quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Queria ter escrito ontem pra registrar o dia certo, mas  o cansaço me venceu. Cansaço. Cansaço. Muito cansaço. No dia de ontem, chegou ao fim um período de muito cansaço. Ainda não veio o alívio total porque as burocracias tão atadas aos meus pés ainda, mas, ó, o pior já passou.

 Falo da escola e dos alunos sempre muito amorosamente por aqui - e falo com verdade. Apesar da dureza de algumas relações difíceis, das pressões, da falência do sistema, há ternura e um certo encantamento permeando a sala de aula. Esses sentimentos me dão vontade de escrever, por isso o Fina Flor parece o blog de uma professorinha fofa e feliz. E eu gosto desse olhar açucarado; não quero perdê-lo. Meu maior medo é o de perder a capacidade de olhar pras pessoas com quem trabalho com doçura, especialmente pros adolescentes. Porque só muito afeto dá conta de aliviar a chatice e o trabalho que é lidar com muitos adolescentes ao mesmo tempo. Um adolescente já é difícil, imaginem 30/ 35 no mesmo espaço por horas seguidas. Pois é.

E eu tava acostumada com a ternura, com a doçura, com os sorrisos, com a cara feia e minha pose de durona que surtiam efeito. Nesses poucos anos de trabalho, tive todos os problemas que os professores enfrentam, obviamente, mas vou aprendendo a lidar com eles. Tô mais cascuda. Mas nunca antes eu tinha precisado lidar com hostilidade, maldade e até uma certa dose de crueldade. E, olha, não é legal.  É infinitamente menos que legal. De início, recorri à minha capacidade de compreensão. Eu sou uma pessoa bem compreensiva - e nem sempre isso é bom. Sempre entendo os dois lados, sinto pena, não morrerei por falta de empatia. Daí escolhi ser compreensiva: é difícil se adaptar a mudanças, as transições são complicadas, eles são meninas e meninos, vai dar tudo certo. É, não deu. A empatia foi vencida pela complexidade da situação, e, pela primeira vez, nesses anos como professora, a doçura escapou de mim. Houve um dia - e lembro bem que dia foi esse - em que parei, sentei e pensei: "não dá!". E foi bem assustador. Ora, sempre tinha dado, eu sempre entendia, no fim, as coisas se ajeitavam, eu conseguia sorrir e balançar carinhosamente a cabeça no final do ano. Dessa vez, não houve afeto, não houve doçura. Meu estoque de gentileza e educação se esgotou, e eu fiquei desamparada. Descobri que há batalhas nas quais a gente não pode e não deve lutar, ainda  tenha sido convidada a guerrear. Não era uma questão de gostar ou não gostar daquelas pessoas - eu já tinha não gostado de outros alunos tantas vezes antes. Pela primeira vez, eu não queria estar de jeito nenhum com aquelas pessoas que estavam levando, ao último patamar, a imaturidade de quem não entende que a  vida não é como a gente quer.


Meninas e meninos adolescentes são pessoas, a gente esquece.  Pessoas são capazes de muitas coisas - boas ou ruins. Um grupo pode influenciar positiva ou negativamente. Um grupo pode potencializar o que a gente tem de bom e de ruim. Até esse ano, eu tinha conseguido equilibrar essas variáveis todas no meu trabalho, mas, dessa vez, não deu. E eu não tiro dessa situação nenhum sentimento que não seja o de alívio. ACABOU. E minha ternura não ficou na estrada/ não ficou no tempo presa poeira.

2 comentários:

Maeve disse...

Vixe Ju! Sinto muito...
Sala de aula é mesmo um lugar permeado de emoções, né?
Fico feliz que já acabou esse ano letivo pra voce!!
Eu também nao sei lidar direito com imaturidades constantes. Enfim, bom pra vc que acabou! ;)

Anália disse...

Oi, Ju! Que vontade de te dar um abraço. Se servir de consolo, acho que todo mundo na vida já se sentiu (ou vai se sentir) assim algum dia. Às vezes simplesmente não dá, por mais que a gente faça.
Beijos, Anália