado no ônibus ( e só fiquei tranquila depois de ver um livro didático na mochila dele ou notei as manchas de trabalho na roupa)? Quanto trabalho dá comprar maquiagem pra passar na minha cara? Quanto trabalho dá convencer as pessoas de que um homem negro é gatiiiinho? Quanto trabalho dá se segurar pra não bater em cabelereiro que não gosta do meu cabelo "duro"? Quanto trabalho deu pra assimilar que meu cabelo não precisa ficar amarrado o tempo todo?

 Morena é uma ova, sabe! Moreninha é o cac***! Eu sou negra, preta, crioula, até macaca se quiser ofender e ser preso, mas morena não. Morena é eufemismo.


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Leiam este post aqui no Groselha News


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Suponho que o Blogger tenha devorado esse post e um outro porque eu não apaguei e acho (e espero) que ninguém mais tem a senha do blog. E não é a primeira vez que isso acontece.

Escrevi esse post num dia em que me disseram que racismo existe porque os próprios negros são racistas e complexados. Ouvi essa pérola de uma pessoa por quem sempre tive muita admiração e a decepção foi enorme. Mas ,de certa forma, é bom ter decepções desse tipo porque a gente se acomoda na nossa bolhinha.

8 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

o blogger comeu seu post e, junto, levou o meu comentário que eu não lembro bem, mas eu desfiava minha árvore genealógica que inclui bisavós índias, bisavô escravo liberto pela lei do ventre livre e bisavôs holandeses saídos daqueles livros com roupas engraçadas e pelw transparente. E eu realmente amo tudo que faz de mim quem eu sou, tudo, não apenas uma parte. Por isso fico confusa, sei que voc~e tem razão, mas não consigo desgostar de mim, sabe? De quem eu sou: morena, mulata, misturada...faço o quê com isso?

Juliana disse...

A Luciana levanta uma questão boa: e a mistura que é tão a nossa cara onde fica?

A mistura não tá excluída.Eu sou morena tb, mestiça de família com gente com todas as caras.

Mas é que eu acho que há duas acepções pra morena e recuso essa que ressaltei no post.

Daniela disse...

E acho que NO BRASIL, a morenidade existe dentro da negação da negritude. Sueli Carneiro tem uma fala fantástica que diz que no Brasil só é negro quem não pode ser outra coisa. Quem é, se auto-declara outra coisa. Porque é assim: "negra??? Porque vc diz que é negra? Negra nãããão, vc é morena!". O orgulho dos ancestrais de nome europeu, ou mesmo indígena, inexiste ao se falar de ancestrais escravizados (inclusive porque, a gente não tem ideia de quem foram e de onde vieram).

Ser negra é um estigma e, enquanto for, a minha mistura (bisa india, biso espanhol, africanos, tudo misturadão no milk shake racial que é a minha família) não cabe num lugar de destaque. Porque a celebração da minha morenidade (nesse contexto, reforço) é a negação da minha negritude.

Juliana disse...

Dani, vc disse tudo. Eu tava falando com a Luciana, por e-mail, mais ou menos o que vc disse, mas vc disse melhor que eu. É isso: eu tb tenho uma família caldeirão de mistura, uma mãe de pele clara ( o que me causou um monte de confusão quando era criança), mas prefiro o negra porque prefiro tentar quebrar o estigma.

Palavras Vagabundas disse...

Ju,
adorei o post!
Sou até clarinha mas tenho uma árvore genealógica que qualquer biologo geneticista adoraria estudar, uma mistura muito doida de holandes a guarani e tudo que está no meio, talvez por isso não ache morena uma palavra tão ruim, como me definir? Minha filha, com uma avó guarani, é mais escura que muitas mulatas, qual é a cor dela? Pergunta da inscrição do ENEM que levamos dois dias pensando como responder, enfim...
Se assumir negra é uma posição politica e por isso admirável, num mundo que todo mundo quer ser enquadrar.
bjs
Jussara

Juliana disse...

Pois é, Ju, morena não é ruim, morena é uma palavra linda, como bem disse a Borboleta no post dela. Essa misturada do Brasil é uma delícia, e é ótimo que a gente tenha dificuldade com rótulos mesmo.

Mas é como a Daniela disse aí em cima: enquanto o morena for usado para pessoas com corpo e cara como os meus de maneira a enfatizar a sorte que temos de não ter mais melanina na pele, eu quero mais é ser negra.

Thais disse...

Pois eu, professora que sou, esses dias fui me referir à uma aluna minha durante uma reunião, com minha coordenadora negra. Daí eu disse, "é, a Fulana, aquela que é negra". E ela ME REPREENDEU pq eu disse negra. Disse q eu podia ser processada (??) por aquilo. Oi??????
Fiquei indignada. =X

mila disse...

Brasil é um país feito pros morenos. Ser "branquela azeda" também não é muito legal...
E qdo tô ensinando pros meus alunos gringos q não convenciona-se ofensa chamar um negro de preto, eles acham mto esquisito... Mas pq, professora, se preto é só o nome de uma cor?