quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Janeiro, 31


Um dia, cansada do cabelo, ela raspou a cabeça. Quer dizer, não raspou, raspou; passou máquina 2 ou 3, não sei. O cabelo ficou curtíssimo. Quando eu vi o cabelo  tão curto, fiz a minha habitual cara de espanto  e perguntei o que tinha acontecido. Ela  diz que o meu espanto foi tão sutil quanto se eu tivesse perguntado se o cabelo tinha sido raspado numa sessão de tortura. Ela não ficou brava; minha falta de sutileza é bem conhecida. E nada é mais a cara dela do que raspar um cabelo que não anda bom.

Dia desses, estávamos as duas tentando nos lembrar quando ela raspou a cabeça. Eu tava usando essa cena pra explicar  minha dificuldade de ser delicada, dificuldade essa que resvala até em que não é meu amigo. Peraê, mas a gente era amiga, disse ela. Não, não éramos, disse eu. Eu te considerava minha amiga, a gente era amiga, finalizou ela. Eu sou dessas pessoas  expansivas que parecem íntimas de todo mundo mas não são. Ela é dessas pessoas, à primeira vista, reservadas que encaram as pessoas de peito aberto.  Ela nem registrou  as minhas neuras e minhas reservas e  me fez sua  amiga. Ela é assim: traz as pessoas pra perto, gosta, se interessa. Delicadamente. Amorosamente. Despreocupadamente. Ela vive sem amarras e não amarra ninguém.

Ela é muito esperta.  Sabe todos os ônibus, todas as ruas, articula  ideias profundas  enquanto toma sorvete. Manda  e-mails  sensatos e salva amigos ocultos, me ensina a baixar filmes, tira fotos bonitas. Me manda SMS sobre Antônio Cândido antes das 10h da manhã.  Fala de Marx, barbárie e zumbis numa só frase. Gerencia orçamentos apertados. Uma esperteza modesta.

Ela é também um pouco maluca. Faz e volta atrás. Diz que não vai, mas vai. Experimenta pra ver qual é.  Foi morar longe da gente – a maior maluquice possível. E no dia da festa de  boa viagem, depois que fomos todos embora, ela chorou, no meio da plataforma do metrô. Ela chora, chora muito. Não tem pudor de lágrimas e sentimentos. Aliás, tem poucos pudores, apenas os pudores certos. Ela é uma pessoa que faz a coisa certa. Não por moralismo, por temor a leis maiores, nem faz tudo chatamente certinho o tempo todo. Nada disso. Uma honestidade intrínseca é o motor das  suas ações. Não perde tempo com hipocrisia, com jogos duplos, com mentira porque simplesmente seu funcionamento é outro. Ela joga claro, limpo;  fala abertamente. Sempre delicada,  sempre firme.

Vi a neve através da janela e da webcam dela. Tenho o mapa de Salzburg por que ela me deu. Ela é parte de metade das minhas boas lembranças.  Os bônus do meu celular expiram porque ela tá longe. A gente fala muito - só bobagens. Falamos de sapatos bonitos, fotos alheias, frivolidades - as melhores conversas. Gosto do Skype porque ele a traz pra perto. 

Eu gosto tanto dela, muito mais do que digo. Muito, tanto, mais e mais.

Hoje é aniversário da Sil.



















9 comentários:

livroseoutrasfelicidades disse...

Que lindo, Juliana! Queria ter uma amiga que soubesse usar as palavras de modo a criar uma homenagem tão tocante!!

Felipe Fagundes disse...

Faço minhas as palavras da livroseoutrasfelicidades. Você deveria vender dizeres para datas comemorativas. Ficaria rica.

O coração da Silvana deve ter ficado todo aquecido depois de ter lido o texto (Se é que ela leu, não sei). O meu ficou.

Juliana disse...

vcs são gentis, julia e felipe. =)

Tati disse...

Gente, que coisa mais linda!!
Parabéns Sil, pelo aniversário e por conseguir manter uma amizade que inspira palavras e atos tão bonitos com a Ju! Tão raro hoje em dia...
Beijo

Aline Gomes disse...

Muito lindo mesmo!!!

Mas peraê, Sil é Silvana? Menina, é o nome da melhor amiga (ou inimiga?) da Mel hahaha

Juliana disse...

aline e tati, vcs são gentis tb.

sim, aline, é silvana como a amiga da mel.

SMarcelina disse...

Oi, pessoal! Obrigada aí pelas mensagens! A Ju tem razão, vocês são bem gentis.
Felipe, sei que você não deve gostar do que vou te dizer, mas eu simplesmente acho você um FOFO! E se fosse jovenzinha como vc, talvez até me apaixonasse. Sabe, é difícil encontrar um homem que mantenha a sensibilidade de ser. E sim, meu coração ficou todo aquecido! Aliás, uma ótima descrição para o que eu senti.

Bem! O meu direito de resposta a este texto está aqui !

SMarcelina disse...

Aqui:
http://smarcelina.blogspot.co.at/2013/02/direito-de-resposta.html

Lia disse...

Que coisa mais bonita!!! <3

Felipe tem razão. De Aquecer o coração!!!