domingo, 25 de agosto de 2013

Quatro da manhã, e eu não tenho nenhum sono. Estava deitada,tentando ler, mas o som dos gatos andando no telhado faz com que eu perca a concentração. Na verdade, o barulho que os gatos fazem me assusta. Fiquei com  o coração disparado por duas vezes. Levantei e fui me certificar de que não tinha ninguém forçando a porta da cozinha ou coisa do tipo. Checar a porta da cozinha, na verdade, é um movimento inútil. O que eu poderia fazer se alguém realmente estivesse lá fora, com uma arma, uma faca, sei lá? Antigamente, eu costumava ter um plano pra essas  situações: dormia com o número da casa da minha tia digitado na tela do celular; qualquer coisa era só apertar o botão verde e pedir socorro. Minha tia imediatamente ligaria pra polícia e apareceria aqui em casa com toda a vizinhança pra me ajudar. Durante o tempo em que a minha ansiedade era doentia, o ritual do número discado no celular era a única coisa que garantia meu sono. Esse foi um truque que meu pai me ensinou.

A primeira vez em que dormi sozinha foi na casa do meu pai. Eu devia ter uns 14 anos. Tava lá de férias, meu pai trabalhava à noite, em sistema de plantão, eu teria de passar a noite sozinha. Ele me fez trancar todas as fechaduras da porta, repetiu mil vezes que ninguém tocaria a campanhia enquanto ele estivesse fora, me mandou dormir com o telefone perto da cama. Foi uma noite estranha aquela. Fiquei com medo de dormir, então vi todos os seriados disponíveis na tevê, comi biscoito, sentei perto da janela com o binóculo. Eu costumava espiar a vizinhança com o binóculo. Meu pai morava no nono andar, e eu, acostumada a morar numa casa, achava o máximo que houvesse prédios com gente morando em volta. Nunca vi nada de interessante, só janelas entreabertas. Especificamente naquela noite, o binóculo me fez pensar que pudesse haver alguém me espionando também; alguém que saberia que eu era uma menina dormindo sozinha. Deixei o binóculo pra lá e deitei na cama, com o propósito de dormir. Peguei num sono superficial e ansioso; dormi com telefone em cima da barriga. Só voltei a respirar normalmente quando meu pai chegou de manhã. 

Hoje, nem sono ansioso tenho. Na verdade, nem estou sozinha, mas sinto como se estivesse. Meu celular não tá embaixo do travesseiro porque , pra variar, não sei onde coloquei. Se soubesse que ainda estou acordada, minha mãe diria que a culpa é do computador. Pra minha mãe,  a insônia, as preocupações, o cansaço, tudo vem do computador. É engraçado. Não importaria o fato de que eu estava lendo um livro melancólico e confuso, em vez de estar na internet. Minha mãe nunca culpou os livros de coisa alguma. Na verdade, ela me dizia, quando eu era menina, que deveria utilizar as horas insones pra escrever  as histórias pro meu livro. Porque, quando eu era menina,  não tinha outro plano que não fosse o de escrever livros, ser famosa como a Agatha Christie e entrar pra ABL. Era um plano muito caro ao meu coração - e eu falava dele pra todo mundo. Eu devia ser uma menina bem engraçada de  se ouvir.

Hoje, nem leio mais Agatha Christie. Li quase tudo e cansei. Conheço um pouco do passado e o presente da ABL - bem, não é uma instituição pela qual me interesso. Não escrevi livros - e provavelmente não escreverei. Mas ainda gosto de escrever. Por isso, liguei o notebook, conectei a internet, abri o rascunho do blogger, tudo no escuro. Hoje eu tenho a vantagem de escrever no escuro. Mas não contem pra minha mãe que esse post foi escrito com a luz do quarto apagada; ela dirá que escrever no escuro só piora a minha miopia. E eu nem tenho miopia - só astigmatismo, meio grau em cada olho. Mas pra minha mãe não importa o diagnóstico do oftalmologista: tenho miopia provocada pelo escuro e ponto final.




7 comentários:

Lisa disse...

Engraçado como sua mãe diz que o computador causa insônia. Qd eu tô com a cabeça cheia, só o computador pra distrair a limpar a mente e ajudar a dormir. Ultimamente anda sendo difícil pregar os olhos tb. Não por falta de cansaço. Mas por excesso de correria. Os dias estão mais longos, o corpo demora a desacelerar. Mas, ao mesmo tempo, qualquer 15º de inclinação já me derruba.

Luciana Nepomuceno disse...

Ju, sabe quando a gente é pequena e vai pra praia e cava piscininha na areia e brota água salgada? Seu blog cava meu peito e brota sal no meu olho, eu pisco, pisco e ainda é borrado o mundo... Nem sei dizer porquê, é tudo tão diferente, eu dormi tanto ontem, por exemplo e, ainda assim, me chega tão íntimo. Nem sei terminar esse comentário, só queria que vc soubesse o tanto que suas letrinhas importam.

Palavras Vagabundas disse...

Nós e nossas paranóias. Você postou por volta da 0 hora e trinta minutos, provavelmente eu estava acordada e só pensando que o começo da minha luta com o sono começaria por volta das 2hs, insônia a gente vê aqui em casa. Aliás como sei que ela está lá, nem ligo, fico no computador, lendo ou vendo TV. Não lute e aproveita e escreve as suas histórias, a ABL é bem chatinha, mas gosto do que você escreve.
bjs
Jussara

Inaie disse...

fiquei morrendo de pena da menininha do nono andar! :-(

Maeve disse...

poxa, Ju, como é que você consegue escrever assim tão lindo, hein?
:')

livroseoutrasfelicidades disse...

Concordo com sua mãe: aproveite a insônia e vá rabiscando seu livro. Prometo que compro.

Elaine Gaspareto disse...

Juliana, nesse exato momento concordo com tua mãe... tenho percebido que deitar imediatamente depois de ter passado muito tempo ao computador me deixa com a cabeça cheia e eu não consigo dormir.
Sei lá... vai que ela tá certa? rsrsrsrsr

bjssss