quarta-feira, 22 de maio de 2013

Três vezes na semana, pego no trabalho às 7h. Estar de pé e funcionando tão cedo é uma tragédia pra mim, mas não tenho escolha... Mal tomo café, mal penteio o cabelo, mal me visto, mal consigo subir os degraus do ônibus. Mas chego no trabalho animada. Sou uma pessoa animada, saltitante até. Entro na sala, com minha voz estridente, mandando geral levantar a cabeça e esquecer que horas são.

Daí que ontem eu tava sem energia nenhuma, nenhuma mesmo. Dez minutos de aula e eu nem tinha feito a chamada, nem tinha reclamado dos preguiçosos e dos atrasados. Tava só lá sentada. Um aluno olhou pra minha cara e perguntou o que eu tinha.

 Respondi sem pensar:

-Tristeza.

Uma sombra de confusão passou pelo rosto do menino. Ele esperava uma outra resposta qualquer; a minha tristeza pegou o rapaz desprevenido. Eu deveria ter dito qualquer outra coisa, eu sei, mas é que a tristeza escapuliu.

***
Meu tio morreu. Morreu, morreu, morreu. Às vezes, eu esqueço que ele morreu, então preciso falar em voz alta pra me lembrar. Preciso também dizer o nome dele. Se digo " meu tio morreu", não parece verdade.

***

Eu estou triste  - de uma tristeza que eu não conhecia. Às vezes, sinto como se minha tristeza fosse ilegítima. Meu tio não era o meu pai, não era meu marido, não era meu filho. Não tem nada a ver uma coisa com a outra, mas eu fico pensando que essa tristeza já devia ter passado. Sem sentido algum, eu sei.

***

Na verdade, eu pensei que ir ao enterro resolveria tudo. Quando minha tia morreu, não fui ao enterro. Se eu tivesse ido, teria sido mais fácil apreender a morte dela - eu pensava. Fui ao enterro do meu tio e nada ficou resolvido na minha cabeça. Agora, acho que entendi: a morte vem devagar e vai se instalando aos poucos. O coração para, o cérebro morre, a pele esfria, há uma hora oficial da morte, mas a morte mesmo vem aos poucos. Todo dia o morto vai morrendo aos pouquinhos: a  cada vez que a morte é anunciada, a   cada roupa que é doada, a  cada pessoa que deleta o telefone do morto do celular.

Meu tio começou a morrer pra mim ainda lá no enterro. Enquanto eu percorria as ruelas do cemitério, seguindo o cortejo, me lembrei do amigo oculto da familia. Muito antes de eu nascer, todo anos, acontece um amigo oculto na família - todo ano, sempre. Meu tio esteve em todos; agora não vai estar mais. Essa constatação pesou em mim como se tivessem jogado um tijolo no meu estômago.  Quando o sorteio do amigo oculto acontecer em dezembro, meu tio vai morrer de novo.

9 comentários:

Cristina Lopes Cassiano disse...

Que triste e que lindo esse texto. Sinto muito por você, por seu tio. Mas é isso mesmo, não há um fim pra quem fica.

Cíntia Ribeiro disse...

*abraça forte a Ju*

Tive que segurar as lágrimas. Você pode sofrer por alguém que não era seu pai, nem seu marido, nem seu filho. Se até eu me dei esse direito - e, confesso, ainda me dou quando penso naqueles dias horríveis - você também pode.

Daniela disse...

Ai, Ju. Só queria te dar um abraço...

Luciana Nepomuceno disse...

Um abraço, querida. E é isso, é isso, é isso. A morte é em gerúndio.

Deise Luz disse...

Sinto muito, Ju. Um abraço.

Juliana disse...

vcs são uns amores. obrigada!

Maeve disse...

:(

Juju M. disse...

Juju, um abraço grande para ajeitar um pouco essa tristeza.

Palavras Vagabundas disse...

Ju, o difícil é constatar que a morte se instala devagar e a tristeza chega silenciosa.
Um forte abraço e beijos
Jussara