terça-feira, 27 de agosto de 2013

Não sei lidar

Passo pros alunos uma  atividade que envolve  pedir pra pessoa mais velha que eles conhecem contar uma história da infância. Digo pra eles que quero histórias de pessoas que foram criança num tempo diferente do nosso. Pra variar, eles reclamam, dizem que é chato, que não vão fazer nem mortos. Aí um menino vira pra  mim e diz:
- Professora, a pessoa mais velha que eu conheço é a minha mãe. A história pode ser dela?
- A sua mãe? - Acho estranho. - Quantos anos sua mãe tem?
- 27.

Beijo, gente! Tô indo lá pro asilo.

A saber: meus alunos nasceram 2001, 2002. Ou seja, nasceram anteontem!

domingo, 25 de agosto de 2013

Quatro da manhã, e eu não tenho nenhum sono. Estava deitada,tentando ler, mas o som dos gatos andando no telhado faz com que eu perca a concentração. Na verdade, o barulho que os gatos fazem me assusta. Fiquei com  o coração disparado por duas vezes. Levantei e fui me certificar de que não tinha ninguém forçando a porta da cozinha ou coisa do tipo. Checar a porta da cozinha, na verdade, é um movimento inútil. O que eu poderia fazer se alguém realmente estivesse lá fora, com uma arma, uma faca, sei lá? Antigamente, eu costumava ter um plano pra essas  situações: dormia com o número da casa da minha tia digitado na tela do celular; qualquer coisa era só apertar o botão verde e pedir socorro. Minha tia imediatamente ligaria pra polícia e apareceria aqui em casa com toda a vizinhança pra me ajudar. Durante o tempo em que a minha ansiedade era doentia, o ritual do número discado no celular era a única coisa que garantia meu sono. Esse foi um truque que meu pai me ensinou.

A primeira vez em que dormi sozinha foi na casa do meu pai. Eu devia ter uns 14 anos. Tava lá de férias, meu pai trabalhava à noite, em sistema de plantão, eu teria de passar a noite sozinha. Ele me fez trancar todas as fechaduras da porta, repetiu mil vezes que ninguém tocaria a campanhia enquanto ele estivesse fora, me mandou dormir com o telefone perto da cama. Foi uma noite estranha aquela. Fiquei com medo de dormir, então vi todos os seriados disponíveis na tevê, comi biscoito, sentei perto da janela com o binóculo. Eu costumava espiar a vizinhança com o binóculo. Meu pai morava no nono andar, e eu, acostumada a morar numa casa, achava o máximo que houvesse prédios com gente morando em volta. Nunca vi nada de interessante, só janelas entreabertas. Especificamente naquela noite, o binóculo me fez pensar que pudesse haver alguém me espionando também; alguém que saberia que eu era uma menina dormindo sozinha. Deixei o binóculo pra lá e deitei na cama, com o propósito de dormir. Peguei num sono superficial e ansioso; dormi com telefone em cima da barriga. Só voltei a respirar normalmente quando meu pai chegou de manhã. 

Hoje, nem sono ansioso tenho. Na verdade, nem estou sozinha, mas sinto como se estivesse. Meu celular não tá embaixo do travesseiro porque , pra variar, não sei onde coloquei. Se soubesse que ainda estou acordada, minha mãe diria que a culpa é do computador. Pra minha mãe,  a insônia, as preocupações, o cansaço, tudo vem do computador. É engraçado. Não importaria o fato de que eu estava lendo um livro melancólico e confuso, em vez de estar na internet. Minha mãe nunca culpou os livros de coisa alguma. Na verdade, ela me dizia, quando eu era menina, que deveria utilizar as horas insones pra escrever  as histórias pro meu livro. Porque, quando eu era menina,  não tinha outro plano que não fosse o de escrever livros, ser famosa como a Agatha Christie e entrar pra ABL. Era um plano muito caro ao meu coração - e eu falava dele pra todo mundo. Eu devia ser uma menina bem engraçada de  se ouvir.

Hoje, nem leio mais Agatha Christie. Li quase tudo e cansei. Conheço um pouco do passado e o presente da ABL - bem, não é uma instituição pela qual me interesso. Não escrevi livros - e provavelmente não escreverei. Mas ainda gosto de escrever. Por isso, liguei o notebook, conectei a internet, abri o rascunho do blogger, tudo no escuro. Hoje eu tenho a vantagem de escrever no escuro. Mas não contem pra minha mãe que esse post foi escrito com a luz do quarto apagada; ela dirá que escrever no escuro só piora a minha miopia. E eu nem tenho miopia - só astigmatismo, meio grau em cada olho. Mas pra minha mãe não importa o diagnóstico do oftalmologista: tenho miopia provocada pelo escuro e ponto final.




sábado, 24 de agosto de 2013

Bem por aí




"But sometimes don't you just crave
To disappear within your mind
You never know what you might find"
( All at sea - Jamie Cullum)

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Quando foi que ...

... comecei a  consultar o cardápio de saladas do restaurante?
(mas ainda prefiro hambúrguer.)
... todo mundo que estudou comigo resolveu trazer criancinhas ao mundo?
( todo mundo mesmo!)
... parei de ter paixonites platônicas?
(  caramba, as paixonites costumavam ser a força motriz dos dias.)
... o menino mais lindo da escola virou aquele cara com uma pancinha?
( pancinhas, pançonas, cabelo branco, princípio de calvície)
...  comecei a usar filtro solar todos os dias?
(todo dia, todo dia, todo dia)
...  passei a ter a mesma idade que  muitas das mães dos meus alunos?
( é preciso levar em consideração que meus alunos nasceram no início dos anos 2000 e suas mães tiveram filho cedo. Mas, né?)
... aquelas 3 linhazinhas que aparecem no canto do olho quando sorrio se tornaram tão sulcadinhas?
( tão bem aqui ó!)
... precisei aprender a declarar imposto de renda?
( aprendi?)
... parei de ver os desenhos animados que passam no SBT?
( eu costumava ficar feliz quando chegava mais cedo da faculdade e tava passando Liga da Justiça)
... parei de ter espinhas?
( mas os cravos persistem)
... passei a medir a pressão arterial de seis em seis meses?
( todo um histórico familiar me assombra)
... comecei a pesquisar preço de fogão e geladeira?
(como custam caro!)
... que os bancos passaram a me oferecer seguro de vida?
( ah, eu não quero morrer!)
... o orkut ficou obsoleto?
(  Saudade!)
... começou a segunda década do século?
( pra mim, 2002 nunca acabou)
... 1984 passou a ser um ano longínquo?
(eu nasci há dez mil anos atrás...)
... eu fiquei tão gente grande assim?

Quando? Quando? Quando?



segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Delicadinha

Sempre que a Rute me indica alguma música, já ouço certa de que vou amar.  A gente tem gosto musical parecido. Não paro de cantarolar essa daqui:



"Eu gosto da falta quando falta mais juízo em nós
E de telefone, se do outro lado é a sua voz
Adoro a pressa quando sinto
Sua pressa em vir me amar"



Também gostei da versão original, do Doce Encontro.

sábado, 17 de agosto de 2013

Depois de ler

Terminei de ler Cartas perto Coração e sinto como se dois amigos queridos tivessem ido embora pra muito longe. Como é possível que cartas escritas por pessoas que nunca verei, escritas antes mesmo de minha mãe nascer, dizerem tanto pra mim, sobre mim? Poderia passar semanas e semanas lendo todas as cartas que Fernando e Clarice já escreveram. Queria que eles fossem meus amigos e escrevessem pra mim também.Eu nunca li nada do Sabino, nadinha mesmo - e isso deve ser uma falha e tanto na minha formação. Agora quero ler. Depois de conhecer o amigo da Clarice, quero conhecer o escritor. Quero também ler o livros que ele cita. Queria, sobretudo, abraçá-lo  dizer que não saberia dizer. 

Terminei o livro com o coração leve, pensando no quanto amizade é uma coisa bonita. Eu  acho que amizade é daqueles sentimentos pros quais não há definição. Se a gente for pensar direitinho, é bem maluco isso de esbarrar com alguém no mundo, conviver, gostar tanto  e, principalmente,  descobrir que essa pessoa entende o que você sente, sente o que você sente. Clarice e Fernando passaram muitos anos longe um do outro. Moraram em países diferentes, nem sempre mantiveram a correspondência em dia, mas amizade tava ali. Não é extraordinária essa sintonia fina que mantém as pessoas próximas apesar de tempo e do espaço? Eu acho extraordinária. E termino o livro pensando na sorte que tenho de ter algumas Clarices e Fernandos na minha vida. Aos meus amigos, devo a pessoa mais sadia e mais disposta que sou hoje. Meus amigos são a minha família. Amizade sempre me comove.

Termino o livro prometendo que não volto a esconder na estante um livro que André me der. Eu já devia ter aprendido a lição, visto que meus dois livros favoritos foram presente dele. Tenho mais um favorito agora.

André, parafraseando Clarice e você,  também não sei agradecer a amizade.

" Mas o engraçado é que não tendo absolutamente nada o que  dizer,  dá uma vontade enorme de dizer. O quê? Quando não tenho o que dizer, fico com vontade de " passar a limpo" tudo ou então de " apagar tudo" e recomeçar, recomeçar  não ter o que dizer. Ou então viro criança  minha vontade seria depender inteiramente de outra pessoa e esperar dela todos os ensinamentos. Ou então viro mãe e me preparo toda pra dizer grave: as coisas são assim e assim, meu filho. Preparo-me bem grave, tenho gesto maternal de começar a informar - e na hora de abrir a boca não tenho o que dizer, viro de novo ignorante  em vez de dizer o discurso, imploro: por favor, diga! E assim é que , por não ter absolutamente nada o que dizer, até livro já escrevi, e você também."

Trecho de Cartas perto do Coração, pág.115


Clarice e Sabino passam metade do tempo pedindo desculpas por não terem o que dizer, por não saberem dizer, por não dizerem o que querem dizer. Eu sofro do mesmíssimo mal.  Ler as cartas deles, então, me serve de consolo. A diferença entre mim e eles é que , por não saberem  que dizer, escrevem livros; eu só não digo nada, mesmo.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Bem perto

Estou apaixonada, muito apaixonada. Fazia tempo que não ficava tão apaixonada. Estou apaixonada por Cartas perto do Coração. André me deu esse livro no meu aniversário do ano passado, e eu simplesmente guardei na estante. Devo ter folheado um pouco, nenhuma química deve ter rolado entre o livro e eu, guardei. Daí que na terça eu queria alguma coisa pra ler, corri os olhos pela estante cheia de livros não lidos e pensei: por que não o Cartas? Não sei nada do Sabino, mas gosto da Clarice. Tive minha fase de tiete da Clarice. Ler as cartas que ela escreveu para seu grande amigo, o também escritor Fernando sabino, não seria nada mal nessa nova fase da minha vida, em que passo um tempão dentro do ônibus. 



Cartas é um livro muito querido pelo André -sei disso faz tempo-, Sabino é um escritor importante e tal,mas eu só fui ler Cartas por causa da Clarice.  Fiquei imaginando que a correspondência trocada por dois escritores poderia ser meio chatinha, meio pedante, porém tinha quase certeza de que as cartas da Clarice salvariam o livro. Conheço Clarice de suas crônicas deliciosas reunidas em A Descoberta do Mundo. Clarice que ama o Chico Buarque, Clarice que pensa e escreve doidices, Clarice que matou os peixes. Cartas da Clarice certamente serão legais de ler, pensei eu. Pois é, me enganei. Quer dizer, as cartas de Clarice são tão deliciosas quanto eu supus, no entanto fui surpreendia pelo o tanto de encantamento que as mensagens do Sabino foram  capazes de provocar. Eu já ri, já chorei, já sublinhei trechos inteiros, lendo  o Sabino. Sei lá por que estava esperando que o Sabino escrevesse cartas empoladas e bestinhas. Nada disso. Cartas perto do Coração foi escrito por Fernando e Clarice, pessoas físicas, gente de carne e osso, grandes amigos que querem bem um do outro. As cartas deles são iguaizinhas àqueles e-mails, sms, whatsapp que a gente manda  pros amigos no meio do dia. Clarice e Fernando falam de angústia, de tristeza, de rotina, de livros, de frivolidades, de alegrias. Dá vontade de ser amiga deles. 

Ainda não terminei o livro. Estou na página 102, faltam mais 100. Só não terminei ainda porque  tenho lido apenas no ônibus. Minha vontade era  devorar o livro todinho de uma vez, mas não dá. Então, eu vou lendo devagar,  tão devagar quanto o ônibus cruza a Avenida Brasil engarrafada. E entre uma página e outra, vou mandando whatsapp pro André dizendo que o livro é lindo,   que eu tô amando, nossa, que legal esse livro. Aí o André me responde: " Como  é que você ainda não tinha lido?!"

Pois é. Como é?

                                                                    <3 <3 <3


P.S. : Eu assino embaixo do que o Gabriel disse no blog dele: eu também copiaria o livro todo aqui.

Outro p.s. o título do livro faz referência ao MARAVILHOSO livro da Clarice, Perto do Coração Selvagem.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Livros e trilhos

Comprei dois livros quando estive em São paulo, ambos por dois reais. Contos de Amor Rasgados e De Balão ao Deserto do Saara estavam disponíveis em umas máquinas de venda, localizadas em algumas estações de metrô. Funciona assim: os livros ficam dispostos em máquinas semelhantes àquelas que vendem refrigerante. Você pode pagar por eles o quanto acha que valem. Para tanto, insere a nota na máquina, digita o número do livro escolhido e pronto!  

De primeira, não fiquei lá muito interessada nos livros, até que bati os olhos nesses dois:


Meu celular é modesto, portanto tira fotos modestas.

Contos de Amor dispensa apresentações, certo? O outro é justamente um livro que li na quarta série e nunca mais tinha visto. De Balão ao Deserto do Saara faz parte da Coleção Escolha Sua Aventura da Ediouro. Li a coleção quando tinha dez anos. Os livros foram indicados pela escola naquele ano, e  eu fiquei completamente apaixonada. O único problema é que nunca tive nenhum dos livros da coleção porque naquele ano meus pais não compraram os livros paradidáticos. Eu queria tanto aqueles livros! Bem, fiquei chateada por um tempo, li outros livros, cresci, entrei numa estação de metrô em São Paulo e ... Tcharan! 
Como boa pão dura que sou, paguei 2 reais pelo livro e trouxe  pra casa.

                                            

Mas o que esse livro tem de especial? Gente, ele era o máximo. É um livro daqueles que você escolhe  os rumos da história. Olhem a foto da primeira página aí embaixo. Eu sei que a foto tá péssima,mas façam um esforço, vai.  A história começa assim:


" Você está visitando a França com seus dois melhores amigos, Pedro e Sara. De repente, Pedro tem uma ideia maluca:
- Vamos alugar um balão? Ia ser um barato... - todos topam. Aluga-se um balão. E aventura começa..."



Daí por diante a história vai se desenrolando conforme as escolhas do leitor. No rodapé, aparecem opções. Se você quiser que determinada coisa aconteça, tem que ir pra página X. Se quiser que uma outra coisa aconteça, tem que ir pra página Y. Não é legal? Sim, é muito legal. Em 1994, era o livro mais legal que eu já tinha visto na vida.


 Achei muito legal essa ideia de máquinas de vender livro no metrô. Os títulos não são todos incríveis, mas dá pra achar coisas legais como eu achei. Pra mim, a máquina dos livros funcionou como uma verdadeira máquina do tempo.



P.S.: No Rio, há uma biblioteca na estação Central, a Livros e Trilhos. Foi de lá que roubei o título do post.


Update : A Elisa me disse que a biblioteca tá fechada há 3 anos. Eu passo por lá sempre e nunca notei que tá fechada. Sou muito observadora, né? Elisa também disse que há uma máquina dessas aqui no Rio, na estação Carioca.


domingo, 11 de agosto de 2013

Eu queria ser dessas pessoas afetuosas. Queria muito. Queria abraçar sem neuras e dar beijinhos estalados.Queria não hesitar segundos antes de encostar a cabeça nos ombros mais próximos. Eu sempre hesito.

Queria dizer. Eu sempre sinto, sinto muito, sinto tanto, sou cheia dos sentimentos, mas nunca digo. Acho que as pessoas acabam adivinhando. Queria que não fosse preciso adivinhar. Queria não ficar parada num canto sem ação. Queria mais do que arregalar os olhos. Sei que meus olhos são bons em dizer, mas eu queria dizer, dizer mesmo. Escuta, meu amor. Olha, meu bem. Meu amor.

Penso duas vezes antes de tudo. Penso duas vezes e não faço. Fazer é sempre um exercício - um exercício tímido de que tem medo de invadir. Queria não ter medo.

Se eu não tivesse medo...

sábado, 10 de agosto de 2013

Tudo novo de novo

Eu estava parada na janela da sala de aula. Tem feito dias extraordinariamente bonitos no Rio. Parei na janela pra olhar um pouco o céu, espiar a vizinhança. Olhei pra praça em frente à escola e fui erguendo os olhos, prestando atenção em tudo e, de repente, me deparei pela primeira vez nesse primeiro mês de emprego novo com o vizinho mais ilustre da escola. Lá longe, ao fundo,  estava o Cristo, com um dos seus braços apontados bem pra mim.

- Gente, mas é o Cristo!

Os alunos desdenharam da minha surpresa.

- Ué, ele tá sempre aí!

É, mas eu nunca tinha visto.


***

Muitos dos meus novos alunos são nordestinos ou filhos de nordestinos. Vários deles vieram da Paraíba. Eles abrem a boca e a gente já sabe que estiveram em outras partes do país. Às vezes, peço que falem mais devagar pra  que eu possa entender o que tão dizendo. Experimentem tentar entender uma pessoa de 12 anos, dentro de uma sala de aula cheia de outras pessoas de 12 anos, falando com um sotaque com o qual você não está acostumada. Experimentem.

Quando percebo um sotaque, vou logo perguntando de onde ele ou ela veio. A resposta  sempre envolve alguma cidade do Nordeste e é dita de muitas formas. Uns baixam os olhos e respondem baixinho. Outros respondem com voz alta e tom desafiador, como quem espera escárnio. Um deles falou no meu ouvido que era Campineiro. Meus alunos, meninas e meninas de 12 anos, têm vergonha de dizer de onde vêm. Há uma explicação possível: aqui no Rio de Janeiro, o nome do estado de origem de boa parte dos meus novos alunos é usado com sentido pejorativo. A palavra Paraíba carrega significados bem distintos dos sentimentos de saudade e afeto que meus meus alunos demonstram ao falar do lugar onde nasceram. Paraíba, no Rio de Janeiro, é um termo que suplanta a identidade daqueles nascidos nos mais diversos estados do Nordeste, que reforça estereótipos, que ofende. Ser "paraíba" não é uma coisa boa de ser.

Parte o coração da gente perceber  o peso do preconceito incidindo sobre gente tão jovem.

(Um dos meninos, apesar do seu sotaque, disse que nunca tinha saído do Rio. Eu estranhei. Aí ele falou, com a maior simplicidade do mundo: " Nasci aqui, mas eu falo do mesmo jeito que minha família". E eu fiquei achando que não poderia haver resposta mais sábia e didática.)

***

Na terça à noite, sentei no chão do quarto para esperar. Eu queria dormir, precisava dormir, mas não conseguia. Enquanto eu ouvia Caetano e jogava Pet Rescue, duas menininhas muito importantes estavam nascendo. Eu poderia ter ido dormir, poderia ligar pro pai delas no dia seguinte, mas queria estar acordada  enquanto as meninas nasciam. 

Caetano tava cantando Leãozinho quando o celular vibrou. Eu estava esperando a notícia, mas não tava preparada pras  fotos que vieram  pelo Whatsapp. Ver pela primeira vez  bebês muito aguardados é sempre um evento. Meus olhos ficam molhados sempre que lembro.

***
Dei uma mexidinha na cara do blog. Tava enjoada da cara antiga, tava procurando uma  nova.