terça-feira, 25 de setembro de 2012

Eu tava na sexta série e era louca pela professora de português. Achava o máximo tudo que a professora dizia, por isso prestei bastante atenção no que ela disse sobre A Hora da Estrela. Ela disse que era seu livro favorito, o primeiro que tinha lido na faculdade. Segundo a professora,  o livro contava a história de uma moça que tinha um momento de glória ao ser atropelada por um carrão.

Anos mais tarde, encontrei o livro na biblioteca da faculdade. Imediatamente me lembrei da professora e do que ela tinha dito. Peguei o livro ansiosa, esperando encontrar uma linda história de amor, na qual a mocinha encontrava o seu príncipe encantado depois de um atropelamento.Rá! Rá! Rá!  Eu não tinha ideia de quem era Clarice Lispector àquela altura, como vocês podem perceber.

***

Houve um tempo em que dei aulas pra pré-vestibulandos. Foi a primeira vez que encarei uma turma enorme, mais de 70 adolescentes numa sala . Não gosto de cursinhos e espero não precisar voltar a trabalhar neles, mas esse curso da turma de 70 alunos tinha uma proposta legal, estava ligado a uma universidade e tal. Daí que eu dava aula de literatura, e, num dia qualquer, comecei a falar de Madame Bovary.

Li Madame Bovary há muuuuito tempo. Li porque mandaram, porque fazia parte de uma disciplina, mas caí de amores pelo livro na época. Na verdade, caí de amores por Emma. Eu queria ser amiga da Emma e dar uns conselhos pra ela. Eu morria de empatia por Emma, as dores e angústias dela eram minhas. Emma   c´est moi! Emma c´est moi! Meu coração se espatifou em mil pedacinhos naquela passagem em que Emma chega à casa que vai ser dela após o casamento. Acho que até chorei quando li essa parte.

Daí que eu falei, falei, falei de Madame Bovary pra essa turma de pré-vestibular. O que eu falei? Não tenho ideia, não lembro. Provavelmente, usei o livro pra exemplificar algum conteúdo, sei lá. Só que eu falei um bocado sobre o livro, toda empolgada e animada, transferindo pros alunos toda a minha paixão. Na semana seguinte, duas alunas vieram falar comigo; tinham um exemplar de Madame Bovary na mão. Queriam saber se tinham pegado o livro certo na biblioteca, se havia algum outro Madame Bovary, porque aquele que elas tavam lendo não era legal como o livro que eu havia falado em aula.

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A Hora da Estrela é bom, mas não é Clarice em sua melhor forma. Pra me apaixonar por ela mesmo, precisei passar por Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres e por Perto do coração selvagem. Recentemente, reli Uma aprendizagem e não me vi tão arrebatada quanto na primeira leitura. Perto do Coração Selvagem, por outro lado, ainda me arrepia os pelinhos do braço.


Madame Bovary é um livro que não quero reler, por puro medo de me desencantar.

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Essas histórias vieram pra superfície da minha memória porque estou aqui às voltas com uma constatação um tanto óbvia ( mas que só agora tô compreendendo bem): o professor é um sedutor, né? Sedutor, vendedor de feira, malabarista de sinal, encantador de serpentes, muso e vendedor de livros.





6 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

o post não é sobre isso, mas eu queria dizer que eu <3 todos os livros que você mencionou e releio sempre e gosto de me reencontrar na leitura e saber-me outra.

Enfim, eu sou dessas professoras que passa tempos falando empolgada de um livro ou filme...

Annie Adelinne disse...

A minha professora da oitava série sempre me indicava livros. Até então eu tinha terminado com a seção de infanto-juvenil da biblioteca da escola (11/12 anos, né?) e ela me apresentou livros maiores e mais... adultos. Foi ela quem me indicou Incidente em Antares e Se Houver Amanhã, e a partir daí eu lhe mostrava todas as minhas escolhas literárias. Foi a melhor professora de português que eu já tive. (No quesito literatura, porque sobre lingua portuguesa mesmo eu tenho uma favorita no 3º ano do EM).

Rita disse...

A última vez que falei empolgada sobre um livro em sala de aula o aluno me pediu o livro emprestado e sumiu com ele. Era Do Amor e Outros Demônios, do Marquez.

Bj
Rita

Tati disse...

Eu tinha aula com um professor de literatura que era monstruosooo!!! Quando ele falou de A paixão segundo G.H. na sala, teve uma hora que nossas caras estavam tão assustadas que ele teve que parar e falar: Pessoal, é só uma história, é ficção tá? Mas acho que eu já intuía e ele sabia de certeza que não era só ficção né! A Hora da Estrela ainda é meio que um xodó meu, porque foi o primeiro livro que eu li de Clarice. A porta de entrada para o universo que me transformou, digamos assim. Mas estou relendo os livros dela agora e o que mais me arrebatou foi Água Viva, que não tinha me arrebatado da primeira vez. As belezas da literatura...
Ah, e também não vou reler Madame Bovary. Vou ficar com a Emma que eu acreditei ser eu!
Beijo,
Tati

Tina Lopes disse...

Não tem como desgostar de Madame Bovary, gente. E nem do filme. Revi outro dia e ai, meu coração.

Andrea disse...

Lembro de uma professora de cursinho comentando do Nove Noites do Bernardo Carvalho, que caiu em um vestibular. Ela falou tanto desse livro, tanto, que até hoje eu tenho vontade de lê-lo, mas não tenho coragem suficiente. Não creio que ele possa ser tão bom quanto ela pregou. :D