terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Atrás da Verde e Rosa...

... só não vai quem já morreu! Como tô bem viva, eu fui.

Minha amiga Sueli estava dizendo dia desses que não leva a sério minhas queixas a respeito de tédio porque num minuto tô reclamando, no outro atendo o telefone dizendo que tô na praia em Arraial. Eu disse que ela tava errada, é claro. Tenho uma vidinha chatinha, com um e outro momento mais legal. E era justamente a chatice da vida nesse carnaval o tema da conversa com a Silvana no Skype na tarde de ontem. Eu tava reclamando do marasmo do feriado, reclamando do desfile chato na tevê, reclamando das fotos bonitas que os amigos tavam colocando no facebook. As fotos alheias no facebook ficam  ainda mais bonitas quando a gente tá entediada. 

Pois bem, tava eu numa sessão de reclamação, quando a minha vizinha bateu no portão. Primeiro, ela chamou o nome da minha vó, então eu nem me mexi na cadeira. Depois, ela chamou o meu nome, aí tive que pedir licença à Sil,  vencer a preguiça, levantar da minha cadeira e ir lá no portão. Pensei que minha vizinha quisesse dar um oi antes do desfile. Ela desfila há anos na Mangueira e sempre passa aqui em casa antes de ir pro Sambódromo. Mas minha vizinha queria mais que me dar oi : ela bateu no meu portão e simplesmente perguntou se eu queria usar a fantasia dela no desfile da Mangueira. Hã? O que a senhora disse? Ela tinha uma outra fantasia, pruma outra ala, e tava me dando a fantasia extra.  Simples assim. Por pouco, não morri do coração. Comecei a pular loucamente, abracei a minha vizinha. Eu ia desfilar na MANGUEIRA, gente!

Preciso dizer que adoro escola de samba. Adoro muito. Já tinha desfilado há 4 anos também na Mangueira no sábado das Campeãs. Mas nada se compara a ganhar uma fantasia pro desfile oficial às duas da tarde do dia do desfile. Larguei o portão aberto, atravessei a rua saltitando e fui na casa da vizinha ver a fantasia. Momento tenso. Tenho pelos menos uns 10cm e uns 20kg a mais que a minha vizinha, uma senhora de 70 anos. Não seria nada fácil entrar na fantasia, mas até que não houve muito sofrimento. O maior problema era o sapato. Calço 39, minha vizinha calça 37. O sapato era fechado, com salto - nem milagre faria com que aquele sapato entrasse no meu pé. Havia ainda a meia-calça, tamanho M. Mas sapatos e meias são apenas detalhes, o importante é que a roupa coube. Pro resto, eu dava um jeito.Voltei pra casa, gritando e dançando. Entrei na internet pra caçar o samba da Mangueira, enquanto ouvia Silvana articular  com a irmã um jeito de eu ficar na casa delas depois  do desfile. Tentei comer, mas não consegui. Tentei decorar o samba, mas não consegui. Ficava saltando de lá pra cá. Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!

Fui de casa até o sambódromo de ônibus. Imaginem a cena: uma mulher carregando dois enormes sacos de lixo pelas ruas na segunda de carnaval. As pessoas paravam pra perguntar se eu ia desfilar. Um cara na fila do Mc Donald´s ficou maravilhado de saber que eu tava indo pro desfile da Mangueira. Os olhos dele brilharam. O sambódromo fica na principal rua do centro do Rio, a Presidente Vargas. Essa avenida tem quatro pistas largas. No carnaval, três delas ficam ocupadas pelos carros alegóricos e foliões. Muitas pessoas vão pra lá ver os carros alegóricos e a preparação das escolas.  É bonito de ver: toda movimentação do carnaval e a Candelária lá ao fundo. Então, continuando: desci do ônibus na Central e fui andando em direção à concentração da Mangueira. As primeiras escolas a desfilar ficam concentradas mais perto do Sambódromo, em frente ao prédio dos Correios, portanto tive de andar um bom pedaço. Detalhe: carregando a fantasia nas costas. A noite de ontem tava tão quente quanto uma noite carioca pode ser. Eu suava, gente! Suava e tentava não enfiar os ferros do esplendor da fantasia na barriga das pessoas que cruzavam meu caminho. A cada dois passos, eu pedia desculpas por cutucar alguém com a fantasia.

Depois de andar, andar, andar, suar, suar, cheguei na concentração da escola. Foi aí que me bateu um leve desespero. Minha vizinha não tinha vindo comigo, e eu não conseguia ouvi uma palavra do que ela dizia ao telefone. Eu não conhecia ninguém, só sabia qual era o nome da ala e nada mais. Para que somente os integrantes da escola tenham acesso à concentração, uma das pistas é cercada e  é preciso cruzar um portão pra chegar até as alas. Eu parei na frente desse portão e comecei a pensar no que faria se algo desse errado. E se me pedissem identificação? E se não me deixassem entrar? E o sapato? E se não me deixassem desfilar por causa do sapato? Ah, eu não falei do sapato, né? Pois é, eu não ia usar o sapato número 37 da fantasia; levei um outro bem parecido, número 38, apertado e sem salto, mas bem parecido mesmo com o da fantasia. Mas e se checassem o sapato? Ai, meu Deus!Ai, meu Deus! E tudo isso em meio a uma confusão que não dá pra descrever. Carros alegóricos sendo montados, gringos sendo guiados em bando até suas alas, gente da comunidade cantando o samba e se vestindo. Tu tá lá parada e,de repente, sente um monte de penas roçando tua cara, alguém pede  desculpas apressadas e segue em frente. E eu suava! MUITO.

Os momentos de hesitação e crise duraram bem pouco porque a hora do desfile tava chegando. Ou eu esperava minha vizinha e corria o risco de me atrasar, ou entrava e me virava. Me virei, claro. Coloquei a anágua e a saia, joguei os sacos nas costas e cruzei o portão. Minha fantasia tinha uma caveira enorme no esplendor, então fui desviando das baianas que se vestiam, do pessoal do apoio que corria e tentei achar as outras pessoas que carregavam uma caveira nas costas. Não foi difícil achar. Difícil foi colocar o restante da fantasia. Parei num canto, respirei fundo e peguei a meia-calça. Informação importante: as pessoas se trocam no meio da rua mesmo. Tem banheiro químico, mas eu prefiro correr o risco de mostrar a calcinha pra desconhecidos a entrar num banheiro daqueles. Pois bem, vocês se lembram da meia-calça? É, a meia-calça! E se lembram de que a fantasia pertencia a alguém menor e mais magra que eu? Então. Enfiei uma perna na meia, puxei e... a meia parou no meio da coxa. Não subia. Minha garganta travou. Iam me tirar do desfile, iam me tirar do desfile. Respirei fundo e dei um jeito de enfiar a outra perna. A meia não passou das coxas. Não havia nada que eu pudesse fazer. Já tava vendo a Mangueira perdendo pontos no quesito fantasia por minha causa. Os fotógrafos iam flagrar minhas pernas mal vestidas. Meu Deus! Meu Deus!


Aos trancos e barrancos, me vesti. Me certifiquei de que a saia não deixava ver as meias. Guardei a bermuda na bolsinha a tiracolo. Tive de deixar os chinelos pra trás porque não havia espaço pra eles na bolsa .Já arrumada, fiquei lá, esperando e ligando pros amigos todos, no meio daquela multidão incrível.  Eu suava três vezes mais, a fantasia parecia uma sauna portátil, o inferno deve ser mais fresquinho. Mas quem se importava? Tô na Mangueira! Vou desfilar! Mangueira, teu cenário é uma beleza que natureza criou! Quando o hino da Mangueira começa a tocar, você esquece o calor, a sede, a confusão. É pura magia; não tem outra explicação. Enquanto a ala se posicionava, dei um jeito de comprar a garrafinha de água mais cara do mundo, virei o líquido de uma vez goela adentro e comecei a cantar também. Ô, ô, a Mangueira chegou!

É assim: o samba começa, você canta, você se mexe o tanto que a fantasia permite, você tem certeza de que tá sonhando. Aí de repente a Avenida aparece na tua frente e ... E eu não dou conta de descrever o que é estar na Sapucaí, no meio do desfile da Mangueira. Tem um monte de gente por toda parte, a fantasia pesa pra caraca, é uma loucura. E você tá lá bem no meio daquela loucura, é parte daquilo que a sua família tá vendo na tevê. É tudo tão brilhoso, colorido, lindo. Lindo, lindo, lindo. Quando a bateria silenciou e só se ouviu as vozes dos componentes da escola, eu chorei. Cidade Formosa... Verde... Rosa. Eu era parte daquilo, gente! Uma daquelas vozes era minha. Os pelos do corpo inteiro ficaram de pé. É sobrenatural.

O desfile passou e eu nem vi. Os arcos da apoteose apareceram logo. As pessoas começaram a tirar as fantasias. Os meninos da água apareceram e todo mundo correu pra pegar um copinho daquele. Eu bebi cinco copos de água geladinha. Cacei um canto na calçada e arranquei a meia-calça. Foi a primeira coisa que tirei. Arranquei tudo, menos a saia, e fui atrás de um táxi. Fiquei entalada na hora de entrar no carro, e o taxista deu  uma gargalhada simpática como se  transportasse todos os dias mulheres com saias de plumas. Pelo telefone, já no banco de trás do táxi, fiquei sabendo dos seis minutos de atraso e senti uma pontadinha no peito. Será que ainda dá pra ser campeã? Porque, ali, no banco do táxi, com os braços e a cara brilhando de suor e purpurina, com minha saia de noiva cadáver, não pude conceber uma outra campeã que não fosse a Mangueira.

Se não for campeã, a Estação Primeira já tem um outro título garantido: Oitava Maravilha do mundo.

P.S.: Minha vizinha é tipo uma fada-madrinha, né?

P.S.: Não usei os sapatos extras. Havia outras pessoas com os sapatos maiores ou menores que os pés, então bastou trocar com alguém.

Mais um P.S.: Na hora de pagar o táxi, o dinheiro caiu da minha mão e  se perdeu nas dobras da saia. Tive que descer do carro e ficar pulando pro dinheiro cair. E o taxista rindo, rindo.

11 comentários:

amanda. disse...

aahhhh ju!!!!! que maravilha de post!! e que emocionante, né?
eu fiquei com minha mãe assistindo o desfile, ela gosta muito.
se soubesse que vc iria desfilar eu iria prestar mais atenção (eu tava morrendo de sono).

beijo beijo

Lilian disse...

Eu tou aqui rindo de você pulando na frente do taxista. Desculpe.

Mas que lindeza de post. Um dia ainda quero sentir isso. Adorei a sua jornada pra desfilar. Não sei se rio ou se me emociono junto.

Palavras Vagabundas disse...

muita, mas muita inveja branca!
Sou mangueirense e foi o melhor desfile dos últimos anos! Pode não ser a campeã mas o Estandarte de Ouro já levou!
Saudações verde e rosa.
Jussara

Tati disse...

Ahhh que lindo Ju!
Eu acho muito bonito o carnaval do RJ, um dia ainda quero ver de perto!
E ainda bem que tudo deu certo depois dessa saga toda né?
E amei demais sua fantasia, muito linda!
Beijo!

Lia disse...

Juuuuuuuu que demais!!!!! Mt,mt bom!!!!!!!! Perfeito... =D

Rute de Almeida disse...

Imagine que eu fiquei aqui, lendo, aflita no mesmo tanto. Mas que bom que deu tudo certo!

juliana disse...

ah Ju, que post lindo! emocionada aqui. ;)
:***

Cheshire cat disse...

Me arrepiei com essa história, que maravilha!

P.S.: amei a fantasia, mas tem uma cara de ser tão pesada, não era não?

Nanie Dias disse...

Ju, que delícia essa sua narrativa *-* Caramba, deve ter sido uma experiência deliciosa mesmo!
Eu vi o desfile da Mangueira pela TV e a ala da qual você fez parte foi uma das que mais me chamou a atenção :D

Eu sou Beija-Flor, então espero realmente que a Mangueira não ganhe... mas o desfile foi muito, muito bonito mesmo!

Ah, eu fiquei com vontade de sair em uma escola de samba também \o/

Sua vizinha é mesmo uma fada madrinha!!!

Ainda bem que você conseguiu trocar os sapatos! Porque imagino como seu pé se sentiria na semana seguinte se você tivesse desfilado com o 38 Oo

Desculpa, mas estou chorando de rir da sua dancinha para o taxista... tenho certeza que o cara ganhou a noite e nem foi por causa da corrida, mas da dancinha ><


Beijos,
Nanie

Rita disse...

Aaaaaaahhhhhhhhhhh, Ju, que delícia!!! Emocionante seu post, você tinha que ver minha cara lendo. Parabéns!! Não acompanhei nada do carnaval desse ano, mas seu texto só me faz pensar: um dia eu vou. Ah, vou!!

Já falou pra sua vizinha onde moro?

Beijos, cinderela!!!

Rita

Juliana disse...

Rita, todo mundo quer que eu dê o endereço pra minha vizinha. kkk Ela é uma pessoa muito legal. Conta as histórias mais legais sobre a mangueira, sobre o samba.


Nanie e Lilian, vcs são más, né? riram do mico que paguei na frente d taxista. tsc tsc =p
Cara, a saia da fantasia é um evento à parte.

Tati, vá ao sambódromo do Rio, sim. Pra desfilar, pra assistir, é tudo lindo.

Poxa, Ju! Vc viu a injustiça das notas. Geral elogiando a escola e os jurados só detonaram. Não me conformo que a Grande Rio tenha ido pro desfile das campeãs.

que bom que vcs gostaram do meu dia de cinderela, pessoas! )