quinta-feira, 6 de junho de 2013

De mais ninguém

Eu tenho direito.

De cortar o cabelo, odiar o corte,  ainda assim amar o meu cabelo e ter paciência com a transição pela qual meu cabelo passa. Tenho direito de não falar mal do meu cabelo, de achar que ele é ótimo, como tudo que está no meu corpo.

Tenho direito.

De não fazer dieta, de não comer açúcar, de ser gorda, de não falar mal do meu corpo, de não me incomodar com o tamanho da minha bunda, de ter crises na frente do espelho, de achar que tudo que há em mim é bom. ( Se bem que eu queria ter olhos maiores e mãos menores, mas  tenho direito de querer alterar o que não pode ser alterado)

Tenho direito.

De sair na hora que quiser, com quem eu quiser , pra onde quiser. De pegar metrô, táxi, trem, ônibus, barca, avião e ir. Do jeito que eu quiser, se eu quiser, ainda que o céu esteja desabando, ainda que uma nevasca esteja pra chegar no Rio de Janeiro.

Tenho direito.

De dormir onde eu quiser, com quem eu quiser, quando eu quiser, como eu quiser.

Tenho direito.

De comprar livro velho, livro novo, livro, livro. De não comprar sapato, de não comprar roupa, de comprar as coisas erradas. De perder meu celular, de esquecer a chave, de ligar pra pedir ajuda, de cair e não quebrar o pé.

Tenho direito.

De ter os mesmos complexos há anos, de ter complexos novos, de só falar dos complexos no divã. Minhas maluquices são minhas, só minhas e de mais ninguém. Podem não ser maluquices elegantes ou publicáveis, mas são minhas e  tenho direito de mantê-las pelo tempo que eu quiser. Quando eu quiser, abandono as maluquices velhas e arranjo umas novas, só pra conservar a humanidade.

Tenho direito.

De não ter medo. De ter medo, mas viver mesmo assim. De ser não ser dócil, de ser meio marrenta, de dizer o que eu quero dizer. De nunca saber o que dizer.

Tenho direito.

De ter o meu tempo. E o meu tempo é mesmo outro; não é um tempo cronológico. Vou fazer 29, mas nem sempre me pareço com as outras que também vão fazer 29 e tá tudo bem. Tenho paciência e ninguém merece mais a minha paciência do que eu mesma. 

Tenho toda paciência do mundo.Me dou o direito de ter toda paciência do mundo. 

Me dou o direito de ir aos poucos, como pode, como dá.

Me dou o direito de não ser feliz o tempo todo.

Me dou o direito de sentir o peso da tristeza, de sentir o peso do cansaço na testa.

Eu simplesmente me dou o direito.

E ninguém tem nada com isso. E ninguém devia se preocupar com os meus direitos  além de mim mesma, porque, ó, sou gente como todo mundo é gente.  E a gente é bem mais feliz quando cuida bem da própria vida - só da nossa e de mais ninguém.



5 comentários:

Preta Arsenio disse...

Aplausos, Jú! Amei seus direitos mega revogados a si mesma. Ah se cada um fizesse o mesmo por si! Parabéns!

Iolanda Lopes disse...

Oi Juliana,
Temos todos esses direitos, e por vezes esquecemos de usa-los.
E a forma que me lembrou deles, soou harmoniosamente aos meus ouvidos.

Bom final de semana

Anônimo disse...

Assim como a educação e a saúde, esses direitos simples, porém primordiais, são cotidianamente desrespeitados. Cuidar da própria vida é um ato de extrema coragem e sobretudo, paciência. Talvez por isso tenha tanta gente cuidando mais da vida dos outros do que da própria. Ao reclamá-los, vc certamente incomoda essas pessoas, pois cutuca nelas o desejo (e o medo, claro) de defendê-los também.
Bjo. Sussu

Tati disse...

Ah Ju, desculpa a minha ausência, mas esse seu manifesto já fez eu me arrepender de não estar aqui antes! Antes tarde...
Temos todos esses direitos e que coisa boa é quando a gente faz as coisas porque quer e não porque se sente obrigada! Evita tantas doenças e sintomas ruins!!
Beijo enorme!
Tati

Rute de Almeida disse...

Vou fazer um Keep calm and eu tenho direito! e colocar no meu quarto. Quero só ver alguém discordar. :)