domingo, 21 de abril de 2013

- Esse menino nunca sossega? 
Faço sempre a mesma pergunta pra mãe do Vinícius, e a resposta é sempre a mesma:
-Não.
Vinícius tem 1 ano e 2 meses e não para quieto. Às vezes, senta  na sua poltroninha azul, e eu chego a pensar que vai sentar um pouco pra refletir ou ver tevê. Nada. Toda a energia gasta pra se ajeitar na poltroninha é desperdiçada; ele senta e dois segundos depois tá andando pela casa. Vai da sala à cozinha tão rápido quanto uma flecha. A mãe dele nem se dá o trabalho de ver aonde ele vai. Tudo que podia machucar ou matar foi tirado do alcance dele. As gavetas mais baixas, os vãos da estantes, as almofadas são todos dele. Se bem que eu suponho que os armários de comida e panela são os verdeiros xodós do menino. Aposto que, nas noites de sono macio, ele sonha com os armários que  a mãe trancou bem trancadinhos.

Às vezes, a mãe de Vinícius aparece no portão daqui de casa, montada na bicicleta, com Vinicius acomodado na cadeirinha verde. Adoro as visitas deles - e na verdade eles nem são visitas -, mas  meu coração dispara um pouquinho quando ele chega e sai andando pela casa. Dia desses, foi direto no pote da ração da Emma. Não chegou a comer porque eu gritei. A mãe dele só ri. Se ela fosse se preocupar já teria perdido uma parte do músculo do coração. Vinícius entra no quarto da minha vó e agarra os terços e a Bíblia; sobe na cama da minha mãe e fica olhando pela janela ( por dois segundos, é claro). Num outro dia desses, pegou a lupa da minha mãe e um dos meus livros. Eu arranquei a lupa e o livro da mãe dele, sob os protestos ofendidos do menino. Ele faz pirraça quando tiram as coisas da mão dele, mas ninguém se importa muito com os gritos. A mãe dele ignora; eu até imito bem os agudinhos.

Eu morro de medo de que ele alcance a caixa de areia da Emma sem que a gente veja. Então, assim que eles chegam, pego a caixa e coloco no alto. Aliás, Emma tem pavor de Vinícius, apesar de toda admiração que ele tem por ela.  Eles nunca chegaram perto um do outro, mas ele tem fascínio por aquele serzinho peludo de quatro patas.Gatos  devem ser bem intrigantes, bem diferentes de seres que têm duas pernas e pele lisa.

***

O pai do Vinícius jura que ele fala " paiê", mas eu só ouço " mãe".  Todo mundo é mãe, e ele anda pela casa falando mãe, mãe, mãe, mãe. E a mãe dele responde todas as vezes: oi, oi, oi, oi. A mãe do Vinícius fala com ele como se o menino fosse capaz de entendê-la, e ele ouve atentamente. Quando não tem ideia do que ela tá falando, se afasta confuso e pega a chupeta. Mas entende coisas como " pega o chinelo", " sua mamadeira tá pronta", "dá um beijo na mamãe". Os beijos dele são sempre babados.


A mãe do Vinícius tem toda uma técnica pra checar se ele fez cocô, mas ainda  assim pergunta pra ele se a fralda  tá suja. Às vezes, ele responde sim, às vezes responde não. É uma loteria. Mas se ela diz que é hora de trocar a fralda, ele vai lá no pacote e traz uma fralda pra mãe trocar.

Eu me pergunto se ele entende quando a mãe dele diz: " vai lá na Juliana pra ela colocar sua meia". Geralmente, sou a única outra pessoa no recinto, com a meia na mão. Acho que ele sabe quem é a meia, mas não  sabe quem sou eu.

4 comentários:

Luciana Nepomuceno disse...

Me fez chorar lembrando de a) samuel pequeno e b) minhas duas sobrinhas. Meu coração ficou todo batucando de saudade: de quem já fomos e de quem está sendo sem mim.

Beijos no Vinícius (adoro esse nome).

Cheshire cat disse...

Crianças muito pequenas e gatos são meio incompatíveis mesmo. Gatos não sabem lidar com tanta efusividade.

Que delícia de texto :)!

maya disse...

daqueles posts que a gente lê sorrindo do começo ao fim, e impossível não lembrar-se de alguém. muita fofura! [e haha, é, provavelmente eles conhecem mais as meias]

Aline Souza disse...

Vi um filminho do Vinicius enquanto lia seu texto rsrsrs na minha cabeçinha todo mundo tem um rosto rsrsr Bjss