terça-feira, 29 de maio de 2012

No sétimo filme do Harry Potter ( o único da série que me comove e empolga), há aquela cena em que o trio principal tá subindo a colina em direção à casa da Luna.  Harry pergunta pra Hermione se ela ainda tá com raiva do Ron. Quem conhece a história sabe que Hermione tem toooodos os motivos do mundo pra estar com raiva do Ron. Aí a Hermione responde :" Eu sempre tô com raiva dele!".Eu tava aqui tentando achar um jeito de explicar como tenho me sentido em relação ao meu trabalho, e eis que me lembrei dessa cena. Não é nenhum spoiler dizer que  Hermione e Ron vivem aquele arranca-rabo clichezento de quem gosta muito mas prefere brigar. Não sei se amores assim existem fora dos livros adolescentes, mas esse " Eu sempre tô com raiva dele" combina muito com o que sinto quando penso no meu trabalho. Todo ano é a mesma coisa: chegam as turmas, gosto  mais de umas  do que de outras, preciso bancar a bruxa má com todas elas, descubro minhas preferências e depois os alunos vão embora. Vou lembrar de alguns, esquecer de outros. Sempre assim.

Ando muito de saco cheio da sala de aula. Eu tô sempre de  saco cheio. Não tô com paciência pra entender que aquele pessoal é adolescente, que a aula de português não é a razão da vida deles, que muitos passaram por tantos fracassos na escola que já entraram na rotina da preguiça e da rebeldia. Há dias em que quero que uma bomba caia na escola! Claro que uma bomba que não cause mortes nem escombro. Queria apenas uma bomba que satisfizesse minha vontade de explodir. Uma bomba abstrata, carregada com toda a minha má vontade , incompreensão e preguiça. Seria uma bomba potentérrima!

Mas tem o outro lado. Aquela escola tá cheia de gente de quem eu gosto. Há uma turma lá, confesso, que é a minha favorita. A relação entre mim e essa turma começou torta, seguindo à risca a tradição de chatice e presepada do nono ano. Sempre é assim: os adolescentes vêm com rebeldia, eu venho com " coloquem-se no seu lugar , a professora aqui sou eu", passo umas semanas de cara fechada, eles se assustam um cadinho e , em algum momento, aquele monte de aluno chato se transforma em um monte de gente legal. Essa turma específica se transformou numa turma maneira e numa turma que aprendeu as novas regras de ortografia. Me transbordo de orgulho toda vez que penso que eles aprenderam direitinho o novo acordo, sabe?  Eles revisaram reportagens de sites engomadinhos,  pegaram a manha do uso do hífen e até me corrigiram quando escrevi uma palavrinha com trema no quadro. As notas de quase todo mundo são bem altas, eles reclamam horrores mas fazem tudo o que eu passo. Cês precisavam versões " final feliz" de Quadrilha , do Drummond, que eles escreveram! Não é o paraíso, mas eu gosto de estar nessa sala de aula.

Na EJA, o ano letivo é de seis meses. Essa turma legal tá indo embora  em julho. Eu pergunto toda aula quais são os planos deles. A maior parte pretende sobreviver ao primeiro ano do Ensino Médio, pra começar. Já é um plano. E eu, exalando toda pieguice que me é peculiar, fico querendo que eles sejam felizes, que fiquem bem, que me convidem pra formatura do Ensino Médio, que ganhem um prêmio Nobel.Já pensou se um deles ganha o prêmio Nobel, vai escrever o discurso de agradecimento, aí se lembra daquela professora de  voz estridente que dizia que saber escrever " antiético" é mais importante que respirar? Que grande emoção seria! Vou ali pegar uns lenços só de imaginar!

Nossa senhora dos professores desmotivados, seja bondosa comigo no semestre que vem.

2 comentários:

Rita disse...

Você viu o vídeo que divulguei no blog esses dias, com a Viviane Mosé falando dos desafios da educação? Conhece os papos do Ken Robinson, né? Se eu ainda estivesse em sala de aula, acho que iria me agarrar à barra da saia desse povo aí.

Acho que o último livro de Ken se chama The Element (não sei se já tem em português) e trata de motivação, paixão, empolgação, essas coisas que, segundo ele, fazem a criatividade vir à tona. Sei lá, fui lendo seu post e pensando nisso.

Bjs
Rita

Deise Luz disse...

Ju, breve vou te fazer companhia nesses lamentos aí. Fui nomeada no concurso público aqui da Bahia, volto a dar aula assim que a greve dos professores acabar.

No momento estou apenas animada por finalmente voltar a trabalhar, por saber que vou estar numa escola perto de casa etc, mas eu bem lembro de toda a angústia e das dúvidas que eu sentia no ano passado.

De um modo geral, o sentimento que eu tenho sobre educação como profissão é que tem lá os seus bons momentos (também me apego a algumas turmas, torço por eles e tal), mas acho que não é algo que eu vá querer fazer por muito mais do que uns cinco anos. É desgastante demais.

Obs: vou anotar essas dicas da Rita aí de cima.