sábado, 31 de março de 2012

Alma "gema"

Ontem, na fila do banco, eu prestava atenção na conversa de duas meninas. Adoro prestar atenção na conversa alheia em lugares públicos. É divertido. Uma delas tava se lamentando por causa das agruras dessa vida de "single lady". Aí a outra resolveu incentivar a amiga a entrar nesses sites de namoro e casamento da vida. A incentivadora dizia: " Entra num site de namoro. O único jeito de namorar hoje em dia é pela internet. Tem uma menina no trabalho que vai casar com um cara que conheceu na net. É uma história legal..." Eu, ali ouvindo, doida pra dar minha opinião na história. Mas como sou educada, fiquei quieta e continuei prestando atenção no papo que depois tomou outros rumos. Já que não dei pitaco na conversa, vou contar minha breve experiência num desses sites pra vocês. Sentem aí, que lá vem adrenalina, romance e emoção!

Foi assim: minha amiga, que acha que eu sou mais ousada que ela, veio pra cima de mim com um papo de que ela queria se inscrever num site de namoros, mas que não tinha coragem. Coragem, pra que coragem? Vai lá, minha filha, se inscreve e me deixa quieta no meu canto. Mas minha amiga é uma sujeita esperta e sabia que não poderia plantar a sementinha da curiosidade nessa minha cabeça de melão sem arcar com as consequências. Passei um tempo dizendo que nem morta exporia minha imagem num site desses, que nem sob tortura preencheria aqueles formulários bestas, jurei por todos os anjos do céu que jamais trocaria e-mail com um desconhecido. Rá! Entrei num famoso site de namoro antes da minha amiga! 

Saquei uma das milhares  de fotos em que apareço de óculos e chapéu ( o nome disso é disfarce), me armei de um  monte de palavras espirituosas pra escrever meu perfil, mirei no príncipe encantado ao indicar as características que me atraem num homem e , pronto, assinei meu passaporte pro amor virtual. A primeira semana no site foi bem morna. Nenhum recado, nenhuma visualização de perfil, e eu sofrendo com a impossibilidade de julgar o nível de charme, garbo e elegância de um moço através de uma única foto ( o meu plano era o gratuito). A segunda semana foi bem mais movimentada.Recebi vários recados no meu e-mail, alguns deles inesquecíveis:

- houve o cara que me chamou de bonitona da Baixada Fluminense. Ok, eu repito: o cara me chamou de bonitona da Baixada Fluminense.  Sem mais!

- um outro era português e me mandou um recado em inglês. Preciso dizer alguma coisa mais? Ah, sim ele  deixou claro que tinha grana e propôs que eu fosse a princesa do castelo dele. ( Esse era o favorito dos meus amigos!)

- houve também aquele que enviou o número do telefone, telefone do hotel onde se hospedaria no Rio pra uma viagem de negócios e meia dúzia de palavras deixando bem claro que não queria saber de virtualidades.

Mas a cerejinha do bolo, a picanha do churrasco, a última gota de fanta laranja gelada num dia de sol em Copacabana foi o moço que eu adicionei no MSN. Eu já estava meio desconfiada de que não teria muita sorte no site, mas  imaginava que nada poderia ser pior que os recados engraçados que chegavam no meu e-mail. Adicionar um cara no MSN não me mataria, né? Já que ele tava ali no MSN, aproveitei pra puxar papo. Eu falava, ele respondia com monossílabos. Eu falava, ele levava mil anos pra responder. Até que um belo dia abro o hotmail e encontro lá um e-mail do sujeito. Oba, um e-mail! Nenhuma mensagem no corpo do e-mail; apenas um arquivo em anexo. Um arquivo de foto. Sim, eu abri. E lá estava, em close e em toda sua glória cabeluda, a bunda do rapaz. Sim, a poupança,  os fundos, o traseiro do rapaz.

E foi assim que eu desisti de todo e qualquer site de namoro.

( Mentira! Eu entrei num outro site de namoro, mas, depois de responder aquele questionário hediodamente chato, recebi uma mensagenzinha que deceparia minha última esperança de um casamento virtual. O site me disse que eu pertencia à parcela de pessoas pras quais eles eram incapazes de encontrar a alma gêmea)


Traseiros são legais, mas  aqui onde eu moro é mais habitual conhecer o rosto da pessoa primeiro.







sexta-feira, 30 de março de 2012

Filhos Eternos

Estou lendo Precisamos falar sobre Kevin num ritmo bem lento.  Tem faltado tempo, vontade e estômago. O tempo e a vontade têm sido consumidos um pouco pelo trabalho, um pouco pela preguiça. Nesse meio tempo, li dois outros livros que recomendo à beça: Dois Rios, da Tatiana Salem Levy, e o Contos do nascer da terra, do Mia Couto.

 Essa leitura de Precisamos Falar me  remeteu imediatamente a um outro livro sobre maternidade/ paternidade, O Filho Eterno. Citei um bocado esse livro por aqui, mas nunca consegui escrever um texto mais organizado. Minha dificuldade se deve a uma necessidade que certos livros despertam em mim, a de decantá-los cuidadosamente ao longo do tempo.  O Filho Eterno revirou minhas entranhas. Terminei o livro em meio a um monte de lágrimas, mas as lágrimas não bastaram pra resolver as angústias despertadas.  O Filho Eterno, como eu já comentei aqui, é um espécie de relato autobiográfico em terceira pessoa   de um cara de 28 anos, um zé-mané pretensioso, que  se vê diante de um filho com síndrome de Down. Pra início de conversa, o texto é a coisa mais linda do mundo. Eu sei que é " coisa mais linda" é um elogio clichezento, mas é isso mesmo. Você vai lendo e vai tendo um treco diante de tanta beleza, de tanto talento pra juntar palavras.Cristovão Tezza é um escritorzaço - um escritorzaço que escreveu um livraço.


 O Filho Eterno cavouca nossas entranhas porque toca naquele ponto sensível que o verniz social encobre tão bem com discurso de comercial de fraldas. Pra que serve ter um filho? O que se faz com uma criança que não corresponde às suas projeções? O que se faz com uma criança que sempre vai ter limitações? O protagonista de O Filho Eterno passa por um doloroso processo ao se dar conta de que o filho que ele imaginava a prova viva de sua própria perfeição e talentos é diferente das outras crianças. Aquela criança com Síndrome de Down não se encaixa - e jamais se encaixará- nas expectativas que foram construídas. E o que torna o livro extraordinário   são justamente as expectativas frustradas, a necessidade de confrontação com a realidade, o percurso que vai na contramão do amor espontâneo e natural que se espera dos pais e mães. Ao fim da última página, eu tive a certeza de que eu não sei nada sobre amor. Os filmes e os comerciais de pomada pra assadura não sabem da missa a metade.

Como vocês sabem, no início de fevereiro, meu primo e afilhado nasceu, e eu tenho acompanhado de perto a vida desse menininho. E eu ando deslumbrada com a realidade de uma criança pequena. Não existe fase da vida em que a gente seja mais autêntico, menos preocupado em ser o que não é. Claro que eu tô falando de um bebê, claro que eu estudei um cadinho das fases de desenvolvimento das crianças, não é disso que eu tô falando. Eu tô falando é do quanto meu primo é muito ele mesmo e nadica de nada parecido com que eu esperava. Ele só sorri pro pai dele, o homem que está com eles nas madrugadas. Ele só sossega no colo quentinho da mãe que o alimenta. Não importa que toda a família compre presentes, brinquedos, um pedaço da lua; Vinícius não se importa com a gente, ele existe pra além dos nossos desejos e ele esfrega essa realidade na nossa cara todos os dias.

Ao ler Precisamos Falar sobre Kevin ( eu tô bem no começo), penso em Vinícius e em seus pais. Vejo de perto que ter uma criança dá muito trabalho, exige grana, exige comprometimento, exige a compreensão de algo muito bizarro: você faz uma pessoa, carrega dentro do seu corpo aquela pessoa e aquela pessoa não é você nem é sua.  Um filho é uma coisa danada de complexa.Dia desses, eu perguntei pra minha prima como era amamentar. Ela reclamou muito de dor no início, e eu fiquei chocada. Ninguém te conta que amamentar dói. Aí ela sugeriu que eu fizesse uma experiência: segurar meu mamilo entre o polegar e o indicador e apertar com força. Ela disse que as primeiras mamadas foram assim pra ela. Bem, eu teria passado muito bem sem esse pequeno experimento.   Virar  a única fonte de alimentação de uma pessoa é um troço muito complexo, gente! Muito!

Em um dos trechos do Precisamos Falar, a mãe de Kevin evoca uma imagem para a gravidez que me deixou bem chocada. Ela diz que os filmes de alienígena tão aí  mostrando a gravidez como o meio de os invasores se reproduzirem e dominarem a humanidade. Ela faz uma citação a Arquivo X, e imediatamente me veio à mente a  cena que já assisti milhares de vezes. Num episódio  da sexta temporada, um homem é encontrado morto no sofá de casa, com um rombo enorme da barriga. Ele tinha sido contaminado pelo vírus alienígena ( ficção científica, galera! Calma!), o ser foi gestado na barriga dele,  se alimentou dele e depois partiu, deixando o corpo do hospedeiro morto. Uma cena horrível. Essa foi a imagem escolhida pela mãe do Kevin ao falar sobre gravidez. Dá o que pensar, né?

Bem, eu tenho a impressão de que esse post tá uma bagunça só. É , tá mesmo! Eu tô aqui ajeitando a minha cabeça , que ficou muito mexida meses atrás pelo livro do Cristovão Tezza e volta a ficar mexida pelo livro que todo mundo tá lendo. Precisamos Falar sobre Kevin é um romance espistolar - a gente lê as cartas que a mãe do Kevin escreve para o pai do menino depois da prisão do garoto. Kevin está preso porque cometeu um crime nos moldes de Columbine: entrou na escola armado e matou vários colegas e professores. E eu acho incrível que a gente conheça essa história pelo ponto de vista da mãe, do ponto de vista da mulher cujo filho dar corpo ao fracasso de todos os seus projetos maternais.Lendo o livro da mãe do Kevin, eu só consigo pensar no título do maravilhoso, incrível, extraordinário livro do Tezza. Que filho não é eterno,né? Acho que não existe nada mais eterno que um filho.




terça-feira, 27 de março de 2012

Eu, professora / Eu, aluna

Minha prima e eu conversando sobre o meu trabalho.

Eu: Passo o exercício e depois circulo de mesa em mesa, tirando dúvidas. Tem dado muito certo. 

Ela: Você olha o caderno de todo mundo ou só de quem pede ajuda?

Eu: De todo mundo, ué!

Ela: Cara, então não dá pra enrolar na tua aula. Você não tem pena de quem tá com preguiça?

Eu: Não.


***

Quando foi que eu me tornei essa professora que  não dá brecha para que  a galera do fundão dispute uma boa partida de jogo da velha?


Daqui a pouco, estarei dizendo por aí que ódio, revolta, indignação de aluno que não quer estudar não me afeta. Ops! Eu já digo isso!

***

No Ensino Médio,  tive uma professora de Biologia ( você também, Luciana!) a quem eu devo a aprovação no vestibular. O nome dela é o primeiro que me vem à cabeça quando alguém fala em gente que sabe ensinar. Não conheço uma única pessoa que tenha estudado com ela que não diga " Pô, é mesmo, a Fulana é  sinistra". Sim, essa professora é sinistra, nos dois sentidos. Sinistra de boa, de  clara, de capaz de te fazer entender qualquer coisa. E sinistra de má, bruxa, cruel, pavorosa, assustadora. Ou quase isso.

A Fulana era aquele tipo de professora cuja aula ninguém tinha coragem de faltar, cujos exercícios ninguém ousava deixar de fazer. Até respirar era uma coisa complicada na aula dela. A gente,claro, não tampava os narizes durante a aula, mas fazia um esforço danado pra que nenhuma parte do nosso corpo se mexesse nesse processo. Deu pra sentir o nível de sinistrice da mulher, né?

Daí que um dia desses, andando no Centro, esbarrei na Fulana. O tempo parou. Meu primeiro impulso foi cometer aquele crime típico de ex-alunos: eu já ia me aproximar, dizendo " oi, fui sua aluna no..."  Claro que ela não se lembraria de mim, claro que ela ia me dar aquele sorriso neutro de professor que não sabe quem é aquela pessoa que veio falar com ele, mas eu não ia me importar. Eu queria era só dizer oi pra ela, só isso. No entanto, um raio de lucidez partiu meu impulso ao meio e eu me lembrei que aquela não era uma professora qualquer, aquela era a Fulana.  Todo pavor, medo, terror que eu tinha dela há 11 anos voltaram de uma só vez e tomaram conta do meu corpo. Eu olhei cautelosamente praquele rosto  e identifiquei a mesma sisudez que eu conhecera  outrora.  Fiquei lá paralisada, no meio da rua, com a mesma postura de respiração presa que adotava nas aulas, e deixei que ela fosse embora.

Depois, contei pros colegas que também foram alunos da Fulana que eu tinha visto ela, e ficamos tentando lembrar o que de tão terrível aquela mulher fazia na sala de aula pra que a gente tivesse tanto medo. Ninguém consegue se lembrar. As aulas dela eram fantásticas, as provas perfeitamente justas, as dúvidas eram tiradas sem dramas; eu particularmente lamentei que ela não fosse nossa professora no ano seguinte. Mas o meu medo, gente, o que eu sentia na sala de aula e o que eu senti naquele dia na rua, era legítimo, tá?

segunda-feira, 26 de março de 2012

Músicas que dão vontade de escrever cartas de amor #2


He gets fierce in my dreams
Seizing my guts
He floats me with dread
Soaked to the soul
He swims in my eyes by the bed
Pour myself over him
Moon spilling in
And I wake up alone


If I was my heart
I'd rather be restless
The second I stop the sleep catches up and I'm breathless
This ache in my chest
As my day is done now
The dark covers me and I cannot run now
My blood running cold
I stand before him
It's all I can do to assure him
When he comes to me
I drip for him tonight
Drowning in me we bathe under blue light

Músicas que dão vontade de escrever cartas de amor #1




Você me tem fácil demais
Mas não parece capaz
De cuidar do que possui
Você sorriu e me propôs
Que eu te deixasse em paz
Me disse vai, e eu não fui
Não faça assim
Não faça nada por mim
Não vá pensando que eu sou seu
Você me diz o que fazer
Mas não procura entender
Que eu faço só pra te agradar
Me diz até o que vestir
Com quem andar e aonde ir
Mas não me pede pra voltar

sábado, 24 de março de 2012

Toda beleza

Parem as máquinas. Parem o tempo. Parem o mundo.

E deixem que só ela cante:



Deusdocéu!

sexta-feira, 23 de março de 2012

He hates me

Sabem aquele episódio de Friends em que Chandler e Joey esquecem Ben no ônibus?  Nesse episódio, não tem aquela cena em que Ben tá calminho e quietinho no colo do pai , aí vai pro colo da Monica e começa a chorar? Ben não chora no colo do pai, Ben não chora no colo de Chandler, mas abre o berreiro só de chegar perto da  Monica. Tão lembrados?

Então, esqueçamos o Ross, chamemos a Monica  de Juliana, Ben passa a ser Vinícius e,voilá, eis o resumo do meu relacionamento com meu ( futuro) afilhado.

quarta-feira, 21 de março de 2012

Da serventia

Houve um tempo em que eu me perguntava o tempo todo pra que servia este blog. Eu era chata, eu sei. A época do " pra que serve ?" passou rápido,e eu me contentei em continuar pensando no Fina Flor como minha janelinha virtual. Hoje, no entanto,  finalmente, descobri a real serventia desse blog. A gente tem blog, galera, só pra ter a chance de conhecer pessoas fofas como a Maeve.

Maeve e eu tentamos nos lembrar como é que a gente  se esbarrou na blogosfera. Fracassamos na tarefa. O que a gente sabe é que eu leio o Trajetória Cotidiana e ela lê o Fina Flor. Daí que um dia a Maeve disse no twitter que vinha ao RJ, eu respondi que seria legal encontrá-la. Depois de umas ligações que fizeram com que pobre da Maeve pagasse rios de Roaming e umas SMS, a gente se encontrou numa estação de metrô do Rio. Ela, toda de rosa, uma turista saltitante, do jeito que eu  imaginava. Eu, meio ressabiada, mergulhada na situação que mais me intimida no mundo (gente de internet me intimida, me deixa), mas disposta a descobrir como é conhecer uma pessoa que lê as bobagens que você escreve. Aí Maeve chegou toda animada, me ensinou o modo certo ( e baiano) de dizer o nome dela. Gente, Maeve é baiana! Sabe sotaque baiano? Então, um deleite pros meus  ouvidos! Adoro! E pronto, foi como se a gente se conhecesse há um bocado de tempo.

E é verdade, a gente se conhece. E é engraçado esse conhecer de blog, porque tu sabe de um tudo da pessoa e meio que não sabe nada. Você acha que aquela pessoa é parte da sua vida, mas nunca viu antes. É confuso, é engraçado, é legal.

Maeve e eu passamos um bocadinho só de tempo juntas, infelizmente. De verdade, eu quis que fosse mais. E agora tô aqui querendo que todo mundo que lê esse blog  e todo mundo que escreve os blogs que leio venha ao Rio de Janeiro amanhã. Venham, pessoas! E me liguem! Eu vou à praia com vocês. Bem, amanhã não dá porque tô atolada de coisa, mas semana que vem é uma boa opção.

P.S.: Maeve é um amor, gente!


terça-feira, 20 de março de 2012

Amargurices

Em geral, eu evito falar mal de quem quer que seja. Não  é que eu seja uma santa. Muito pelo contrário. Na verdade, eu só me preocupo com a possibilidade de alguém depois jogar na minha cara que eu fui injusta ( e invejosa, e intrigueira, e  rancorosa) ao emitir minha opinião. Sou orgulhosa e feia, obrigada!Daí hoje eu acordei mal-humorada, amarga, azeda e doida pra falar mal de alguém, então pensei vou escoar toda a minha má vontade no blog. Vou encarnar o espírito da Patrícia e falar mal de uma pessoas tediosas com  as quais  tenho compartilhado algumas horas das minhas semanas. Pensei até em apelidinhos pra cada uma delas, bem no estilo do Te amo, porra. Mas eu sou covardona. Vai que esse blog tem leitores em esferas mais diversas do que eu imagino. Vai que alguém se reconhece nas descrições maléficas que eu faria. Vai que uma dessas pessoas tediosas estará me esperando com uma foice em mãos na próxima vez que terei de olhar pra cada dela. Prefiro evitar fadiga. No entanto, diante da necessidade de desafogar o ódio do meu coração, farei uma listinha das coisas com as quais tenho que conviver , todas ao mesmo tempo:

1- Gente que fala difícil: Ora, eu admiro quem tem muito a dizer, sabe pra caramba, domina o mundo com as suas palavras. Sou daquele tipo que baba quando alguém que saca muito começa a metralhar todo seu conhecimento. Agora, se o sujeito fala difícil mas fala exatamente a mesma coisa que eu diria e com ares de ser iluminado pelos deuses do saber, eu fico com ódio. Primeiro porque eu  sou lenta. Sou daquelas pessoas que precisam de um tempo pra entender as coisas e têm epifanias tardias 25 horas depois que ouviu alguma coisa. Então palavras difíceis só servem pra me confundir, e eu odeio ficar confusa por causa de bobagem.  Segundo porque eu tenho inveja da pessoa que consegue se articular tão bem ao ponto de impressionar toda uma plateia impressionável, falando simplesmente um mundo de obviedades. Gente que fala difícil é detestável, mas também tem seu valor. Mas, de qualquer modo, eu odeio quem fala difícil.

2- Gente que  diz que um livro complexo, estudado e criticado por deus e o mundo, é fácil, simples e autoexplicativo:  Deus meu, a pessoa não leu o livro.Tenho certeza. E afirmo isso  porque  ninguém mandou que a pessoa ou - qualquer um  dos outros presentes- lesse o livro. Mandaram que a gente lesse uma outra coisa, um texto menor, mais simples e ainda assim cheio de afirmações complicadas. A pessoa comprou o livro porque não entendeu o que foi pedido, disse que leu sabe deus por que, e eu  fico aqui cheia de ódio porque eu falei duas vezes pra pessoa que não era preciso comprar o livro e ela me ignorou. Ignorou. Deve ser por isso que tô com ódio: detesto ser ignorada.

3- Gente que  não sabe, finge saber e depois vem perguntar na surdina aquilo que fingiu saber:  Não sabe, não entendeu, fala em voz bem alta pra todo mundo saber - ou faz que nem eu, fica caladinha e tenta deduzir qual era o nome daquela pintor do século XVII do qual você nunca ouviu falar. 

4- Gente que não sabe usar a internet a seu favor:  Mentira, eu não odeio quem não sabe usar internet. Eu não sei usar internet. Quem sou eu pra julgar alguém? Eu, que jamais usei a minha conexão velocíssima pra baixar um seriadinho sequer. Eu, que pago minhas compras com boleto bancário porque esqueci a senha do internet bank e não sei usar os serviços de pagamento seguro. No entanto, se alguém me diz: toma aqui o link que eu uso, baixa da internet, entra no Scribd,  já fiz o trabalho todo pra você,eu ouço essa pessoa. Agora me diz: o que leva alguém a se dar o trabalho de fazer as coisas do modo mais difícil? Ok, é uma escolha. Agora, o que leva uma pessoa a fazer as coisas do modo mais difícil e alardear isso como se estivesse realizando o oitavo trabalho de Hércules? Faça escolhas difíceis, mas não faça alarde por causa delas, please. Tô pensando em fazer uma camiseta com essas palavras.

É isso! Coloquei pra fora todo amargor, posso voltar a respirar, posso voltar pro trabalho chatérrimo que eu tô fazendo, posso  chorar porque tenho que conviver com gente chata em vez de só ficar perto dos meus amigos perfeitos. 

Vocês aí que leram esse post até o fim, digam que eu tenho toda a razão, que o mundo é chatão mesmo, que eu sou linda, que  o sol vai brilhar, que o  Thiago Lacerda vai bater na porta da minha casa daqui a pouco.



segunda-feira, 19 de março de 2012

domingo, 18 de março de 2012

Aquela pessoa

Eu tenho um desejo que carrego há anos. Sabe quando você entra num recinto e vê aquela pessoa sentada num canto? Aquela pessoa  com um cabelo estilosamente bagunçado, com um tênis/ sapatilha simpaticamente não muito limpo, óculos legais, um livro cuja  capa você não consegue ver? Aquela pessoa que mal respira enquanto lê, que não dá a mínima se a pessoa do lado dela tá aos berros no celular, que coça a cabeça distraidamente  e pisca ritmado? Eu queria ser aquela pessoa.

Aquela pessoa tem um ar de mistério tão fascinante. Você olha pra ela e fica imaginando que segredos traz consigo. Será que é uma agente ultrassecreta? Será que é  um príncipe se passando por plebeu, igual ao Eddie Murphy naquele filme?Será o próximo amor da sua vida? E você fica sem saber, porque não há menor chance de aquela pessoa puxar conversa contigo. Aquela pessoa nem te nota. Ela só fica lá  lendo, com aquela cara de quem sabe algo que você não sabe.

Eu tenho uma inveja danada dessas pessoas que nem Aquela Pessoa. Eu nunca sou a pessoa silenciosa do recinto. Não consigo ficar dez minutos concentrada num livro. Preciso olhar pra todas  pessoas à minha volta. Preciso perguntar pro coleguinha do lado se ele tá ali há muito tempo. Preciso reparar na cara interessante que a menina lá na frente tem,  analisar  partes do corpo - diferentes da cara ( eu reparo nos braços. E vocês?) -  dos homens que passam.   Preciso abrir um pacote de biscoito, levantar pra encher a garrafa de água, me perguntar mentalmente por que não fui na manicure naquela semana. Preciso ligar pra minha amiga que naquela hora já saiu do trabalho e tá no engarrafamento, abrir o outro livro que eu carrego na mochila mas nunca termino de ler.   Preciso levantar pra ir no banheiro e não fazer xixi nenhum porque tava com vontade mesmo é de me olhar no espelho. Preciso, preciso, preciso fazer qualquer coisa, menos ficar  sentada ali lendo um livro, absolutamente silenciosa.

Nunca ninguém achou que eu fosse uma agente secreta.Era tudo o que eu queria

Mia Couto aos pedaços

" Entre risos e lábios, se entrelaçaram. Pela primeira vez, nessa noite Modari sentiu o morder da ternura. O sabor do beijo resvala entre lábio e dente, entre vida e morte. Lâmina e veludo, qual dos dois no beijo a gente toca? Asfixiação boca a boca: isso é o beijo."

(Trecho do conto A Gorda Indiana, de Mia Couto.)


Coisa boa é esse morder da ternura.

sexta-feira, 16 de março de 2012

Forever Alone Song Club

Tava aqui ajeitando a agenda do meu celular. Eu tenho 2 chips, dois aparelhos e uma agenda muito zoneada. Em tese,  posso me vangloriar de nunca usar a agenda porque sei  de cor o telefone de todo mundo - exceto o da minha mãe ( Freud há de ter uma explicação!). Acontece que ,de vez em quando, preciso ligar praquela colega de trabalho com quem mal falo e, nesses de- vez -em -quando, eu sempre me ferro porque minha agenda é uma vergonha. Há nomes repetidos, números velhos,  telefone de gente que não vejo há séculos, mas o telefone que me interessa no momento jamais está lá.

Mas hoje começa uma nova etapa na história das minhas agendas de celular. Atualizei todos os contatos, coloquei fotos em todos eles e, o suprassumo da organização, atribuí uma música a cada um dos contatos mais importantes. Uma música que me remete imediatamente à pessoa que está ligando. Foi uma tarefa divertida. Tem de Adele a Nelson Gonçalves, passando por  Gaby Amarantos. Devo registrar, no entanto, uma frustração. A música que mais tenho ouvido ultimamente, aquela que cantarolo no chuveiro num inglês sofrível demais,  ficou sem dono:


"Open up your eyes, then you'll realize/ Here I stand with my everlasting love"

Agora, pior que a frustração de não poder atribuir essa música a nenhum dos meus contatos foi o choque de ver  esta versão:



Tem também esta daqui,  daquela banda da qual tento - sem sucesso-  gostar :

Deus me proteja da fúria dos fãs do U2, mas não rola, gente! Só gosto um pouquinho de Beautiful Day.


E a versão original, segundo a Wikipedia:
Curti!

quinta-feira, 15 de março de 2012

Tatiana S. Levy aos pedaços

"Quando ela surgiu, foi como se Fred Astaire ganhasse sentido.(...) Pudesse,eu congelava tudo, Copacabana inteira, para ouvir Marie- Ange cantar, para  vê-la  dançar. Pudesse, eu, que não sei  cantar nem dançar,  cantaria e dançaria com ela. Sempre me pareceu  que a vida deveria ser um musical: quando estivéssemos tristes começaríamos a  cantar, e a dor se esvairia. quando estivéssemos felizes, começaríamos a cantar e seríamos ainda mais felizes ainda. Uma suspensão na vida, como o fundo do mar."

Trecho de Dois Rios, de Tatiana Salem Levy



Porque legal mesmo é ler dois livros bons pra caramba ao mesmo tempo. Deliciosa alternância

Kevin aos pedaços

(...) De cara, ele me acusou: " Você nunca quis me ter". (...)
" Eu achava que que sim", falei. " E seu pai queria desesperadamente."(...)" Ser mãe foi mais difícil do que eu imaginava", expliquei. " Eu estava acostumada a aeroportos, paisagens marítimas,museus. De repente, lá estava eu, confinada sempre nos mesmos poucos aposentos, eu e o Lego."
(...)
" Alguma vez lhe ocorreu pensar", disse ele, de um jeito capcioso, " que talvez eu não quisesse ter você?"
" Qualquer que fosse o casal, você  não teria gostado. Teria achado a profissão deles idiota, fosse qual fosse." (...) Sinceramente, Kevin... será que você  iria querer ter você? Se houver alguma justiça no mundo, um dia desses você ainda vai acordar com você mesmo num berço ao lado da sua cama."


( Trechos de Precisamos Falar sobre Kevin, de Lionel Shriver)


Não consigo encontrar um adjetivo pra esse livro. E ainda tô na página 74.





quarta-feira, 14 de março de 2012

Dia da poesia

"Busque Amor novas artes, novo engenho, 
para matar me, e novas esquivanças; 
que não pode tirar me as esperanças, 
que mal me tirará o que eu não tenho.

Olhai de que esperanças me mantenho! 
Vede que perigosas seguranças! 
Que não temo contrastes nem mudanças,
andando em bravo mar, perdido o lenho.

Mas, conquanto não pode haver desgosto
onde esperança falta, lá me esconde 
Amor um mal, que mata e não se vê.

Que dias há que n'alma me tem posto 
um não sei quê, que nasce não sei onde, 
vem não sei como, e dói não sei porquê. "

Daquele que é O cara, Camões.

terça-feira, 13 de março de 2012

Matando saudade

Se sentir burra não é legal. Óbvio. Mas há pelo menos uma situação em que se sentir burra é maravilhoso. Sabe aquele momento  em que aquele professor que sabe de tudo e  leu de tudo fala de coisas que você só tem  um vaga ideia? E ele fala com uma trivialidade que esmaga as poucas coisas que você acha que sabe. Aí você é obrigada a pensar um cadinho,tem que  fazer umas associações, tem que chegar em casa e procurar um livrinho que você leu há muito tempo.

E o melhor: mesmo depois de ter lido o livrinho, de  ter feito uma associaçãozinha, você ainda é burra, muito burra. Você sabe menos ainda do que imaginava. Agora você só tem um monte de perguntas que parecem bem idiotas. Ai, meu Deus, eu não sei nada. É muito divertido não saber nada! É muito divertido fazer perguntas! Eu tava com muitas saudades disso. 

Que saudade de ser aluna!



segunda-feira, 12 de março de 2012

" Mais as coisas findas (...), essas ficarão"

Há um monte de coisas terríveis nessa vida. Dentre elas: estar perto de alguém que  toma consciência da sua própria finitude. 

Nossos corpos morrem aos poucos, todos os dias, na mesma medida em que vamos vivendo. Estou dizendo o óbvio, claro.  E eu queria dizer o óbvio com palavras bem bonitas que suavizassem o peso dessa verdade. Quem sabe palavras bonitas não fossem capazes de tornar o óbvio mais aceitável? Palavras bonitas que naturalizassem em nós o que é o contrário de sobrenatural.

Estamos todos morrendo e vivendo. Paradoxo é uma figura de linguagem difícil demais de se entender.

Eu não tenho palavras bonitas, mas o Gil tem:


"não tenho medo da morte
mas medo de morrer, sim
a morte é depois de mim
mas quem vai morrer sou eu
o derradeiro ato meu
e eu terei de estar presente
assim como um presidente
dando posse ao sucessor
terei que morrer vivendo
sabendo que já me vou"

(Não tenho medo da morte, Gilberto Gil)

domingo, 11 de março de 2012

Trocando letras

Ei, pessoas! Há aqui em casa uns livros que não vou ler ou reler mais, e eu tô a fim de trocá-los por outros livros.

Se alguém tiver interesse,  me avisa que a gente combina direitinho:

Bubble Gum,  da Lolita Pille.
O meu exemplar não tá novinho porque comprei na feirinha de livros, mas tá inteiraço.

Mulher da Cor do Tango, de Alícia D. Ortiz.

Tá novinho.


O Milagre, do Nicholas Sparks.

Novinho também.

Vale a Pena Viver, O Apelo do Amor e A Casa na Rua da Esperança, da Daniele Steel.



A Casa  tá novinho. Os outros dois são antiguinhos, mas tão inteiros.



Perigo no Hospital, da Mary Higgins Clark.
Comprei em sebo,mas tá  bem conservado.

A Louca da Casa, da Rosa Montero.



Comprei há muito tempo num sebo, então tá com as beiradas amareladas.


História, do Heródoto.


Eu ganhei de uma amiga que herdou da biblioteca do avó de não sei quem. Tá amareladinho, mas inteirinho.

A Cidade e As Serras, do Eça de Queiroz


 Amareladinho também, mas inteirinho.


sexta-feira, 9 de março de 2012

Eu, leitora 3

Eu leio uns 3457230 blogs, mas nem sempre  leio os  posts antigos de todos. Mas aí acontece de, num dia como o de hoje em que tenho que ficar deitada com uma bolsa de gelo na cara ( leia-se: sisos semi-inclusos arrancados na marra), eu entrar num blog legal e ler TODOS os posts de uma vez.

Tão divertido! Já tô me sentindo íntima da moça que mora em Nárnia Molhada e fez bodas de Cúrio.

Cês também leem o passado dos blogs legais?

Eu, leitora 1  e   Eu,leitora 2

P.S.: Eu faltei à aula sobre períodos longos e sua  não contribuição para  a compreensão de um texto.

quinta-feira, 8 de março de 2012

Perdas Necessárias

" Eles, entretanto, não estavam vivos, pensou Harry; estavam mortos. As palavras vazias não podiam disfarçar que os restos dos seus pais jaziam sob a neve e o mármore, indiferentes, inconscientes. E as lágrimas vieram antes que ele pudesse contê-las, escaldantes e instantaneamente congeladas em seu rosto. De que adiantava  enxugá-las ou fingir?  Deixou-as cair, seu lábios contraídos, os olhos fixos na neve espessa que ocultava o lugar onde jaziam os despojos dos seus pais, agora , certamente apenas ossos ou pó, sem saberem nem se importarem que seu filho sobrevivente se achasse tão perto - seu coração ainda palpitando, vivo por causa do sacrifício deles e quase desejando, neste momento, que estivesse dormindo com eles na neve."

( Trecho de Harry Potter e As Relíquias da Morte)

terça-feira, 6 de março de 2012

Eu acho que existem pessoas pelas quais a gente poderia se apaixonar. Poderia. Poderia, mas não vai. Às vezes, a possível paixão é tão evidente que a gente tem que se controlar pra não se rasgar em sorrisos  e se espatifar em ilusões toda vez que essas pessoas aparecem. Eu faço esse exercício todos os dias. Tenho na minha lista dois ou três apaixonáveis - e um favorito dentre eles. Fico bambeada pelo cheiro bom do perfume dele. Fico bambeada quando ele apresenta soluções eficazes pras minhas dúvidas. Fico bambeada porque já me disseram que eu deveria investigar por que a gente se dá tão bem.

Mas eu sei que não vou me apaixonar. Sei lá. Algo no rastro  exagerado que o perfume dele deixa no ar me impede  de me apaixonar. Algo na permanente e excessiva vontade que ele tem de resolver a vida de  todo mundo me impede de me apaixonar. Algo... algo.. alguma coisinha ali me faz ter certeza de que  poderia mas não vou.

Engraçado isso.

segunda-feira, 5 de março de 2012

2012 já é um ano diferente. Pela primeira vez, em 4 anos, não estarei numa sala de aula cheia de pré-adolescentes. Por enquanto, até que eu seja convocada para os concursos nos quais fui aprovada, estou livre do sexto ano. Quer dizer, eu ainda tenho uma turma do sexto, mas são todos alunos da EJA , então tá beleza. Só quem já deu aulas pra pessoas de 11 e 12 anos sabe o tamanho do meu alívio. Não é que eu odeie pré-adolescentes; eu gosto, eles são legais, fofos, engraçadérrimos e te fazem se  sentir especial. Ganho acenos e sorrisos toda vez que esbarro em um dos meus ex-alunos por aí. Eu gosto desse povo, só não sirvo pra ser professora deles. Não tenho perfil, não entendo como funcionam, não sei fazer com que me entendam. Além disso, doçura e paciência não fazem parte do meu cabedal de virtudes, então eu passava o tempo todo desesperada com medo de ser desnecessariamente grossa com uma criança daquelas. E uma professora medrosa é o melhor alvo de birras, malandragens, abusos e bagunças.

Com o pessoal do noturno, o papo é diferente. Para fazer a EJA, é preciso ter mais de 15 anos. Em geral, os adolescentes que chegam  nas salas de aula que frequento são aqueles que não se  deram bem no ensino regular. Não vou entrar na questão do sistema escolar e suas falhas; serei bem rasinha e ficarei no campo pessoal mesmo. Sei bem que o senso comum supõe que as turmas EJA sejam um embuste, uma piada. Já me disseram que EJA significa Esses Jamais Aprenderão. Pode ser que seja uma realidade em muitas escolas, mas na que eu trabalho não é. Eu vou ( e meus colegas também) pra escola pra dar aulas e é isso que eu faço no tempo em que estou lá. Caretice de iniciante? Não. É vergonha mesmo, vergonha de olhar pra cara de um monte de gente que tá esperando algo de mim e simplesmente tratar essas pessoas como idiotas. Tenho certeza de que se vocês conhecessem meus alunos e vissem o quanto são interessados e inteligentes, apesar dos problemas de comportamento, também morreriam de vergonha de dar uma aulinha de merda.

Esse ano, entre meus alunos, estão minha tia e uma menina que foi minha vizinha durante toda a vida. É uma experiência engraçada, mas mais engraçado é minha tia vir me dizer que os alunos da turma dela me acham muito chata. De primeira, eu fiquei chocada. Eu não sou chata, eu sou legal, e fofa, e sorridente, e alegre, e feliz, e meus amigos me amam, e as criancinhas se jogam no meu colo...  Depois,  fiquei pensando que há um lado bom nessa alcunha. Fico feliz se eles me acham chata ( e espero que sejam esses os motivos) porque toda aula relembro a lei que proíbe o uso de celulares em sala de aula, porque não admito que vão embora no meio da minha aula, porque faço milhares de trabalhos em sala,  porque não vejo graça em piadinhas homofóbicas e não tolero nenhuma delas na minha presença, porque não tô nem aí se são 21h30 de uma sexta à noite,  porque tô me lixando pro jogo do Flamengo, porque todo mundo tem que ler um livro no semestre, porque conheço as mentiras inventadas pra conseguir mais prazo pra trabalho...  Bem, é melhor parar de enumerar todas as chatices porque até eu tô me achando um saco. Sou chata mesmo, um saco e não tenho peninha dos alunos. Eles não são pessoas que precisam da minha peninha, não são pessoas que merecem  ser tratadas como se fossem a escória, sabe. 

Cara,  é tão difícil  ser chata. Por mim, eu não aparecia na escola na sexta à noite. Por mim, eu ficaria sentada de pernas cruzadas lendo o jornal, esperando a hora passar. Por mim, eu ficaria postando vídeos no facebook  do celular enquanto os alunos leem um textinho qualquer que escolhi. Corrigir prova pra quê? Lança 10 pros alunos legais e 0 pros perturbados e sejamos todos felizes. Tenho a maior preguiça do mundo. Mas aí eu penso nos alunos, nos seus futuros. É minha responsabilidade se eles  passarem pela escola sem saber as novas regras de ortografia, sem ter lido um poeminha do Drummond. Por mais que muitos deles não se importem, por mais que muitos deles desistam ,por mais que muitos deles retornem muitos anos mais tarde.  Eles sabem da vida deles, das escolhas que fazem. Eu tenho que fazer a minha parte porque eu ganho pra ensinar as novas regras do acordo ortográfico e pra colocar alguma ordem na sala de aula.

É esse o meu trabalho: ser um pé no saco, chata de galocha.



domingo, 4 de março de 2012

Da série: " Eu torço"

Torço por  um mundo com melhores amigos com a cara do Patrick Dempsey:

Torço por um mundo com vizinhos com a cara do Colin Firth:

Torço por um mundo com colegas do trabalho com a cara do Denzel Washington:


Torço por um mundo com motoristas de ônibus e taxistas com a cara do homem da minha vida Tiago Lacerda:

Torço por um mundo com vendedores de sapataria com a cara  do Rodrigo Santoro:

Torço por um mundo com dentistas com a cara do Warrick do CSI:

Torço por  um mundo com admiradores secretos  que se revelam e têm a cara do David Duchovny quando ele era o Mulder ( eu não gosto de Californication):



Torço. Torço muito. Torço fervorosamente.


( Tudo começou com a indignação que cresceu em mim ao ver o filme da Temperatura Máxima de hoje. Não acho justo que  os melhores amigos de filme sejam iguais ao galã de Grey ´s Anatomy! )