domingo, 18 de novembro de 2012

Brincando de resenhar

Vou pouco ao cinema porque tenho preguiça. Mas era feriado, o amigo disse que o filme era bonito, tinha companhia, então fui. Não estava nos meus planos  gostar de Gonzaga - De pai para filho , mas eu  gostei. E, olha, tive de esperar os créditos acabarem, os espectadores todos saírem, antes de levantar após o término do filme. Pensei em me esconder embaixo duma poltrona daquelas até que os meus lábios desinchassem. Não conheço ninguém que chore com elegância, mas eu me supero. O choro intenso detona com a minha cara: os olhos pequenos somem ainda mais, o beiço incha, fica enorme mesmo, coça. Uma calamidade. O danado do filme me desidratou.

Gonzagão é um continente imenso nos domínios da minha memória afetiva. Aos cinco anos, eu formava com ele e minha vó um trio improvável. Ele na vitrola, minha vó no tanque, e eu com meu microfone imaginário, girando e dançando pra minha plateia imaginária. Sempre estive no Rio de Janeiro, nascida, criada; eu abro a boca e todo mundo sabe de onde eu vim, no entanto, as lembranças da minha infância remetem a uma saudade que Gonzagão inventou pra mim. Eu cantava um Sertão que nunca vi. Morria de pena do Assum Preto, cujos olhos foram furados, sem nem saber o que era um Assum Preto. Levei anos pra entender do que Asa Branca, a música mais linda do mundo, falava. Gonzagão, muito antes de ser o Rei do Baião, é um rei pra mim. Deu pra sacar o nível de amor? Muito amor. Mas eu não sabia nada do Gonzagão de carne  e osso, não tinha ideia de como era  a relação dele com o filho; Gonzagão era só o moço com chapéu legal na capa do disco de vinil.

De  pai pra filho não é um filme primoroso. Já li em algum lugar que a película ( ai, que chique!) beira o dramalhão, é didática demais, parece novelão. Concordo, na medida que meu nulo conhecimento de cinema permite concordar, mas quem liga pra didatismos e defeitos quando uma história linda tá sendo contada? Bem, talvez "linda" não são seja o adjetivo adequado, " humana" me parece mais certeiro. O filme faz  mais que nos apresentar a trajetória de um pop star; De pai pra filho mostra as entrelinhas da relação fundamental entre um homem e seu filho; relação essa que não pode ser negada, ainda que se estabeleça na ausência. A gente conhece o Gonzaga homem, o seu passado, as suas escolhas, os seus erros, tudo aquilo que vai determinar os caminhos do relacionamento dele com o filho. E não há como não sentir empatia por dois homens que viveram do jeito que souberam viver, frutos de suas épocas, iguaizinhos a mim e a vocês. Não há também como  não se emocionar com o amor que um sente pelo outro, com a  dureza que permeia essa relação, com a maturidade que permitiu que esses dois homens aprendessem a seguir juntos.



Ô, gente, vão ver o filme. Não sei se vocês vão morrer de chorar como eu, mas duvido que não vão ficar tocados  pela história. Pros chorões, aconselho passar na farmácia antes e comprar um lencinho de papel. Alguém aí já viu?



P.S.: Eu fiquei particularmente arrepiada com a representação da relação do Gonzagão com o pai e com o modo como a música Respeita Januário foi inserida no filme. Olha, os olhos embaçaram de um jeito...


Update
Só pra quem viu o filme:



4 comentários:

Tati disse...

Que linda sua resenha Ju (brincou muito bem, por sinal!). Eu sou suspeita pra falar desse homem, tb desidratei de chorar no filme. Mas muito bonita sua história e suas lembranças. Adorei principalmente o trecho em que você fala da saudade de um sertão que você só conhece através das músicas dele... Querendo conhecer ele de verdade, estamos aqui à disposição ;)
Beijo enorme,
Tati

Juliana disse...

ahhhhh, Tati, que bom que vc gostou da minha " resenha". Tenho a maior dificuldade pra falar de livros e filmes. No caso específico desse filme, eu queria escrever muito mais, muito melhor.



Rita disse...

Não sei o que estou esperando, não sei porque ainda não fui ver, correndo. Mas vou, vou. E acho que vou chorar mais que você. :-)

Bj
rita

Clara Lopez disse...

Muito fina sua leitura do filme, muito sensível, acho que todos que os pés na infância coberta pela música do gonzaga, choramos.
um abraço, clara