quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

"Quem te conhece/ não esquece jamais"


antes de ler: eu sempre namoro  a pieguice, mas devo avisar que o  nível de açúcar desse post atingiu a estratosfera.


A Jussara pediu num comentário do post anterior que eu falasse mais  de Tiradentes. Pois bem,  um pedido de Jussara é uma ordem por aqui. Um post sobre Tiradentes faz parte  dos meus planos desde que coloquei os pés em casa, mas , ó, o cansaço anda me vencendo. Além disso, os efeitos de Tiradentes são de ordem tão abstrata que não sei se sou capaz  de me fazer entender, mas vou tentar.

Os dois últimos meses foram pesadinhos. Novo trabalho, novas escolas, novas pessoas, choques de realidade, adaptação. Eu ando cansada e precisando de amor. É que não cabe entrar em detalhes aqui no blog, mas imaginem filme americano sobre escola complicada; então, é por aí - ou talvez pior, porque eu não tenho talento pra heroína de película de superação. Mas, por outro lado, eu tô feliz comigo, com o modo elegante e razoavelmente equilibrado como estou lidando com as novidades. As coisas se ajeitam, a gente encontra saídas e soluções, tudo se acerta. E mais: meu trabalho é o meu trabalho, eu sou eu - duas coisas bem distintas. É importante ter isso claro na minha cabeça, porque aí eu me lembro de que não tô no mundo pra arrastar correntes e bolas de ferros. 

No entanto, apesar do razoável equilíbrio,  ando cansada, contando nos dedos os dias que faltam pro fim do ano. Ainda é novembro por aqui, como vocês sabem. Aí decidi usar os poderes que a idade adulta nos oferece: fui pra Tiradentes tomar capuccino. Estávamos minha amiga e eu no shopping, procurando um capuccino decente e não achamos. Virei pra ela e disse: "Vamos pra Ouro Preto tomar aquele capuccino bom?" Ela topou, Ouro Preto se transformou em Tiradentes, ela reservou a pousada que tinha as fotos mais bonitas, eu fiz uma mala com  3 blusas, uma calça, um vestido e fomos. Nós não esperávamos de Tiradentes nada além de um capuccino decente. E , vejam bem, há um mundo de significados nesse desejo por capuccino. Não somos tão frívolas assim.

Eu estou aqui no Rio de Janeiro, vocês sabem, na região metropolitana  de uma das maiores cidades do mundo. Nascer e viver  no Rio e nas cidades da região metropolitana significa muitas coisas, dentre elas carregar uma certa truculência disfarçada de despojamento. Somos despachados, caras de pau, gostamos de sol e praia, andamos de chinelo no shopping, mas não somos gentis. Eu não vejo gentileza em mim nem nos meus conterrâneos. Daí cheguei em Tiradentes saturada desse modo de ser, aterrada pela dureza das relações difíceis num espaço problemático como a escola e fui abraçada ( não consigo encontrar outra palavra) por aquela cidade silenciosa, mansa, delicada. Tudo em Tiradentes é delicado: as casas, as ruas, os aromas que escapolem pelas portas dos restaurantes, as lojinhas de lembrancinhas, as pessoas. As pessoas de Tiradentes encheriam o Profeta Gentileza de orgulho. Você chega e um mundo de simpatia se despeja sobre você. As vendedoras das lojas não te olham feio porque você não quer comprar o paninho de prato da loja. Os garçons não jogam os pratos na tua mesa.  E mais: uma cidade tão pequena, num período de baixa temporada, pode dar conta de se lembrar de duas mulheres um tanto barulhentas e encantadas que já passaram umas dez vezes naquela esquina em menos de 2 horas. Recebi mais bom-dia nos 3 dias que passei lá do que nos últimos dois meses.


Tiradentes é pequenina -  8 mil habitantes, segundo a moça da chocolateria. E linda. O sol derrama uma luz  diferente sobre aqueles prédios antigos. O céu da noite é uma absurdo de estrelado; as estrelas parecem mais baixas e eu , uma romântica admiradora de estrelas, fiquei contando todas elas. E há tanto silêncio que se ouvem grilos na rodoviárias, o barulho da chuva, o som da própria respiração na hora de dormir. A gente está  aqui acostumada com o grande, o enorme, o barulhento, aí vem Tiradentes e te dá a beleza da miudez.




 Há também o capítulo especialísssimo das comidas: nunca comi tão bem. Do espetacular pão de queijo da pousada, passando pelo estupendo tutu ( e baratíssimo) do Bar do Celso e chegando ao feijão tropeiro do Restaurante do Padre, não comi nada que não fosse MUITO BOM. Ah, claro, encontramos o capuccino que queríamos: decente, decentíssimo, o melhor que tomei até hoje. O capuccino perfeito é servido numa loja especializada em rocamboles tão bonitos que quase me fizeram reconsiderar a minha aversão a doce deleite. 



Tiradentes me deu a chance de sentar na praça, numa noite quente  e estrelada, e planejar festas hipotéticas.  Me deu a vista  do sol se escondendo todo laranja e lindo naquele céu de nuvens densas. Me deu risadas e  uma pizza FABULOSA, sem hora marcada pra voltar, sem buzinas e apertos. Me deu a lembrança das moças legais da loja cheirosa que me ensinaram um macete pra fazer render o sabonete que comprei. Tiradentes me deu o presente da delicadeza.

 E eu já tô cheia de saudade.

Muita saudade.





10 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Ju,
já estive três vezes em Tiradentes e sempre me senti abraçada por ela. Entendi perfeitamente seu encantamento, andar pelas ladeiras, olhar as montanhas, as árvores, os ipês estavam floridos?Tiradentes fica linda com os ipês floridos!
Sempre penso em romance na cidade, amantes se encontrando nos becos, as moças dreitas olhando pelas frestas das janelas, as esposas a rezar nos oratórios da rua!
Aí que saudade!
bjs
Jussara

Cíntia Ribeiro disse...

Até fiquei com vontade de conhecer Tiradentes! Eu gastaria a metade do tempo que vocês gastaram pra chegar, mas nunca fui. Não exatamente fã do interior de Minas, quando vou é pra passar um dia só.

Adoro rocambole! Adoro doce de leite! Só o capuccino que eu dispenso, me proibí de ingerir cafeína pelos próximos 150 anos.

Felipe Fagundes disse...

Ju, você é tão fotogênica! Você sai toda feliz nas fotos, dá vontade de te abraçar junto com a cidade rs

Como comentei, eu queria saber viajar assim que nem você, conhecer esses lugares diferentes do que a gente vê todo dia. Pessoas diferentes, costumes diferentes, coisas diferentes. Isso é tão VIVO :)

Não faço ideia dos lugares que posso visitar, quanto custa uma viagem dessas, o que levar, ir com quem, como... Meu deus! É muita coisa pra uma cabeça que não gosta de tomar muitas decisões.

Juliana disse...

Ju, os ipês tavam lindos! minha amiga ficou querendo se mudar pra lá! Eu não chego a esse extremo, ms bem que queria uma casinha daquelas pra ficar de vez em quando.


Cíntia, todo mundo que a gente viu por lá era de BH. Acho que éramos as únicas do RJ na cidade. Levamos 6h até S.J. del rei e uns 20 minutos até tiradentes.
Comprei um doce de leite diet pra minha mãe e ela disse que é uma das melhores coisas que ela já comeu.


Felipe, eu não sou fotogênica. é que só mostro as fotos legais! kkkkk Eu sou muito do tipo que reflete nas fotos o que tá sentindo mesmo.
Não pense muito. Vá! comece por algum lugar perto, tipo Petrópolis. Passa um fim de semana lá. Depois vai aumentando a distância.

Palavras Vagabundas disse...

Ju,
voltei,rs
Vocês foram a Bichinho? A Oficina de Agosto? Tomaram cachaça de alambique com caldinho e feijão em uma das cachaçarias da cidade? Entraram em todas as igrejas?
Me parecceu que o tempo foi pequeno, então mandei esses motivos para você voltar a Tiradentes.
bjs

livroseoutrasfelicidades disse...

Ah, a delicadeza das palavras para combinar com a delicadeza dos sentimentos...

Rita disse...

Ju, você escreve umas coisas tão lindas. A menina que escreve coisas lindas; é você.

Quero ir e levar minhas crianças para contar estrelas lá que nem você. Quando eu for, vai também? A gente se encontra e come tudo isso que você falou de novo.

Combinado?

Beijos
Rita

Deise Luz disse...

Se eu fosse escrever sobre o lugar dos meus sonhos, a Chapada Diamantina, seria um post nesse tom. Não tem como não ser piegas. =)

Cheshire cat disse...

Quero ir pra Tiradentes amanhã, pode?

Se eu tivesse que escolher um prato para ser minha última refeição seria um arroz, feijão, purê de abóbora e farofa de couve que eu comi num carnaval em Minas. Amo essa terra.

andré disse...

Lagriminha até correu, rs. Quando vamos?