terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Eu nasci no Rio e moro desde sempre na  região metropolitana, portanto não tenho sotaque. Não, não tenho nenhuuuuuum sotaque. Quem foi que disse que a gente aqui tem sotaque?  Essa coisa de não ter sotaque, às vezes, torna a minha vida difícil porque sou daquelas pessoas que não entendem uma palavra do que as pessoas de outros estados falam. Da última vez que vi minha amiga mineira Débinha, fiquei achando que ela era maluca porque usava a palavra " bolsa" como xingamento. Bolsa? Como assim " bolsa" é uma ofensa? A pobre da Débora precisou dizer umas vinte vezes a mesma coisa até que eu  sacasse que ela estava falando BOSTA.

Há uns anos, tive um aluno que era meio mineiro e meio paulista - nascido no interior paulista e criado no interior mineiro. O cara era a pessoa mais participativa da aula, mas passava metade do tempo falando pro quadro, pra paredes, pros colegas que dormiam na aula porque eu não entendia quase nada do que ele dizia. O menino era afoito, tinha resposta pra tudo e era a razão de toda ansiedade que eu sentia antes das aulas. Eu cheguei a  desenvolver técnicas de leitura labial  só pra não precisar admitir pro rapaz que eu não conseguia acompanhá-lo. Ora, eu ia dizer o que pra ele? Fala devagar porque eu  sou essa pessoa que nunca colocou os pés fora do Rio de Janeiro, não convivo com ninguém de outro estado e  preciso urgentemente conhecer as outras pessoas do meu país? Nunca, né? Sou alienada, mas tenho um orgulho ferrenho.

Nessa mesma época, tive um  aluno da Bahia e um outro do Maranhão. O maranhense achava que eu tinha cara de baiana. Aliás, ele me chamava de baianinha. O cara da Bahia achava aquilo uma afronta porque,pra ele, eu podia ser tudo menos baiana. O menino ( não consigo me lembrar do nome dele de jeito nenhum) , recém-chegado de Ilhéus ( como é possível que eu me lembre da cidade do cara, mas não me lembra do nome dele) estava adorando estar no Rio de Janeiro, usava uma camiseta do Cristo Redentor, mas não se conformava com o sotaque desse povo carioca. Certa vez, ele veio me dizer que me achava gente boa e tal, mas que não aguentava minha aula porque eu dizia " oraçõexxxxxxxx surbordinadaxxxxxx". Ele me disse isso com a cara contorcida de nervoso. E eu ainda fui abrir a boca pra dizer que eu nem tinha tanto sotaque, que aquele jeito de falar que ele tava imitando era muito estereotipado. Pra que fui dizer aquilo? Com a minha doce ingenuidade, despertei a ira do moço. Daquele dia em diante, o menino passou a levantar a mão na aula toda vez que eu dizia algo que parecia " carioquês".  

Me lembrei desses alunos antigos porque, hoje mais cedo, tive de pedir pra minha aluna paulista do sexto ano ( ela está morando no RJ há 2 meses) pra que repetisse devagar o que tinha acabado de dizer. Ela repetiu , mas acrescentou desolada: " Ai, professora, eu tô perdendo o meu sotaque! Tô começando a falar como vocês, e eu não quero porque, quando eu for visitar minha família, eles vão achar que eu virei carioca. Vou lutar contra isso!". Ok, as palavras que ela usou não foram exatamente  essas, mas juro que ela disse " vou lutar contra isso".

Tá vendo por que estudar variação linguística é importante? Tá vendo por que é importante que as pessoas me convidem pra conhecer seus estados ( quiçá, seus países) a fim de que eu não tenha mais dificuldade de entender o que meus alunos  dizem?






14 comentários:

Cor de Rosa e Carvão disse...

bonita, antes de tu vir me visitar vou te passar um livrinho básico para turistas: "Bá, tchê", um dicionário de gauchês. hehehehehe.

enquanto isso vai testando com esse post aqui: http://rosaecarvao.blogspot.com/2008/05/jeito-gacho-de-falar.html

Bjo

Leninha disse...

Oi amiga Juliana!!!

Sou mineira,uai,mas não acho que eu tenha sotaque pois já morei em várias regiões do Estado e (des) assimilei por diversas vezes o meu jeito de falar.Agora moro na região serrana do Estado do Rio e ninguém me pergunta se sou mineira...mas não adotei o carioquêxxx.
Passa lá no meu blog...tá cheio de lembranças mineiras.
Bjsssss,
Leninha

http://leninha-sonhoseencantos.blogspot.com

Cíntia Mara disse...

Ai, Ju, morro de rir quando você fala de sotaques. É comum as pessoas de Nova Iguaçu serem meio alienadas assim, que nem você e o Felipe? =P Você é uma das cariocas com mais sotaque que eu conheço. Nunca vou me esquecer dos "deixxx paixxxteixxx" de Curitiba. E eu acho que os cariocas falam muito rápido, foi o que mais dificultou a minha comunicação da primeira vez que viajei.

Já tava aqui pensando "mas que raio de mineirês é esse que a Débinha fala em que BOLSA é xingamento?" e ainda tô sem entender como você conseguiu confundir com "bosta".

Tadinha da sua aluna! Com um final de semana aí eu voltei falando em "saltar do ônibus" e depois daqueles 12 dias no sul, comecei a chamar todo mundo de guri e guria. Imagina...

Jussara e Jurema Brazil disse...

JU,
preciso rir... sotaque é coisa complicada, moro no Rio a 25 anos e nunca perdi meu sotaque paulista-paranaense-paraibano, rs Os cariocas matam de cara que eu não sou daqui, os paulistas dizem que perdi os erres e os paraibanos que perdi a malemolência. Tem carioca com pouco sotaque, mas o esse denuncia, portanto amiga se conforme, você tem sotaque! Quanto a menina paulista, ela vai lutar contra por que, em geral, o paulista acha o sotaque carioca muito feio, pior que o maranhaense.
bjs
Jussara

Juliana disse...

Ju, eu tenho o maior sotaquezão, preciso admitir. Tenho o "s" e toda aquela entonação "marrenta".Mas só fui descobrir isso depois de conhecer pessoalmente as amigas que fiz pela internet.
Agora, me diz, vc é de onde?



Cíntia, vc me conhece,né? eu sou uma tonta. De tudo o que eu podia entender, fui entender " bolsa".

Leninha, região serrana? Qual cidade?

Elaine, acho o sotaque gaúcho o mais difícil. Preciso de dicionário mesmo! hehehehehe

Annie Adelinne disse...

Ai, eu entendo demaaais sua aluna! Desde que cheguei aqui no Paraná (opa, quase quinze anos!) que eu tenho lutado pra não perder todo o meu sotaque. [baianes on] E se eu cismar, passo o dia falando baianes![baianes off] Prefiro não ter sotaque de lugar nenhum (mesmo que uns achem que é carioca ou mineiro) que falar porrrrrrrta igual paranaense!

Mas eu não tenho dificuldade nenhuma com o sotaque alheio. Acho o máaaaximo ficar ouvindo pessoas com sotaques diferentes! E imitar hahaha Engraçado que eu gosto de ir pro Rio e falar igual carioca, ir pra Bahia e falar igual baiano, ir pra Sampa e falar igual paulista e aposto que se eu for pro Rio Grande vou sair de lá falando gauchês (tãaaao graciiinha o sotaque gaucho!), mas o paranaense não dá! Acho que o problema é com o caipirês de Taubaté mesmo. Não consigo. Me sinto menos inteligente falando parrrrrtirrrrrr. hahaha Que coisa, não? =P

Peterson Quadros disse...

Sem alunos de Santa Catarina... Que bom que não entramos nos teus exemplos. Brincadeiras a parte é louco perceber como nosso imenso país é também rico em modos e falas. Aliás, preciso ir comprar "pópatapaotaio" - Coisa de Manezinho da Ilha de Santa Catarina, não é verdade?

Manu disse...

Eu PRECISO comentar esse post... ahsuahsuahsa

E eu que sempre achei que não tinha sotaque, penei quando cheguei aqui em Manaus e o povo ficava tirando uma com minha cara....

Eles aqui, tb acham que não tem sotaque, alias, todos achamos né?! haushuahsuahsuah

Ja to acostumada com o modo de falar daqui e, posso confessar?! Hoje, eu me incomodo em ouvir o sotaque da minha cidade =/

ai ai, Brasil e suas particularidades.... hehehehehe

Palavras Vagabundas disse...

Ju,
nasci na Paraíba e tenho família pelo nordeste inteiro, estou sempre por lá. Morei uns bons anos em Londrina no Paraná e depois mais de uma década em São Paulo, meus irmãos moram lá até hoje, agora já são 25 anosd e Rio. Meu sotaque? Sei lá, é tudo junto e misturado.
bjs
Jussara

Helô Righetto disse...

ahahaha imagina, foi alfinetada não!!!! ; ) (respondendo seu comentário lá no meu post sobre comentários... )

Daniela disse...

Ai, curto DEMAIS sotaques. O nordestino em todas as suas variáveis, adoro, mas o meu preferido de todos é o pernambucano. Também adoro sotaque carioca e qdo ligo pra meu povo que ficou em Angra dos Reis eu fico: fala mais, fala mais, que saudade do sotaque de vocês...hahaha...qto mais carregado e caricato mais eu gosto.

O único sotaque que eu não gosto é o paulista. O meu, com essa coisa de ser nômade, tb tá se diluindo. O povo sabe que é do Nordeste, mas não de onde exatamente. E bastante gente se surpreende qdo eu digo que sou baiana.

Vez por outra fico aflita, doida pra ir pra Bahia e recuperar, nem que seja por um tempo, meu sotaque...

E né? Todos os cariocas que eu conheço dizem que não tem sotaque...kkkkkk

Juliana disse...

Daniela, sotaque de Pernambuco é o meu favorito. Tb não gosto do paulista ( ai, meu deus, espero que lia e a manu não leiam isso. kkkk)


Peterson, graças a uma música velha de Sandy e Jr, eu acho que sei o que é pó pra tapar taio. É remédio pra machucado ,não é?

Annie, eu não me lembro do seu sotaque ( ou não sotaque). Pra mim, vc fala como aquela menina de que não gosto, lembra? Dia desses, eu a vi e tive a confirmação de que vcs tÊm a mesma voz.


Manu, vc tá fazendo a coisa de que mais tenho medo: estranhar o meu próprio sotaque. Não faça isso! hehehehe

Evanir disse...

Construa um paraiso de alegria e paz.
Basta você querer o bem para todos.
Ser otimista. Ter fé em Deus e em si mesmo.
Compreender que Deus não tem preferências é uma forma de se sentir seguro.
Tenha um abençoado final de semana.
Beijos no coração.
Não se esqueça que..
Estou seguindo -te e te amando .
Evanir
Tem Prente de Natal na Lateral para você.
Fiz com muito carinho..
Tomei a liberdade de seguir seu blog pela grandeza das suas postagens.

Maeve disse...

Opa! portas abertas em Salvador, viu?

e eu aposto um braço que você tem MUITO sotaque1 hahahahah