quarta-feira, 24 de abril de 2013

Quando

Muito antes de eu nascer,  morreu uma Juliana. Nas fotos, ela é sempre muito diferente de mim: cabelo branco, pele amarelada de cabocla, muito velha. Morreu de não sei o quê quando minha mãe era menina. Sou Juliana porque minha mãe amou muito essa vó que ela teve. A minha vó amou um bocado essa sogra dela, tanto amou que o que sei da minha xará velhinha é que ela era simplesmente  a melhor pessoa do mundo - uma opinião nada imparcial. 

Quando eu tinha 5 anos, meu avô paterno morreu. Não sei quase nada dele. Lembro só do cheiro de doença que empestiava a casa enquanto ele morria. Sei que ele era caboclo nordestino porque vi fotos em que  a pele marrom contrastava com o branco do bigode. Sei que era pescador e trazia pra casa peixes enormes que minha vó pendurava atrás da porta da cozinha. Não lembro de ter visto peixe nenhum atrás da porta. Sei que ele não era chamado pelo primeiro nome; como marujo, tinha um nome de guerra, nome esse que é o sobrenome que mais uso. Me pergunto o que ele diria dessa neta que não come peixe e ama loucamente o mar. Talvez ele tivesse me ensinado a nadar.

Quando eu tinha 8 anos, minha prima caçula morreu. Ela nasceu com um fígado ruim. Foi o mais desejado dos bebês, mas desde o primeiro dia parecia fadada àquela rotina de hospitais. Eu não a conheci bem. Crianças não podiam entrar na ala do hospital em que ela ficava, então minha outra prima e eu ficávamos no parquinho, enquanto os adultos subiam pra visitá-la. Ela tinha pele morena e olhos amarelados. Na noite em que ela morreu, eu tremi na cama até dormir. Depois, por muito tempo, tive sonhos em que a prima morta não era ela, e sim a minha outra prima, a mãe do Vinícius. Eu via o corpo dessa outra prima deitado sobre uma bancada branca pronta pra ser necropsiado. Se não tivesse, minha prima caçula teria quase 22. Sempre que conheço alguém que nasceu em 1991, lembro da prima que mal conheci.

Quando eu tinha 24 anos, duas pessoas morreram: minha tia- avó e uma vizinha. Minha tia morreu aos poucos; a morte foi um alívio. Quando ligaram pra cá avisando que ela finalmente tinha partido,  não fiquei surpresa; mas ainda assim não quis ir ao enterro.  Por não ter visto o corpo morto da minha tia, passei meses sem me acostumar com a ausência dela. O telefone tocava, e eu tinha certeza que era ela. Se eu me distrair, é possível que ainda atenda o telefone esperando que seja ela.

No mesmo mês em que minha tia morreu, morreu também uma vizinha, um ano mais velha que eu, minha companheira de brincadeiras na infância. Não éramos mais amigas; às vezes, eu até que esquecia que ela existia. Sabia que ela estava noiva, que  queria muito a festa de casamento. Sempre teve problemas de saúde, mas eu nunca achei que morreria jovem. Morreu. Eu soube da morte do modo mais abrupto; um buraco se abriu debaixo dos meus pés quando entendi que ela tava morta. Na noite após o enterro, um silêncio dolorido se espalhou pela rua onde ela morava. Nunca vou me esquecer daquele ar de tristeza na vizinhança. 

Quando minha vizinha e minha tia  morreram, me dei conta de que tenho que usar a conjunção certa. Não adianta dizer " Se eu/ minha mãe/ meu filho/ meu amor morrer...". O certo mesmo é " Quando eu morrer..."


Se você para um segundinho e diz baixinho " Quando eu morrer...",  dá um medinho, né?  

8 comentários:

Luana disse...

Da medinho sim@! =(

To toda arrepiada...

Rita disse...

Meu único medo em relação à minha própria morte é fazer falta aos que me amam. Meus filhos e meu marido, especialmente. Claro que é fácil falar assim, quando a saúde vai bem e a vida segue seu rumo. Mas medo, medo, medão mesmo, daqueles de nem querer pensar no assunto, é o de que mais alguém querido se vá. De novo. Então vamos falar do clima. Calor hoje, né?

Daniela disse...

Eu não tenho marido e filhos. Meus amigos estão espalhados ao redor do mundo e têm vidas plenas, minhas família é bem resolvida em relação à morte. Ninguém vai entrar em depressão ou se jogar da ponte. Então, meu único problema em relação à minha mortalidade é o tanto de coisas inacabadas que eu vou ter que deixar...

Juliana disse...

dani, eu tenho pena de morrer, como disse o chico anysio. eu quero fazer tanta coisa nessa vida e essa certeza de que não vou fazer é ruim demais.


rita, eu não perdi ninguém que realmente me desconcertasse. tenho medo demais. houve um tempo em que eu me preparava pra isso, imaginava como seria.veja só.

luana, como não penso muito nisso, meu medo tem sido medinho por enquanto.

Luciana Nepomuceno disse...

Eu sempre digo quando, pra falar de mim, pra falar dos que amo. Aprendi as perdas quando já as podia aprender, sempre tive muita sorte. Não doeu menos, claro. Amo esse teu post, mesmo que ele me faça sangrar. Beijo

Aline Gomes disse...

Agora que já desembacei o óculos depois de chorar, vamos ao comentário:
Vi muitas pessoas morrerem durante a infância e adolescência. Eu não sabia na época, mas era como se a morte estivesse dizendo: "vou chegar mais perto lentamente." Desconhecidos, semi-conhecidos, conhecidos, amigos, parentes, vô, vó e por fim, a morte que mudou tudo pra mim, que me fez querer morrer também pra não ter que sentir aquela dor horrível, a do meu pai.

Enfim, sempre digo que quero morrer "velhinha, murchinha e feliz" (li isso num livro), mas não tenho mais pavor, um medinho sim, mas não pavor como antes.
O único medão agora é perder outra pessoa tão próxima assim, dói muito mais que cólica e dor de dente, e arranca um pedaço do nosso coração pra sempre.

Cheshire cat disse...

Ju, concordo com o Chico Anysio, tenho pena de morrer. Tem muita coisa legal pra ser feita por aí.

Meu pai foi embora aos pouquinhos, e embora ele tenha sofrido bastante e nós também, acho que eu gostaria de ir embora assim: com tempo para me despedir de quem eu amo e de deixar tudo organizadinho pra ninguém ter dor de cabeça depois. Não curto essa ideia de morrer dormindo, de repente. Acho ainda mais cruel não poder se despedir.

Maeve disse...

tentei comentar esse texto quando li ele no celular e não consegui. que chato! odeio quando isso acontece!

Esse foi meu comentário sobre o comentário que não fiz. Não sobre esse texto que me deu um aperto em todos os meus órgãos internos.