domingo, 27 de janeiro de 2013


Ontem, eu disse pro André que  andava menos dramática, e ele concordou. E mais: eu disse também que os anos como ansiosa crônica tinham me ensinado que simplesmente não vale a pena se descabelar .  Ansiedade nunca me rendeu nada que prestasse. André, que sabe bem o que significa ouvir algo assim de mim, se admirou. Eu ri um pouquinho porque mal acredito no que disse. Quer dizer, acredito  nas palavras, mas também me admiro que tenham saído da minha boca.

Quando fiz o tratamento pra ansiedade, eu vivia às voltas com as tarefas ligadas à terapia. Toda semana, eu ia lá no DPA da UFRJ, sentava na frente da psicóloga fofa que me atendia e avaliava as tarefas da semana. Na terapia, aprendi a ter agenda ( coisa que só usei mesmo naquela época), aprendi a fazer planilha de horários ( coisa que faço até hoje), aprendi a parar, pensar e  avaliar a real dimensão de tudo.  Toda vez que eu  ficasse muito ansiosa, tinha que parar, pegar um dos formulários que a psicóloga me dava e escrever ali tudo que tava passando pela minha cabeça. Depois eu tinha que pensar na pior coisa que poderia acontecer se todos os meus temores se confirmassem; em seguida, deveria traçar estratégias pra amenizar as possíveis tragédias que eu previra. Eu adorava fazer isso. Virou um hábito. Depois de um tempo, os formulários foram abolidos e eu fui treinando  fazer isso na vida, ali no meio da rua quando me batesse um desespero porque tava atrasada dez minutos pra aula.

A terapia pra ansiedade não fez milagre.  Ainda sou ansiosa. Minha primeira resposta  pra tudo é o pensamento catastrófico, o drama, o desespero sem medida. Tive de recorrer à psicanálise pra cavoucar os  buracos que  a ansiedade tenta preencher. Tô aí no processo; tentando, acertando, errando, prestando mais atenção. E cada vez mais me dou conta do quanto  os formulários que a psicóloga fofa me ensinou a usar fazem todo sentido. Ao preenchê-los, fui aprendendo que as coisas se tornam menores quando a gente para pensar nelas. Depois de redimensionados, os monstros da nossa cabeça podem ganhar uma concretude muito bacana. Coisas concretas podem ser muito boas.Coisas concretas podem ser marretadas.Olha, que beleza! Dá pra você derrubar um muro com uma marreta , com uma draga ou com o cavoucar insistente de um prego, uma faca, uma pedra. Tem gente que sabe dirigir dragas. Tem gente que sabe manejar marretas. Eu sou daquelas que poderiam subir numa draga, mas que vão cavando buraquinhos com pedrinhas afiadas. É do jeito que dá. Anos atrás, eu só via o muro.

Por esses dias, ando menos dramática e também mais melancólica. Eu gosto tanto dessa palavra, melancolia. É uma palavra bonita. Quando descobri que isso que parece tristeza mas não é poderia ter um nome tão bonito, passei a gostar de que melancolia fosse parte de mim.  Fiz as pazes com a contradição.  A gente pode ser tanta gente numa pessoa só. Alegre, saltitante, larga – e também ensimesmada. É bom, é bonito ser ensimesmada. Nem tudo cabe em palavras. Há partes da gente que são só silêncio – e tudo bem. Que se dê silêncio ao que pede silêncio.

Hoje, eu descobri que uma pessoa a quem quero muito bem não tá em sua melhor forma. Um desses parentes da ansiedade deu um pontapé nos eixos daquela que eu sempre admirei por ser tão encaixada.  É estranho perceber que as pessoas que a gente julga arrojadas, espertas, assertivas podem ser derrubadas pelas coisas duras que moram na nossa cabeça. Fiquei triste, chorei aqui em casa. Mas ao lado dessa tristeza, tenho essa esperança  que a experiência me deu de que tudo vai se ajeitar.

Eu acredito mesmo nisso de que a gente arranja um jeito de ficar bem.




P.S.: Fiquei achando que esse post tá com um tom muito autoajuda de boteco, mas a intenção não é essa. Não mesmo.

4 comentários:

Palavras Vagabundas disse...

Ju,
o post não ficou com cara de auto-ajuda!
Já fui muuuito ansiosa,o que me ajudou muito e prático até hoje, foi o zen budismo. Prático até hoje as lições: respirar devagar, acalmar a mente e meditar.
Uso agenda e aprendi que é humanamente impossível fazer tudo em um dia só e que a coisas que realmente nunca realizaremos, levou trinta anos mas hoje tenho o coração e a mente calmos.
beijos
Jussara

Tati disse...

Que lindo Ju!
Eu fico tão emocionada quando ouço (leio) as pessoas falando isso! Não é necessário deixar de ser ansiosa, afinal você não abre mão de um traço da sua personalidade como se fosse um vestido velho. Mas pode sim aprender a conviver com ela e fazer ela ser sua aliada na vida, fazer com que a ansiedade te impulsione!
Minha história é mais ou menos parecida com a sua, só que fui direto para a psicanálise. Outro dia eu olhei pro meu marido e fiz: eu melhorei muito de quando a gente se conheceu né? Faço muito menos drama com as coisas, to mais paciente? Ele fez: E como!
E encarar a melancolia como parte da vida é essencial em um mundo que te diz para ficar feliz o tempo todo. Isso é impossível e quem entra nessa paranoia só tende a ficar mal. Também acho linda a palavra melancolia.
Força para a pessoa que você quer bem. Tenta encaminhá-la no mesmo trajeto que você fez e tudo vai se ajeitando ;)
Tô torcendo!
Beijo
Tati

Maeve disse...

Força aí na ansiedade de quem vc ama :)

Juliana disse...

obrigada, meninas.