quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Último dia

Liberei o uso das câmeras e dos celulares pra que todos pudéssemos tirar fotos. Eu queria tirar fotos pra que, mais tarde, quando os nomes de todos eles sumirem da minha memória, eu possa ainda me lembrar da nossa convivência. Aprovados, aliviados, animados, tão jovens. Em algum momento entre posicionar a câmera e disparar o flash, senti um nó na garganta. Obviamente, não deixei que o nó escapasse pelos olhos ou coisa que o valha. Professoras não choram no último dia; professoras saltitam de felicidade no último dia, fazem a dança da liberdade, agradecem ao universo pelas aprovações alcançadas. Em vez de chorar, tão açucarada que sou, tirei fotos e fotos e posei pra outras tantas com o meu melhor sorriso.

Mais tarde, no ônibus, olhando as fotos todas no cartão de memória, fiquei me perguntando por que aqueles retratos de adolescentes escandalosos me comoveram tanto. A resposta estava ali mesmo, mais adiante, no cartão de memória. Sábado aconteceu o amigo oculto mais esperado. Meses de e-mails, preparações, especulações, buscas por presentes que culminariam numa tarde leve e feliz. Somos uns 15. Quase todos estudaram juntos, quase todos estivemos na mesma escola, todos temos um vínculo que remete a tempos em que os presentes  de amigo oculto eram feitos com giz de cera e cartolina. Somos adultos hoje. Alguns têm novas famílias, alguns dirigem  carros e motos, todos têm conta no banco e  salário, nossos presentes não são mais manufaturados, uma de nós está do outro lado do oceano. Mas guardamos algumas semelhanças com as meninas e meninos que fomos. Somos ainda um tanto parecidos com meus alunos e suas poses juvenis. Fazemos um estardalhaço pra posar pra fotos coletivas, fingimos ousadias em fotos bobas, cantamos o refrão que só quem esteve no encontro do ano passado vai entender. Olho pras fotos dos meus alunos e me dou conta dos anos que se passaram desde o primeiro amigo oculto. E nós temos planos pro futuro: faremos  amigo oculto via holograma, se for necessário. Com eles e por eles, sem esforço, sem cobranças, só porque a gente tá junto, eu ouço as minhas risadas e me reconheço; eu falo um tom acima e acho bom; meu corpo fica mais leve.




3 comentários:

Claudine disse...

Sou professora também.
Chorei lendo o seu texto, pois ontem eu entreguei provas e resultados aos alunos e chorei por dentro.

Lisa disse...

Ai, Ju! Quase chorei lendo o seu texto. É mais ou menos assim que eu me sinto no fim do ano, mesmo não sendo professora. Esse clima de último dia de aula é muito bom mesmo. Essa sensação de dever cumprido, de aproveitar cada segundo e de tentar guardar o máximo de memórias possíveis.

No meu último, último dia de aula do Cefet foi um negócio tão mágico, tão mágico, acho que só quem faz Cefet consegue entender (não é exagero, só quem faz Cefet consegue entender mesmo). A gente fez um café da manhã na sala, depois cantou o hino da turma, correu pelo colégio cantando, invadimos a biblioteca... Éramos felizes. E sabíamos. Por isso emoção era generalizada.

E é bem isso que você falou que eu sinto quando vejo essas fotos e me comovo tanto com esse sentimento de fim de ano mesmo. Porque eu me vejo ali naqueles estudantes felizes e conscientes de sua felicidade. E sei que embora não seja mais uma deles, lá no fundo, quando esses amigos que participaram desses momentos tão inesquecíveis se juntam, é como se nada tivesse mudado e ainda fôssemos os mesmo alunos em último dia de aula de novo.

Palavras Vagabundas disse...

Lindo texto. Professora pode chorar sim!
bjs
Jussara