segunda-feira, 5 de março de 2012

2012 já é um ano diferente. Pela primeira vez, em 4 anos, não estarei numa sala de aula cheia de pré-adolescentes. Por enquanto, até que eu seja convocada para os concursos nos quais fui aprovada, estou livre do sexto ano. Quer dizer, eu ainda tenho uma turma do sexto, mas são todos alunos da EJA , então tá beleza. Só quem já deu aulas pra pessoas de 11 e 12 anos sabe o tamanho do meu alívio. Não é que eu odeie pré-adolescentes; eu gosto, eles são legais, fofos, engraçadérrimos e te fazem se  sentir especial. Ganho acenos e sorrisos toda vez que esbarro em um dos meus ex-alunos por aí. Eu gosto desse povo, só não sirvo pra ser professora deles. Não tenho perfil, não entendo como funcionam, não sei fazer com que me entendam. Além disso, doçura e paciência não fazem parte do meu cabedal de virtudes, então eu passava o tempo todo desesperada com medo de ser desnecessariamente grossa com uma criança daquelas. E uma professora medrosa é o melhor alvo de birras, malandragens, abusos e bagunças.

Com o pessoal do noturno, o papo é diferente. Para fazer a EJA, é preciso ter mais de 15 anos. Em geral, os adolescentes que chegam  nas salas de aula que frequento são aqueles que não se  deram bem no ensino regular. Não vou entrar na questão do sistema escolar e suas falhas; serei bem rasinha e ficarei no campo pessoal mesmo. Sei bem que o senso comum supõe que as turmas EJA sejam um embuste, uma piada. Já me disseram que EJA significa Esses Jamais Aprenderão. Pode ser que seja uma realidade em muitas escolas, mas na que eu trabalho não é. Eu vou ( e meus colegas também) pra escola pra dar aulas e é isso que eu faço no tempo em que estou lá. Caretice de iniciante? Não. É vergonha mesmo, vergonha de olhar pra cara de um monte de gente que tá esperando algo de mim e simplesmente tratar essas pessoas como idiotas. Tenho certeza de que se vocês conhecessem meus alunos e vissem o quanto são interessados e inteligentes, apesar dos problemas de comportamento, também morreriam de vergonha de dar uma aulinha de merda.

Esse ano, entre meus alunos, estão minha tia e uma menina que foi minha vizinha durante toda a vida. É uma experiência engraçada, mas mais engraçado é minha tia vir me dizer que os alunos da turma dela me acham muito chata. De primeira, eu fiquei chocada. Eu não sou chata, eu sou legal, e fofa, e sorridente, e alegre, e feliz, e meus amigos me amam, e as criancinhas se jogam no meu colo...  Depois,  fiquei pensando que há um lado bom nessa alcunha. Fico feliz se eles me acham chata ( e espero que sejam esses os motivos) porque toda aula relembro a lei que proíbe o uso de celulares em sala de aula, porque não admito que vão embora no meio da minha aula, porque faço milhares de trabalhos em sala,  porque não vejo graça em piadinhas homofóbicas e não tolero nenhuma delas na minha presença, porque não tô nem aí se são 21h30 de uma sexta à noite,  porque tô me lixando pro jogo do Flamengo, porque todo mundo tem que ler um livro no semestre, porque conheço as mentiras inventadas pra conseguir mais prazo pra trabalho...  Bem, é melhor parar de enumerar todas as chatices porque até eu tô me achando um saco. Sou chata mesmo, um saco e não tenho peninha dos alunos. Eles não são pessoas que precisam da minha peninha, não são pessoas que merecem  ser tratadas como se fossem a escória, sabe. 

Cara,  é tão difícil  ser chata. Por mim, eu não aparecia na escola na sexta à noite. Por mim, eu ficaria sentada de pernas cruzadas lendo o jornal, esperando a hora passar. Por mim, eu ficaria postando vídeos no facebook  do celular enquanto os alunos leem um textinho qualquer que escolhi. Corrigir prova pra quê? Lança 10 pros alunos legais e 0 pros perturbados e sejamos todos felizes. Tenho a maior preguiça do mundo. Mas aí eu penso nos alunos, nos seus futuros. É minha responsabilidade se eles  passarem pela escola sem saber as novas regras de ortografia, sem ter lido um poeminha do Drummond. Por mais que muitos deles não se importem, por mais que muitos deles desistam ,por mais que muitos deles retornem muitos anos mais tarde.  Eles sabem da vida deles, das escolhas que fazem. Eu tenho que fazer a minha parte porque eu ganho pra ensinar as novas regras do acordo ortográfico e pra colocar alguma ordem na sala de aula.

É esse o meu trabalho: ser um pé no saco, chata de galocha.



Um comentário:

Daniela disse...

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Poderia ter escrito esse texto. Os meus não dizem que sou chata (pelo menos na minha frente). Mas falam assim: professora, a senhora é muito exigente. Adoro...hahahaha. Sou mesmo.