terça-feira, 30 de abril de 2013

O plano


Eu não vi abril passar. Que mês! Se esse abril tivesse acontecido em 2007, eu não teria sobrevivido. Se tivesse acontecido em 2010, eu teria parado no meio do caminho.

Silvana me perguntou se eu não tinha pensado em me dar um presente por ter aguentado o tranco. Não tinha pensado, mas agora pensei: vou passar o feriado sob o sol, não importa onde, não importa com quem. Produzirei muita vitamina D nesse feriado.

Vou sentar sob  esse sol de outono  e sentir o quentinho na pele.




sábado, 27 de abril de 2013

Nervosa. Nervosa.Nervosa.

Eu não devia estar, mas estou.
Eu pretendia não estar, mas estou.

Respira. Respira.


sexta-feira, 26 de abril de 2013

Meu aluno escolheu ler A Moreninha  e teve de falar sobre o livro pra turma. Eu achei uma escolha meio estapafúrdia. Se eu pudesse escolher o que  ler e estivesse ganhando ponto por isso, jamais pegaria A Moreninha. Li quando tinha  a idade do meu aluno e tive certeza de que não sobreviveria à tamanha chatice.O rapaz se preparou todo pra falar por 10 minutos. Escreveu um roteiro e tentou se lembrar dos detalhes da história sem consultar o papel. O danado do roteiro tremia  nas mãos dele, mas a voz estava firme. O garoto tava nervoso pra caramba. E nem precisava de tanto nervosismo:  ele quase me convenceu de que o livro não é tão chato. Quase.

Em horas como essa, eu me sinto uma impostora. Adolescentes em geral  fazem com que eu me sinta uma fraude. Eles são tão óbvios em suas fraquezas, medos, mentiras. Acham que tão sussurrando no fundo da sala e ficam chocados quando eu respondo ao que não foi dito pra mim. Não sou surda, eu digo. Eles não falam baixo, não sabem esconder o celular que não deveria estar ligado.São de uma obviedade que me faz dar gargalhadas. Às vezes, eu dou gargalhada e devo passar por louca. Eu deveria ser a pessoa séria do recinto, mas tem horas que  não dá.

O menino da Moreninha e a turma toda levaram muito a sério todas as recomendações que fiz sobre a apresentação. Eu disse que tinha que fazer roteiro, disse que tinham que me provar que tinham lido livro. Queria opiniões e detalhes. Até agora, eles seguiram à risca tudo que pedi. Quase todos leram livros que eu já li e ficaram desesperados com essa informação. A menina que  falou sobre Um Dia quase caiu dura quando eu sabia de cor um dos trechos do livro. Me deu vontade de rir da cara que ela fez. Bem, eu ri , e ninguém entendeu muito bem por que eu tava rindo. Não expliquei, claro. Pedi que ela me ignorasse e continuasse.Eu sou uma impostora. Dou risada das caras e bocas dos meus alunos - risadas muito amorosas, mas dou. 

É que é tão estranho ver alguém nervoso só porque tá falando comigo. Quase olho pra trás pra ver  se a professora de verdade tá sentada atrás de mim.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Quando

Muito antes de eu nascer,  morreu uma Juliana. Nas fotos, ela é sempre muito diferente de mim: cabelo branco, pele amarelada de cabocla, muito velha. Morreu de não sei o quê quando minha mãe era menina. Sou Juliana porque minha mãe amou muito essa vó que ela teve. A minha vó amou um bocado essa sogra dela, tanto amou que o que sei da minha xará velhinha é que ela era simplesmente  a melhor pessoa do mundo - uma opinião nada imparcial. 

Quando eu tinha 5 anos, meu avô paterno morreu. Não sei quase nada dele. Lembro só do cheiro de doença que empestiava a casa enquanto ele morria. Sei que ele era caboclo nordestino porque vi fotos em que  a pele marrom contrastava com o branco do bigode. Sei que era pescador e trazia pra casa peixes enormes que minha vó pendurava atrás da porta da cozinha. Não lembro de ter visto peixe nenhum atrás da porta. Sei que ele não era chamado pelo primeiro nome; como marujo, tinha um nome de guerra, nome esse que é o sobrenome que mais uso. Me pergunto o que ele diria dessa neta que não come peixe e ama loucamente o mar. Talvez ele tivesse me ensinado a nadar.

Quando eu tinha 8 anos, minha prima caçula morreu. Ela nasceu com um fígado ruim. Foi o mais desejado dos bebês, mas desde o primeiro dia parecia fadada àquela rotina de hospitais. Eu não a conheci bem. Crianças não podiam entrar na ala do hospital em que ela ficava, então minha outra prima e eu ficávamos no parquinho, enquanto os adultos subiam pra visitá-la. Ela tinha pele morena e olhos amarelados. Na noite em que ela morreu, eu tremi na cama até dormir. Depois, por muito tempo, tive sonhos em que a prima morta não era ela, e sim a minha outra prima, a mãe do Vinícius. Eu via o corpo dessa outra prima deitado sobre uma bancada branca pronta pra ser necropsiado. Se não tivesse, minha prima caçula teria quase 22. Sempre que conheço alguém que nasceu em 1991, lembro da prima que mal conheci.

Quando eu tinha 24 anos, duas pessoas morreram: minha tia- avó e uma vizinha. Minha tia morreu aos poucos; a morte foi um alívio. Quando ligaram pra cá avisando que ela finalmente tinha partido,  não fiquei surpresa; mas ainda assim não quis ir ao enterro.  Por não ter visto o corpo morto da minha tia, passei meses sem me acostumar com a ausência dela. O telefone tocava, e eu tinha certeza que era ela. Se eu me distrair, é possível que ainda atenda o telefone esperando que seja ela.

No mesmo mês em que minha tia morreu, morreu também uma vizinha, um ano mais velha que eu, minha companheira de brincadeiras na infância. Não éramos mais amigas; às vezes, eu até que esquecia que ela existia. Sabia que ela estava noiva, que  queria muito a festa de casamento. Sempre teve problemas de saúde, mas eu nunca achei que morreria jovem. Morreu. Eu soube da morte do modo mais abrupto; um buraco se abriu debaixo dos meus pés quando entendi que ela tava morta. Na noite após o enterro, um silêncio dolorido se espalhou pela rua onde ela morava. Nunca vou me esquecer daquele ar de tristeza na vizinhança. 

Quando minha vizinha e minha tia  morreram, me dei conta de que tenho que usar a conjunção certa. Não adianta dizer " Se eu/ minha mãe/ meu filho/ meu amor morrer...". O certo mesmo é " Quando eu morrer..."


Se você para um segundinho e diz baixinho " Quando eu morrer...",  dá um medinho, né?  

terça-feira, 23 de abril de 2013

I wanna hold you so much

Daquelas músicas pra você desejar ter uma voz bem linda e cantar no ouvido de alguém:

                                                                  Lauryn, né?

Ou cantar em voz alta pra todo mundo mesmo:

Quem nunca cantou junto com o Heather não sabe o que tá perdendo.


E eu, nesse dia de pura perda de tempo, larguei tudo e fui cantar:


"At long last love has arrived.
And I thank God I'm alive.
You're just too good to be true.
Can't take my eyes off you."



domingo, 21 de abril de 2013

- Esse menino nunca sossega? 
Faço sempre a mesma pergunta pra mãe do Vinícius, e a resposta é sempre a mesma:
-Não.
Vinícius tem 1 ano e 2 meses e não para quieto. Às vezes, senta  na sua poltroninha azul, e eu chego a pensar que vai sentar um pouco pra refletir ou ver tevê. Nada. Toda a energia gasta pra se ajeitar na poltroninha é desperdiçada; ele senta e dois segundos depois tá andando pela casa. Vai da sala à cozinha tão rápido quanto uma flecha. A mãe dele nem se dá o trabalho de ver aonde ele vai. Tudo que podia machucar ou matar foi tirado do alcance dele. As gavetas mais baixas, os vãos da estantes, as almofadas são todos dele. Se bem que eu suponho que os armários de comida e panela são os verdeiros xodós do menino. Aposto que, nas noites de sono macio, ele sonha com os armários que  a mãe trancou bem trancadinhos.

Às vezes, a mãe de Vinícius aparece no portão daqui de casa, montada na bicicleta, com Vinicius acomodado na cadeirinha verde. Adoro as visitas deles - e na verdade eles nem são visitas -, mas  meu coração dispara um pouquinho quando ele chega e sai andando pela casa. Dia desses, foi direto no pote da ração da Emma. Não chegou a comer porque eu gritei. A mãe dele só ri. Se ela fosse se preocupar já teria perdido uma parte do músculo do coração. Vinícius entra no quarto da minha vó e agarra os terços e a Bíblia; sobe na cama da minha mãe e fica olhando pela janela ( por dois segundos, é claro). Num outro dia desses, pegou a lupa da minha mãe e um dos meus livros. Eu arranquei a lupa e o livro da mãe dele, sob os protestos ofendidos do menino. Ele faz pirraça quando tiram as coisas da mão dele, mas ninguém se importa muito com os gritos. A mãe dele ignora; eu até imito bem os agudinhos.

Eu morro de medo de que ele alcance a caixa de areia da Emma sem que a gente veja. Então, assim que eles chegam, pego a caixa e coloco no alto. Aliás, Emma tem pavor de Vinícius, apesar de toda admiração que ele tem por ela.  Eles nunca chegaram perto um do outro, mas ele tem fascínio por aquele serzinho peludo de quatro patas.Gatos  devem ser bem intrigantes, bem diferentes de seres que têm duas pernas e pele lisa.

***

O pai do Vinícius jura que ele fala " paiê", mas eu só ouço " mãe".  Todo mundo é mãe, e ele anda pela casa falando mãe, mãe, mãe, mãe. E a mãe dele responde todas as vezes: oi, oi, oi, oi. A mãe do Vinícius fala com ele como se o menino fosse capaz de entendê-la, e ele ouve atentamente. Quando não tem ideia do que ela tá falando, se afasta confuso e pega a chupeta. Mas entende coisas como " pega o chinelo", " sua mamadeira tá pronta", "dá um beijo na mamãe". Os beijos dele são sempre babados.


A mãe do Vinícius tem toda uma técnica pra checar se ele fez cocô, mas ainda  assim pergunta pra ele se a fralda  tá suja. Às vezes, ele responde sim, às vezes responde não. É uma loteria. Mas se ela diz que é hora de trocar a fralda, ele vai lá no pacote e traz uma fralda pra mãe trocar.

Eu me pergunto se ele entende quando a mãe dele diz: " vai lá na Juliana pra ela colocar sua meia". Geralmente, sou a única outra pessoa no recinto, com a meia na mão. Acho que ele sabe quem é a meia, mas não  sabe quem sou eu.

sábado, 20 de abril de 2013

Faz um pouco de frio. Estou sentada sobre o tapete, de pantufas e vestido vermelhos. O vestido é daqueles muito usados que agora só servem pra ficar em casa. Emma se alojou faz uma meia hora na minha coxa esquerda e ronrona delicamente. Essa gata acha que meu corpo é propriedade dela: passeia nas minhas costas e me acorda, se acomoda no vão dos meus joelhos e dorme. Passei o dia todo trabalhando - ou fingindo que estava trabalhando. Mas, de verdade mesmo, aproveitei a calmaria rara desse sábado pra girar e dançar no meu quarto:




Na bruma leve das paixões

Que vem de dentro
Tu vens chegando
Pra brincar no meu quintal


Fiz dupla com essa Ellen extraordinária e nós duas cantamos pra Emma e pra minha plateia imaginária. Tenho 28, mas ainda acho que escovas de cabelos são excelentes microfones. E tenho certeza de que as  músicas que   surgem no meio de uma tarde mansa são sinais. Sinais de quê, eu não sei, mas gosto de acreditar que são.



quarta-feira, 17 de abril de 2013

A saga do caderninho viajante.

Cês lembram do sorteio que fiz no final do ano? Cês lembram que o Felipe foi sorteado e  que, além do direito de ganhar um presente, ele escolheria alguém pra ser presenteado? Então, Felipe escolheu a Lílian, e eu escolhi os presentes dos dois. O sorteio aconteceu em dezembro, comprei os presentes em janeiro, mas isso não quer dizer que eles chegaram em janeiro na casa dos presenteados. Dois dos presentes viajaram muito por aí, um deles ainda tá aqui comigo. Primeiro, vou contar a saga do presente da Lílian.

Quando o Felipe escolheu a Lílian, tratei de procurar alguma coisa que deixasse a Lílian feliz. Por acompanhar o blog e o twitter dela,  eu  já sabia que ela gostava de itens de papelaria. Minha amiga Silvana, que gostou da ideia do sorteio e tava empenhada em me ajudar a escolher presente legais, surgiu com uma ideia muito boa. Na época do sorteio, a Sil estava morando em Viena e esbarrou em caderninhos lindos numas papelarias de lá. Eu não tinha muita certeza da lindeza dos cadernos porque os vi pelo Skype do celular, mas confio no bom gosto da Sil. Ela comprou o caderninho, e eu fiquei na expectativa de que a Lílian gostasse. De primeira, pensei em pedir pra Sil postar o presente de Viena pra São Paulo, onde a Lílian mora, mas vimos que o frete seria meio caro. Então, eu pedi que a Lílian esperasse mais um pouquinho, porque Silvana voltaria pro Brasil em fevereiro e o caderninho viria na mala dela. A Lílian topou.

Pois bem, fevereiro chegou, Silvana chegou, mas o caderninho ficou em Viena. Quer dizer, em Lisboa. Explico: Silvana veio de Viena, fez escala em Lisboa e desembarcou no Rio. As malas dela pararam no meio do caminho. O caderninho levou 2 dias pra chegar nas mãos da Sil. No sábado após a chegada  dela,  fomos a  uma festa na casa de um amigo nosso e lá veio o caderninho pra Nova Iguaçu. Peguei o caderninho, guardei numa sacola e deixei perto da minha bolsa, no quarto do dono da festa. Na hora de ir embora, a bolsa veio comigo, mas o caderninho ficou. Só lembrei dele já no meio do caminho. Lá foi o caderno pra casa da Sil de novo. Depois de um período por lá, eu finalmente embrulhei o caderninho viajante, coloquei num envelope e pedi que minha  mãe postasse no Correio. Vocês postaram? Nem minha mãe. Ela esqueceu o caderno no fundo da bolsa por uma semana. Após essa temporada de descanso e passeios na bolsa da minha mãe, o caderninho finalmente foi postado. Calculei que chegaria bem rapidinho ao seu verdadeiro destino, afinal São José dos Campos é logo ali. Rá! Ledo engano! Os Correios resolveram acrescentar mais emoção às aventuras do caderninho viajante: o pacote saiu do RJ e foi parar em BH. Sim, o caderno foi pra Minas e passou um tempinho por lá. Eu já tava planejando congestionar as linhas da Ouvidoria dos Correios, quando o caderninho FINALMENTE chegou.

 O Skype e as fotos não fazem jus à lindezinha que esse caderninho viajante é.


A Lílian disse que dentro  do caderno há um texto que conta  a história desses gatinhos. E eu, claro, já não lembro qual era a história. Lílian, me ajuda aqui!

Pra terminar, vamos fazer as contas: Viena, Lisboa, Rio, Nova Iguaçu, Rio, Nova Iguaçu, Belo Horizonte, São José dos Campos. O caderninho viajou mais que eu e Lílian juntas, né? Cês também tão com inveja dele?










terça-feira, 16 de abril de 2013

Desabafinho

Tem mais gente no mundo, Juliana! Vai lá fora ver! É o que me diz quem tem autoridade pra dizer coisas assim. Em certa medida, até concordo.Sou desconfiada, sou reservada, sou receptiva até a página 2. Prevejo um futuro em que me transformarei na velha dos gatos que fura a bola dos moleques que cai no quintal. Reclamo pra analista que as listas de comemoração dos meus aniversários são imutáveis; as mesmas pessoas aparecem nas fotos - só mudam os cabelos e as rugas.  Por outro lado, penso em conhecer gente nova e me pergunto: pra quê?

Porque, olha, precisar, precisar, não preciso. Tenho sorte, gente. Daí que meus amigos são velhos conhecidos, velhos mesmo, duas delas me conheceram antes que o novo milênio fosse uma realidade. E eu sou daquelas que acham que amigos são como casa, então eu me aconchego neles de tal modo que não conseguem escapar. Se tentam escapar, faço chantagem emocional das boas. Sou canceriana! Chantagem emocional e drama são habilidades que os astros me deram. Mas falando sério: gente nova não é uma demanda real, então me pergunto preguiçosamente pra quê?

Pensar em conhecer as outras pessoas do mundo me dá preguiça. Ah, gente, cês concordam comigo que dá preguiça? Conhecer gente exige paciência, delicadeza, vontade, curiosidade e uma dose de sorte. Porque, ah, tem tanta gente maluca por aí. Não que eu seja um poço de sanidade e esteja cercada da elite da humanidade, mas vamos combinar que há gente muito mais maluca que eu. E são todas umas maluquices cansativas. Por exemplo: você tá lá conversando com uma pessoa legal e tal, e de repente lá tá a pessoa legal soltando uma pérola racista, justo pra você que é preta e tem cabelo " duro". Só que, claro, a pessoa legal é legal mesmo e não se dá conta de que  comentário dela é racista e te ofende, ainda que pra ela você não seja preta o suficiente pra se ofender. Pretos são os outros de quem ela tá falando. Antigamente, eu tinha mais paciência, sei lá por quê. Era mais jovem, mais ingênua, menos calejada. Hoje em dia, a ofensa me atravessa, e eu não resisto: fico irritada e escolho antagonizar. Eu não brigo, nem sempre falo , mas perco a boa vontade. E se escolho falar, a fala causa um mal-estar que eu não gosto de sustentar. Detesto antagonizar. Quero ser amada, oras. É um inferno.

E tem sido sempre assim, ultimamente. Boa parte das pessoas novas que encontro por aí discursam e se comportam de um modo que me ofende sem dolo, que agride aos meus sem dolo. São discursos e comportamentos que supostamente não pretendem atingir alvos e fazer vítimas, mas fazem - e eu desconfio dessa suposta ingenuidade das pessoas novas. Me pergunto se a pessoa acredita mesmo que uma piada é mesmo só uma piadinha. Me pergunto se a pessoa realmente é incapaz de reconhecer gente de carne e osso naqueles que ela chama de "pobres fedidos".

Minha mãe diz que tô ficando intolerante. Eu digo pra ela que tô de saco cheio. Não quero lidar, sabe. Não quero. E deu pra sacar que tô entalada, né? É que tenho lidado com tanta maluquice, sabe. Olha. 

Pessoas novas legais, cadê vocês?


( Tudo o que não fizer sentido nesse texto não foi escrito por mim; o cansaço escreveu no meu lugar.)


segunda-feira, 15 de abril de 2013

Gente que...

... que faz o melhor macarrão na panela de pressão.
... que tem pele bonita de fazer inveja.
... que tem medo das ondas do mar.
... que busca a gente em casa.
... que tem uma casa que a gente acha que é nossa.
... que anota os gastos no guardanapo.
... que liga pra cá e pergunta pela Juju.
... que estende TNT azul na parede e traz  o céu pra festa.
... que jura que o Hebert Viana piscou pra ela.
... que ficou com meu Herbert de Perto pra si, sem a menor cerimônia.
... que precisa de reza forte, de água benta, porque vou te contar, hein?
... que tem o marido mais bobo.
... que embrulhou sanduíche de mortadela em papel de presente e me deu.
... que tem argumento e explicação pra tudo.
... que foi a noiva mais feliz.
... que não é fo-fi-nha.
... que deveria se chamar Silvana e facilitar minha vida.
... que entre Lacan, Freud e os outros todos, escolheu Reich.
... que, se ousar pensar em divórcio, vai enfrentar muitos problemas com os sócios minoritários da relação.
... que manda e-mails delicados e coloridos  e salva amigos ocultos.
... que organiza tudinho muito bem organizadinho.
... que tem mil planos, apesar de tudo.
... que poderia ter desistido, ma não desistiu.
... que me  enganou descaradamente no último amigo oculto.
... que duvido que haja alguém que não goste dela.
... que, junto com o marido mais bobo, forma uma dupla imbatível, corajosa e resistente.
... que mima as pessoas.
... que dança.
... que, apesar de não gostar de Friends, é legal.
... que é tão jovem que só agora chegou aos 25.

***

Eu nunca sei se a aniversariante de hoje lê este blog. Às vezes,  comento algo que eu disse aqui e pra ela é novidade. Às vezes, falo de algo que eu disse aqui e ela diz: eu sei, eu li no blog. Ainda que ela não leia este post, fica o registro do aniversário dessa moça que faz muita gente feliz.

sábado, 13 de abril de 2013

Chegou. Sempre soube que chegaria o dia em que eu não teria mais pudor da impaciência. Chegou esse dia.   Quando me dei conta, estava eu lá sem fazer o menor esforço pra entender, relevar, compartilhar. Porque, ah, gente, paciência é um item de primeira grandeza que só deve ser consumido quando realmente necessário.

Acabou a paciência, sabe. Acabou paciência com gente que  fala mal do cabelo alheio e nem se dá conta de que tá sendo racista. Acabou paciência com gente que precisa ter sempre a razão. Acabou paciência com quem chafurda na autodepreciação. Acabou paciência com aluno que se faz de coitadinho. Acabou paciência com fofoquinha estilo 5ª série B. Acabou paciência com a minha eterna capacidade de pensar com clareza. Acabou paciência. Acabou. Não tem mais. Eu até me esforço, mas a fonte secou.

Daí que diante de tanta impaciência, me disseram que eu sou braba. Nem sou. Sou um doce, sou covarde. Dou um pedaço da alma pra não brigar. Mas chega uma hora em que a gente fica velha demais, né? Cansa, não dá.

domingo, 7 de abril de 2013

Deito no chão do quarto, sobre o tapete, porque quero me sentir fincada em algo. Minha cabeça arde. Tudo arde, pareço uma fogueira. Um lastro de fogo brando corta minha garganta. Acho que vou chorar, mas não choro. Lágrimas pra mim são fruto de um quase parto - só choro no divã e nos sonhos.

Hoje cedo, acordei com o coração na boca. Sonhei com gente que não existe, com gente que vi uma vez, com a minha boca percorrendo uma bochecha. Era uma bochecha de homem, uma pele tão lisa e quente - eu esfregava o nariz na pele porque a textura era boa. Depois, um mundo de coisas oníricas acontecia,mas não lembro de nenhuma delas. Acordei com o coração aos pulos e com a lembrança da bochecha. Parece um sonho bom, mas não era. Sei que eu chorava em algum momento que não lembro, e acordei com o cansaço que vem depois do choro longo.Acho que não foi um sonho gratuito. Dormi lendo um conto bonito de amor e pensando que, se o conto fosse meu, o final seria outro.  Se o conto fosse meu, a última palavra da última linha seria desejo.

Acordei com os lábios secos. E meu coração começa a acelerar só de lembrar e escrever.

***

( é engraçado como a gente escreve querendo dizer uma coisa e diz outra totalmente diferente.)


terça-feira, 2 de abril de 2013

I,II,III,IV,V,VI

I-

Um dia em que um ônibus despenca de um viaduto não pode ser um bom dia. Não pode.


II-

A gente tem que saber quando não pode lidar.Eu tô aprendendo. Hoje, cansada, exausta, meio zumbi, parei, olhei aquele monte de gente e decidi que não podia lidar com o trem lotado, com trânsito, com notícia de mortes, com um celular desligado, com as  incertezas todas. Eu não podia,  portanto não lidei. Fiz o caminho inverso, fui no contrafluxo, comprei cartão telefônico, entrei no CCBB. Queria só sentar e não ter de lidar.Usei o cartão telefônico pra ligar pro amigo. E não é que ele também não podia lidar? Ficamos lá, no hall bonito do CCBB não lidando juntos.

- Minha cara está tão horrível quanto à sua?
- Tá!

E como cansaço e desânimo também se compartilham,  tomamos chocolate e lamentamos a dureza desse dia. Depois, descansei minha cabeça ardida de tensão no ombro dele, emulando a linguagem corporal de amizade adolescente, porque ainda somos jovens, apesar de tudo.

III-

- Vocês só falam de escola.
Verdade. E eu gosto de poder falar com quem olha pra sala de aula e vê a dor e a delícia que é. 
É bom dizer e saber que alguém sabe exatamente o que você quer dizer. Exatamente.

IV-

Eu nunca estou de pé tão cedo, mas tem sido preciso. Aí vou pela rua, morrendo de sono, mas não vou sozinha. Em pé, no trem cheio, vou respondendo aos SMS empolgados.Falo das roubadas,  falo das expectativas,  refuto ideias estapafúrdias. Seis da manhã. Um monte de SMS. Tudo, menos sozinha.

V-
Queria escrever um post só pra eles, mas não tem sobrado tempo. Queria contar que me diverti tanto quanto me divirto com pessoas que conheço há anos. Aliás, fiz com eles exatamente aquilo que se faz com amigos de longa data: ri sem parar e não tenho a menor ideia sobre o que falamos. Felipe tinha certeza de que nosso encontro não duraria 30 min, durou umas 6 horas. Chegamos com dia claro e saímos à noite, debaixo de uma chuvinha fina. Eu saí com o coração quente.

Queria escrever um post em bonitinho, mas o sono não deixa. Então, vou postar a foto que o moço da mesa ao lado fez a gentileza de tirar pra que vocês vejam como somos deslumbrantes:


Rute, eu, Felipe
( meus olhos nunca aparecem nas fotos, mas juro que eles existem)

VI-
Só espero não estar cometendo um erro.