sexta-feira, 30 de março de 2012

Filhos Eternos

Estou lendo Precisamos falar sobre Kevin num ritmo bem lento.  Tem faltado tempo, vontade e estômago. O tempo e a vontade têm sido consumidos um pouco pelo trabalho, um pouco pela preguiça. Nesse meio tempo, li dois outros livros que recomendo à beça: Dois Rios, da Tatiana Salem Levy, e o Contos do nascer da terra, do Mia Couto.

 Essa leitura de Precisamos Falar me  remeteu imediatamente a um outro livro sobre maternidade/ paternidade, O Filho Eterno. Citei um bocado esse livro por aqui, mas nunca consegui escrever um texto mais organizado. Minha dificuldade se deve a uma necessidade que certos livros despertam em mim, a de decantá-los cuidadosamente ao longo do tempo.  O Filho Eterno revirou minhas entranhas. Terminei o livro em meio a um monte de lágrimas, mas as lágrimas não bastaram pra resolver as angústias despertadas.  O Filho Eterno, como eu já comentei aqui, é um espécie de relato autobiográfico em terceira pessoa   de um cara de 28 anos, um zé-mané pretensioso, que  se vê diante de um filho com síndrome de Down. Pra início de conversa, o texto é a coisa mais linda do mundo. Eu sei que é " coisa mais linda" é um elogio clichezento, mas é isso mesmo. Você vai lendo e vai tendo um treco diante de tanta beleza, de tanto talento pra juntar palavras.Cristovão Tezza é um escritorzaço - um escritorzaço que escreveu um livraço.


 O Filho Eterno cavouca nossas entranhas porque toca naquele ponto sensível que o verniz social encobre tão bem com discurso de comercial de fraldas. Pra que serve ter um filho? O que se faz com uma criança que não corresponde às suas projeções? O que se faz com uma criança que sempre vai ter limitações? O protagonista de O Filho Eterno passa por um doloroso processo ao se dar conta de que o filho que ele imaginava a prova viva de sua própria perfeição e talentos é diferente das outras crianças. Aquela criança com Síndrome de Down não se encaixa - e jamais se encaixará- nas expectativas que foram construídas. E o que torna o livro extraordinário   são justamente as expectativas frustradas, a necessidade de confrontação com a realidade, o percurso que vai na contramão do amor espontâneo e natural que se espera dos pais e mães. Ao fim da última página, eu tive a certeza de que eu não sei nada sobre amor. Os filmes e os comerciais de pomada pra assadura não sabem da missa a metade.

Como vocês sabem, no início de fevereiro, meu primo e afilhado nasceu, e eu tenho acompanhado de perto a vida desse menininho. E eu ando deslumbrada com a realidade de uma criança pequena. Não existe fase da vida em que a gente seja mais autêntico, menos preocupado em ser o que não é. Claro que eu tô falando de um bebê, claro que eu estudei um cadinho das fases de desenvolvimento das crianças, não é disso que eu tô falando. Eu tô falando é do quanto meu primo é muito ele mesmo e nadica de nada parecido com que eu esperava. Ele só sorri pro pai dele, o homem que está com eles nas madrugadas. Ele só sossega no colo quentinho da mãe que o alimenta. Não importa que toda a família compre presentes, brinquedos, um pedaço da lua; Vinícius não se importa com a gente, ele existe pra além dos nossos desejos e ele esfrega essa realidade na nossa cara todos os dias.

Ao ler Precisamos Falar sobre Kevin ( eu tô bem no começo), penso em Vinícius e em seus pais. Vejo de perto que ter uma criança dá muito trabalho, exige grana, exige comprometimento, exige a compreensão de algo muito bizarro: você faz uma pessoa, carrega dentro do seu corpo aquela pessoa e aquela pessoa não é você nem é sua.  Um filho é uma coisa danada de complexa.Dia desses, eu perguntei pra minha prima como era amamentar. Ela reclamou muito de dor no início, e eu fiquei chocada. Ninguém te conta que amamentar dói. Aí ela sugeriu que eu fizesse uma experiência: segurar meu mamilo entre o polegar e o indicador e apertar com força. Ela disse que as primeiras mamadas foram assim pra ela. Bem, eu teria passado muito bem sem esse pequeno experimento.   Virar  a única fonte de alimentação de uma pessoa é um troço muito complexo, gente! Muito!

Em um dos trechos do Precisamos Falar, a mãe de Kevin evoca uma imagem para a gravidez que me deixou bem chocada. Ela diz que os filmes de alienígena tão aí  mostrando a gravidez como o meio de os invasores se reproduzirem e dominarem a humanidade. Ela faz uma citação a Arquivo X, e imediatamente me veio à mente a  cena que já assisti milhares de vezes. Num episódio  da sexta temporada, um homem é encontrado morto no sofá de casa, com um rombo enorme da barriga. Ele tinha sido contaminado pelo vírus alienígena ( ficção científica, galera! Calma!), o ser foi gestado na barriga dele,  se alimentou dele e depois partiu, deixando o corpo do hospedeiro morto. Uma cena horrível. Essa foi a imagem escolhida pela mãe do Kevin ao falar sobre gravidez. Dá o que pensar, né?

Bem, eu tenho a impressão de que esse post tá uma bagunça só. É , tá mesmo! Eu tô aqui ajeitando a minha cabeça , que ficou muito mexida meses atrás pelo livro do Cristovão Tezza e volta a ficar mexida pelo livro que todo mundo tá lendo. Precisamos Falar sobre Kevin é um romance espistolar - a gente lê as cartas que a mãe do Kevin escreve para o pai do menino depois da prisão do garoto. Kevin está preso porque cometeu um crime nos moldes de Columbine: entrou na escola armado e matou vários colegas e professores. E eu acho incrível que a gente conheça essa história pelo ponto de vista da mãe, do ponto de vista da mulher cujo filho dar corpo ao fracasso de todos os seus projetos maternais.Lendo o livro da mãe do Kevin, eu só consigo pensar no título do maravilhoso, incrível, extraordinário livro do Tezza. Que filho não é eterno,né? Acho que não existe nada mais eterno que um filho.




4 comentários:

Cheshire cat disse...

Você assistiu ao filme "Precisamos falar sobre Kevin"? Se não, não vou estragar, mas só digo uma coisa - vai demorar para aparecer outro filme tão tenso. E foi tensíssimo porque pra mim é uma coisa que faz total sentido - um filho que não corresponde à suas expectativas. Pode acontecer. Se bem que no caso do Kevin a mãe em si nunca o quis, nunca criou expectativas de verdade, sei lá. Taí um assunto que dá uma discussão sem fim.

Páginas Da Minha Vida disse...

menina, eu li e assisti ao " Precisamos falar sobre Kevin",e é um enredo muito complexo, mas preciso dizer : foi o melhor livro que já li até hoje!
é um livro que joga a verdade nua e crua : nem todas as mulheres nasceram para ser mãe,coisa esta que a sociedade condena porque não entende.enfim, tudo o que eu disser desde livro pode estragar a surpresa ( e você disse que está no início,olha, você vai ter imensas surpresas).

bjs

Juliana disse...

tô na página 100 do livro e não vi o filme. Não pretendo ver antes que termine o livro.

Letras Saltitando disse...

To lendo "Precisamos Falar sobre Kevin" e olha... QUE HORRIVEL, nao dá vontade de ter filhos!