terça-feira, 27 de março de 2012

Eu, professora / Eu, aluna

Minha prima e eu conversando sobre o meu trabalho.

Eu: Passo o exercício e depois circulo de mesa em mesa, tirando dúvidas. Tem dado muito certo. 

Ela: Você olha o caderno de todo mundo ou só de quem pede ajuda?

Eu: De todo mundo, ué!

Ela: Cara, então não dá pra enrolar na tua aula. Você não tem pena de quem tá com preguiça?

Eu: Não.


***

Quando foi que eu me tornei essa professora que  não dá brecha para que  a galera do fundão dispute uma boa partida de jogo da velha?


Daqui a pouco, estarei dizendo por aí que ódio, revolta, indignação de aluno que não quer estudar não me afeta. Ops! Eu já digo isso!

***

No Ensino Médio,  tive uma professora de Biologia ( você também, Luciana!) a quem eu devo a aprovação no vestibular. O nome dela é o primeiro que me vem à cabeça quando alguém fala em gente que sabe ensinar. Não conheço uma única pessoa que tenha estudado com ela que não diga " Pô, é mesmo, a Fulana é  sinistra". Sim, essa professora é sinistra, nos dois sentidos. Sinistra de boa, de  clara, de capaz de te fazer entender qualquer coisa. E sinistra de má, bruxa, cruel, pavorosa, assustadora. Ou quase isso.

A Fulana era aquele tipo de professora cuja aula ninguém tinha coragem de faltar, cujos exercícios ninguém ousava deixar de fazer. Até respirar era uma coisa complicada na aula dela. A gente,claro, não tampava os narizes durante a aula, mas fazia um esforço danado pra que nenhuma parte do nosso corpo se mexesse nesse processo. Deu pra sentir o nível de sinistrice da mulher, né?

Daí que um dia desses, andando no Centro, esbarrei na Fulana. O tempo parou. Meu primeiro impulso foi cometer aquele crime típico de ex-alunos: eu já ia me aproximar, dizendo " oi, fui sua aluna no..."  Claro que ela não se lembraria de mim, claro que ela ia me dar aquele sorriso neutro de professor que não sabe quem é aquela pessoa que veio falar com ele, mas eu não ia me importar. Eu queria era só dizer oi pra ela, só isso. No entanto, um raio de lucidez partiu meu impulso ao meio e eu me lembrei que aquela não era uma professora qualquer, aquela era a Fulana.  Todo pavor, medo, terror que eu tinha dela há 11 anos voltaram de uma só vez e tomaram conta do meu corpo. Eu olhei cautelosamente praquele rosto  e identifiquei a mesma sisudez que eu conhecera  outrora.  Fiquei lá paralisada, no meio da rua, com a mesma postura de respiração presa que adotava nas aulas, e deixei que ela fosse embora.

Depois, contei pros colegas que também foram alunos da Fulana que eu tinha visto ela, e ficamos tentando lembrar o que de tão terrível aquela mulher fazia na sala de aula pra que a gente tivesse tanto medo. Ninguém consegue se lembrar. As aulas dela eram fantásticas, as provas perfeitamente justas, as dúvidas eram tiradas sem dramas; eu particularmente lamentei que ela não fosse nossa professora no ano seguinte. Mas o meu medo, gente, o que eu sentia na sala de aula e o que eu senti naquele dia na rua, era legítimo, tá?

2 comentários:

Luciana Matos disse...

EU LEMBROOOOOOOOO!!!!!!!!!
Caraca a mulher era o cão! Bruxa de tudo, má, cruel, crudelíssima!!!!!
M<e lembro de um dos alunos ir perguntar alguma coisa pra ela e ela responder(não sem antes fazer uma cara de desprezo profundo pelo pobre garoto):
-Você não estudou? Se estudou sabe. Se não sabe é porque não estudou e nesse caso eu só lamento.

Odiava com todas as minhas forças!
Se encontro com ela digo: -E aí, continua muito má, maltratando as pessoas? (brinks!) rs!
mas que ensinava bem não se pode negar.

beijo!

Juliana disse...

Luuuu, eu sabia que vc ia dizer que ela era má!kkkkkkk

Tee uma vez em que ela entregou as provas corrigidas. eu tava desesperada, morrendo de medo da nota. Aí ela entregou e eu tinha tirado 9,5. Impulsivamente, soltei: " caraca, não acredito" bem na frente dela. Ela me olhou com aquela cara de bruxa, gélida, e disse: " tá surpresa? tá achando a nota muito alta? posso corrigir novamente e tirar uns pontos"

eu quase morri.