terça-feira, 16 de abril de 2013

Desabafinho

Tem mais gente no mundo, Juliana! Vai lá fora ver! É o que me diz quem tem autoridade pra dizer coisas assim. Em certa medida, até concordo.Sou desconfiada, sou reservada, sou receptiva até a página 2. Prevejo um futuro em que me transformarei na velha dos gatos que fura a bola dos moleques que cai no quintal. Reclamo pra analista que as listas de comemoração dos meus aniversários são imutáveis; as mesmas pessoas aparecem nas fotos - só mudam os cabelos e as rugas.  Por outro lado, penso em conhecer gente nova e me pergunto: pra quê?

Porque, olha, precisar, precisar, não preciso. Tenho sorte, gente. Daí que meus amigos são velhos conhecidos, velhos mesmo, duas delas me conheceram antes que o novo milênio fosse uma realidade. E eu sou daquelas que acham que amigos são como casa, então eu me aconchego neles de tal modo que não conseguem escapar. Se tentam escapar, faço chantagem emocional das boas. Sou canceriana! Chantagem emocional e drama são habilidades que os astros me deram. Mas falando sério: gente nova não é uma demanda real, então me pergunto preguiçosamente pra quê?

Pensar em conhecer as outras pessoas do mundo me dá preguiça. Ah, gente, cês concordam comigo que dá preguiça? Conhecer gente exige paciência, delicadeza, vontade, curiosidade e uma dose de sorte. Porque, ah, tem tanta gente maluca por aí. Não que eu seja um poço de sanidade e esteja cercada da elite da humanidade, mas vamos combinar que há gente muito mais maluca que eu. E são todas umas maluquices cansativas. Por exemplo: você tá lá conversando com uma pessoa legal e tal, e de repente lá tá a pessoa legal soltando uma pérola racista, justo pra você que é preta e tem cabelo " duro". Só que, claro, a pessoa legal é legal mesmo e não se dá conta de que  comentário dela é racista e te ofende, ainda que pra ela você não seja preta o suficiente pra se ofender. Pretos são os outros de quem ela tá falando. Antigamente, eu tinha mais paciência, sei lá por quê. Era mais jovem, mais ingênua, menos calejada. Hoje em dia, a ofensa me atravessa, e eu não resisto: fico irritada e escolho antagonizar. Eu não brigo, nem sempre falo , mas perco a boa vontade. E se escolho falar, a fala causa um mal-estar que eu não gosto de sustentar. Detesto antagonizar. Quero ser amada, oras. É um inferno.

E tem sido sempre assim, ultimamente. Boa parte das pessoas novas que encontro por aí discursam e se comportam de um modo que me ofende sem dolo, que agride aos meus sem dolo. São discursos e comportamentos que supostamente não pretendem atingir alvos e fazer vítimas, mas fazem - e eu desconfio dessa suposta ingenuidade das pessoas novas. Me pergunto se a pessoa acredita mesmo que uma piada é mesmo só uma piadinha. Me pergunto se a pessoa realmente é incapaz de reconhecer gente de carne e osso naqueles que ela chama de "pobres fedidos".

Minha mãe diz que tô ficando intolerante. Eu digo pra ela que tô de saco cheio. Não quero lidar, sabe. Não quero. E deu pra sacar que tô entalada, né? É que tenho lidado com tanta maluquice, sabe. Olha. 

Pessoas novas legais, cadê vocês?


( Tudo o que não fizer sentido nesse texto não foi escrito por mim; o cansaço escreveu no meu lugar.)


10 comentários:

Lilian disse...

Seu texto super fez sentido. A pergunta de um milhão de dólares é essa: cadê as pessoas legais?

A diferença entre nós é que sou intolerante há mais tempo, talvez desde sempre; e que não tenho amigos do século passado, e nem deste, pra ser sincera. Pois é.

Maeve disse...

Poxa nunca tenho preguiça de conhecer gente nova. Amo fazer novas amizades. Mas acho que é pq de certa forma, sei ler bem as pessoas. E quando me engano quanto a elas, aí sim, não dou nem uma chancezinha: limbo.

Carissa Vieira disse...

Eu gosto de conhecer gente nova, e tenho conhecido pessoas legais. Apesar disso, ando cada dia mais sem paciência para coisas pequenas. E ao contrário de você, tenho ficado mais intolerante com alguns amigos antigos, que acham que só porque te conhecem faz muito tempo, podem perder o respeito.
Sei lá, sabe. Viver tá cada dia mais complicado.

Iolanda Lopes disse...

Fui lendo e pensei: "Não estou sozinha" rs
Eu não sei quantos anos vc tem, mas com o acúmulo de uma quantidade razoável deles, acontece uma conjugação desfavorável ao convívio e a novos relacionamentos.
A perda da ingenuidade, somada a intolerância consequente de muitas experiências doídas.
Sabe a pele, depois de sofrer um machucado, regenera, mas fica rosadinha, sensível, perde a resistência.
Ainda não percebeu, mas se os rostos nas fotos são os mesmos, é porque vc tem amigos de verdade. Uma benção, talvez por isto o risco de se aventurar com caras novas, não compense.
E pensando bem, mais pessoas por aí já tinham sentido isto.
"Viver é simplesmente a arte de conviver. Simplesmente? Mas como é difícil!" Mário Quintana
Eu também sei...

Rita disse...

Ju, sua linda, gostei tanto de seu texto. Quer dizer, adoraria que ele não precisasse ser escrito. Mas ele tem um potencial enorme de fazer algumas pessoas pensarem sobre o bom combate: qual é mesmo o bom combate? Gritar que estamos de saco cheio desse tal papo de 'politicamente correto'? Ou, olha lá, é disso que estamos falando: as pessoas se importam, eles sofrem o preconceito, elas se magoam, elas ficam tristes. E eu não quero contribuir para propagar uma cultura onde isso não tem importância.

Um beijo, viu. Tomara que você me inclua aí no seu restrito rol de pessoas novas legais, hohoho. Adorocê.

beijo
rita

Anônimo disse...

Ahhhh me identifiquei...
Posso ser uma nova pessoa legal? Te prometo que meu grau de loucura e totalmente aceito dentro do que foi descrito por vc...
Tb estou sem paciência... mas enfima não podemos nos isolar, e não ... com tanto q vc tem a oferecer e tão rica internamente com suas palavras, vc não será a "veia" dos gatos...
Uma simpática senhorinha rodeada de gente boa... no minímo...
viu qta gente legal vc incentivou?
Eu voto para um encontro dos leitores legais da Ju!!! rsrsrs
Deixa a vida te surpreender, vc não vai se arrepender...

bjs
sou sua fã de carteirinha, não sou stalker, não sou serial killer e tão pouco tenho olhos vidrados psicodelicamente falando ...

Lavy

Milla Pupo disse...

Conhecer pessoas novas demanda tempo, paciência, disposição e muita, mas muita sorte, concordo.

A problemática em não ter disposição para novas pessoas é ficar viciada em viver no mesmo círculo de amizade, sem muitos desafios e aquela coisa toda que sempre escuto em terapia.

Ai, ai... tudo isso para dizer que te entendo.

;*

Anônimo disse...

Infelizmente, muitas vezes somos obrigados a conviver diariamente com essas pessoas e nos damos conta de que esse mundo parece ter somente pessoas idiotas. Dá vontade de comprar uma ilha, um planeta, sei lá, pra enfiar as poucas pessoas legais que tem no mundo e morarmos todos juntos lá, onde a gente não vai se sentir um peixe fora d'água como aqui. Eu confesso que tento conviver cada vez menos e de modo mais superficial com essa gente. Também já tive mais paciência, mas agora...Essa semana fui obrigada a ver algumas pessoas assim e escutei mais burrices desse tipo em uma manhã do que ouvira desde o inicio do ano. Vou ficar agarradinha nas pessoas legais pra que esses idiotas não tenham espaço pra chegar perto de mim com seus comentários imbecis, que me ofendem e ofendem aos que eu amo. Entendo perfeitamente a sua preguiça e compartilho dela. Triste essa nossa solidão.

Anônimo disse...

Ah, Ju. Nem botei meu nome no comentário aí de cima, né?! Eu sou aquela que...faz o melhor macarrão na panela de pressão, que tem a pele bonita de fazer inveja...
rsrs.

Felipe Fagundes disse...

Ju, há casos e casos. O seu caso é que, como você mesma disse, você é uma pessoa de sorte. E você é. Acho que o que todo mundo quer é ter amizades antigas e que parecem que vão durar pelo resto da vida. Quem não as tem, as procura. Se você já tem, sua preguiça é justificada. Pra quê correr riscos, né?

Eu quero mais amigos. Tenho muitos colegas mas amigos MESMO, cadê? Muito antigo ainda por cima de, sei lá, 10 anos atrás, impossível. AMIGO mesmo eu só tenho um dois. E são recentes (4/5 anos de convivência). Eu queria mais deles. Amigos pra me ocuparem. Pra eu poder conversar mais vezes. Amigos e mais perto.