domingo, 25 de novembro de 2012

Tal qual Otelo

Se gênios da lâmpada existissem  e um deles viesse me visitar, eu imediatamente saberia o que pedir. Seu Gênio da Lâmpada, me livra desse fardo que é o ciúme; um coração leve e livre é o que eu mais desejo. Obrigada. Sou ciumentíssima, confesso. Sempre confesso. E não me orgulho. Ciúme não é bom, não é bonito e dói - como dói. Uma pessoa ciumenta, por mais elegante, educada, equilibrada que seja, nunca respira macio; o ciúme acelera as coisas dentro da gente, descamba com tudo, ainda que silenciosamente. Odeio ciúme, odeio ser ciumenta. Mais uns dez anos de análise pra mim.

Daí que semana passada Paulo Victor veio aqui pra casa. Paulo Victor ama passar feriados aqui em casa. Tem o vídeo game do marido da prima, tem a rua tranquila pra soltar pipa, tem os mimos e surpresas da vovó, tem o meu celular e seus jogos retrô. Paulo Victor não acredita que eu jogava PacMan quando era criança. Na verdade, suponho que ele nem consegue acreditar que já fui pequena  como ele, mas enfim. Junto com Paulo Victor, veio também Vinícius e sua mãe. Quer dizer, Vinícius e a mãe moram mais perto, tão sempre aqui, mas,quando Paulo Victor vem, Vinicius e a mãe vêm mais. Paulo Victor adora que eles venham, gosta de morder a barriga de Vinícius, fica todo besta quando Vinícius, do alto dos seus 9 meses de vida, se joga no colo dele. Eu entendo, eu também fico. Mas de uns tempos pra cá, o elétrico e adocicado  Paulo Victor não tem sido tão adocicado assim quando Vinícius tá por perto. O doce vira mau humor dos brabos, e de vez em quando escapa um " ninguém tira foto minha", " Ju, me pega no colo também", " eu cheguei e ninguém falou nada". Uma chatice. Aí minha mãe matou a charada: Paulo Victor tá  com ciúme do Vinícius! Como é que eu nunca tinha pensado nisso? Justo eu, tão cheia de ciúme, não tinha me dado conta de que a chatice era o modo de dizer " ei, não tô me sentindo amado o suficiente!".

Me peguei aqui tentando achar um jeito de explicar pro Paulo Victor que não é preciso se sentir menos amado porque outra pessoa chegou. Que  a gente ama muitas pessoas ao mesmo tempo. Que amor não precisa de advérbios de intensidade nem comparações. (bem, essa do advérbio é furada porque Paulo Victor mal sabe o que é uma sílaba.) Que bebês deixam a gente meio deslumbrado, mas que meninos de 6 anos são ainda mais interessantes, com suas piadas, suas tiradas, suas descobertas, sua energia infindável. Que Vinícius é de uma lindeza sem fim, mas cansa, irrita, dá preguiça tanto quanto meninos de 6 anos que choram pra não tomar banho. Que, oras, o nome disso que ele sente é ciúme  - o mais descabido dos sentimentos. 

Como eu sou hipócrita, vejam só. Quero que um menino de 6 anos entenda aquilo que  nunca me ocorre  quando me pego chafurdando no  esse amor não basta, a minha parcela de amor é sempre a menor mesmo, vou me trancar aqui e nunca mais amar ninguém. Meus 28 anos não me tornam mais esperta; os 6 anos de Paulo Victor não tornam os sentimentos dele menos lícitos.  Como é duro ser gente, às vezes!


3 comentários:

Annie Adelinne disse...

Acho incrível como você consegue tornar o fato mais corriqueiro da vida em algo tão interessante.


A propósito, alguns ciúmes são mais justificáveis que outros, né? =P

Lilian disse...

Ciúme is a bitch. Sou muito ciumenta também e entendo o seu sofrimento. Mas no meu caso é mais como 'a pessoa vai encontrar alguém mais amável do que eu e vai me deixar pra trás'. Não é fácil, viu.

Palavras Vagabundas disse...

Ju,
sinceridade é tudo!Coitadinho do Vinicius com a explicação da tia Juj, rs
bjs
Jussara